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Teresa Almeida, designer de interacção: Cosendo circuitos que quebram tabus

Há vários anos que Teresa Almeida é investigadora e designer na área dos e-textiles (têxteis electrónicos). Ao longo dos mesmos, os seus projectos foram juntando a questão técnica a outros tópicos sociais, essencialmente ligados ao empoderamento feminino. De visita a Cabo Verde, a designer realizou um workshop sobre e-textiles,  na Uni-CV, e apresentou a plataforma Bitness no Women Summit “Liderança Feminina”, um evento Womenise.it.

 

Desde que começou a trabalhar com e-textiles, há mais de 10 anos, que Teresa Almeida não parou de investigar e projectar nesta área. E nos seus projectos vai mantendo um diálogo entre a computação e a tecnologia e temas tabu, como os cuidados de saúde íntima da mulher, usando a tecnologia para promover mudanças sociais e culturais.

 A todo o lado aonde vai, leva um pouco dessa paixão e retroalimenta-a. Projectando, difundindo e observando. A designer portuguesa, de 41 anos, já correu meio mundo – fez o mestrado em Nova Iorque, foi professora de Arte Interactiva em Singapura, regressou à Europa, a Inglaterra, onde fez o doutoramento na Universidade de Newcastle. Agora, está já de malas aviadas para a Suécia, onde vai fazer um pós-doutoramento em que irá continuar a trabalhar na área do design de interacção (human-computer interaction).

Nem mesmo em férias, a designer se afasta da sua paixão pelas áreas que investiga. Aliás, o principal motivo que a trouxe a Cabo Verde foram as férias. Mas logo juntou o útil ao agradável. Contactou o designer/investigador da UNI-CV Salif Silva e propôs a realização de workshop de design de e-textiles na Universidade.

“Quando viajo gosto de saber o que acontece nos sítios. Entrei em contacto para ver se havia alguma coisa dentro da área do design, interacção e tecnologias que me pudesse interessar e a partir dai sugeri fazer um workshop. É algo que me dá imensa satisfação e tenho feito vários workshops pelo mundo todo: com crianças, com pessoas de várias idades, só com mulheres… Pensei que poderia haver interesse”, recorda.

Assim, no passado dia 17, foi realizado na UNICV um workshop  denominado “Design de e-textiles: introdução aos circuitos têxteis” que  pôs alunos e professores a coser e a criar circuitos eléctricos.

Nesta sua visita a Cabo Verde, Teresa Almeida - cujo trabalho, como referido, usa as tecnologias criativas como catalisador para temas sociais, derrubando temas tabus da corporalidade das mulheres – participou ainda  no Women Summit “Liderança Feminina”, que decorreu na Praia nos dias 17 e 18.  O evento, organizado pelo colectivo Womenise.it., reuniu mulheres de várias paragens e diferentes backgrounds, que durante esses dois dias partilharam experiências profissionais e pessoais, perspectivas e projectos.

 

Os e-Projectos de Teresa

Teresa Almeida tem concebido vários produtos conceptuais, ou “design especulativo”, como lhes chama. Um desses trabalhos, que mostrou no workshop na Uni-CV a título de exemplo, é o de uma t-shirt que promoveria o auto-exame da mama. “A ideia é usar esta tecnologia vestível no corpo, para lembrar a mulher, quando o põe, da apalpação, apalpar nos sítios indicados. Não é um produto, é uma coisa bastante especulativa, um conceito, mas abre caminho a essas potencialidades imensas de usar as novas tecnologias e os novos materiais”, explica ao EI.

Actualmente, Teresa almeida está a lançar a Bitness, que aliás apresentou no Women Summit e que uma plataforma que ajuda a difundir o seu trabalho “a título individual” mas que conta também com colaboradores.

Uma plataforma para “partilha e colaboração acerca de abordagens critico-humanísticas no design de tecnologias que suportem a mudança sócio-cultural e derrubem tabus”, como se lê na própria página.

Trata-se de um site que concentra vários workshops temáticos que realiza, os conceitos que tem trabalhado e “eventuais produtos” que espera vir a fazer e que advêm dos seus projectos de investigação académica. Na realidade, a própria Bitness poderá ser um veículo de angariação de fundos para esse “salto” entre o especulativo e o produto.

“Pensei numa forma de sair da investigação académica e tornar esses projectos mais acessíveis e interessantes para pessoas que não têm acesso a competências académicas. Então surgiu o Bitness”, que funcionará também como uma marca, explica.

Um dos projectos mais elaborados que realizou a nível académico, no seu doutoramento, é Labella. Foi o segundo caso de estudo do seu doutoramento, concebido a partir do “primeiro que era ligado aos e-textiles” e consistia num kit para o pavimento pélvico.

