Expresso das Ilhas

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É preciso mais investimento no combate ao cancro

Apesar de tudo o que já foi feito, e da palavra de ordem ser prevenção, um bom programa de detecção precoce precisa-se. E com o aumento de cancros, na linha do que acontece em todo o mundo, há que pensar e investir a sério no tratamento da doença em Cabo Verde. Um centro multidisciplinar de tratamento é um sonho que a oncologista Hirondina Spencer acalenta, até porque não se pode ignorar o drama social, económico e pessoal da evacuação. Mesmo com parcos recursos, é hora de insistir nos esforços contra uma doença que mata cerca de 350 cabo-verdianos por ano e leva mais de duas centenas para o exterior. 

 

São os filhos que ficam. Os parentes e os amigos, todo o ambiente e rotinas familiares. A vida do avesso. Como se a doença já por si não assustasse, é preciso enfrentar as distâncias e um novo mundo. Leva-se a esperança de cura. Mas também a saudade e, em maior ou menor grau, o desamparo.

O impacto que as evacuações têm na vida dos cabo-verdianos, é inegável. Soma-se o aumento de casos (uma tendência mundial) e justifica-se a importância de pensar nos investimentos que o país deve tomar a nível da oncologia.

“Falta investimento. Sei que o país é pobre e as prioridades são outras, mas o cancro, até devido à transição epidemiológica [tem de ter mais atenção]… e temos de pensar em tratar os nossos doentes aqui no país, porque o impacto psicológico, económico, social, etc., da evacuação nas famílias …” é enorme, lamenta a oncologista Hirondina Spencer.

Neste momento, apenas o Hospital Agostinho Neto tem um serviço de oncologia, que presta terapia ambulatória e serve todos os doentes do país. No total, ainda há apenas três oncologistas, Hirondina Spencer, a única cabo-verdiana, um médico