Assim, surge  Labella que consiste numa peça de roupa interior (umas cuecas)  e uma app de telemóvel. Na zona das cuecas que cobre os órgão sexuais, há uma serigrafia e o telemóvel deve ser usado como um espelho, voltado para essa imagem.

Mais do que simplesmente olhar, há uma interacção, fomentando a consciência do corpo. O telemóvel tem de ser alinhado com o padrão da serigrafia e depois há uma “aumentação” (no âmbito do conceito da realidade aumentada) do períneo e “a imagem alimentada convida a tocar”. Ao mesmo tempo dá informação sobre as diferentes áreas e só depois se avança para a etapa seguinte que “tem a ver com os exercícios pélvicos” (exercícios de Kegel). Há uma simulação dos exercícios no telemóvel, mas a tendências, pelo menos entre as mulheres que testaram o Labella, é replicar os movimentos no próprio corpo. A interacção Mulher-Máquina acontece.

 

Exercitando o tabu

Labella (assim como vários outros projectos da designer) quebra tabus relacionados com a mulher.

“Obriga” a mulher a olhar directamente para as partes íntimas do seu corpo e perceber aquilo que realmente sabe ou não sobre este, percebendo o seu funcionamento.

“ É importante haver inovação, em torno das tecnologias existentes, dos designs existentes, para a mulher ter conhecimento do seu corpo”.

Na realidade, essas são partes do corpo sobre as quais ainda há um silêncio, seja a nível privado como público (nomeadamente na escola). “ São temas tabu, em todo o lado do mundo, continuam a ser. E a minha questão era como se consegue quebrar essa barreira do conhecimento. Penso que os designs que tenho feito são catalisadores para a conversa, para quebrar esse estigma, para quebrar o tabu”, considera Teresa Almeida.

Não há teor sexual na investigação até agora levada a cabo pela designer. A questão é mesmo o corpo e a saúde. Mesmo assim, mesmo no meio académico, o tema do corpo e cuidados íntimos da mulher continua a não ser muito bem visto. “Isto continua a ser… tabu”.

E ao derrubar-se tabus e fomentar o conhecimento do corpo, assume-se também o empoderamento das mulheres e raparigas .

Entretanto, o trabalho desenvolvido por Teresa tem vindo a ser reconhecido e premiado. Adesigner foi laureada no programa da UN Women “Empower Women Champion for Change 2016/2017” e está, neste momento, na shortlist de um programa da openIDEO que será uma boa oportunidade para conseguir passar os seus designs de protótipos a produtos.

 

e-Textiles: Cativar mulheres para STEM

Os e-textiles trazem a computação e a electrónica para a área têxtil. Como exemplifica Teresa Almeida, imagine-se um circuito eléctrico como o que temos em casa. Carregamos num interruptor e liga-se a luz. Agora imagine-se isso, mas num pano, usando tecidos, fios de coser e outros elementos associados aos têxteis. Basicamente o princípio é esse, pelo que circuitos muito mais complexos, envolvendo sensores avançados podem igualmente ser aplicados.

Desta forma, com esta “reinvenção” da parte electrónica, “essa coisa assustadora da engenharia electrónica torna-se mais acessível e interessante para as mulheres”. Quebra-se o medo e o estigma e marca-se assim um passo na inversão dos baixos números de mulheres ligadas ao STEM (science, technology, engineering and math).

Na realidade, como sublinha, uma das ideias principais por detrás destes tecidos electrónicos é promover uma aproximação das mulheres e meninas às áreas mais tecnológicas e científicas. Parte-se de uma técnica e materiais geralmente associados à mulher – a costura e os tecidos – e reinventa-se a electrónica que passa a ser aplicada nos têxteis.

E estes têxteis, bastante recentes e que até há bem pouco tempo tinham uma aplicação essencialmente conceptual, começam já a ser vistos em roupas “vestíveis”. São os Wereable e-textiles, que surgem dentro da chamada wereable technology (à letra tecnologias vestíveis, embora a tradução pareça ainda mais “futurista” do que o termo em ingês). Vemo-los “desde há dois, três anos em desfiles de moda, nomeadamente na New York Fashion Week, onde alguns designer já usam wereables. Mas também já começa a ser uma coisa que se vê no dia-a-dia, e há várias celebridades que aparecem em eventos, por exemplo, com saias com uns LED a piscar. Já começa a ser uma coisa para além das pequenas experiências em workshops, um produto”, aponta a designer.

 

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 834 de 22 de Novembro de 2017. 

sexta, 24 novembro 2017 11:10

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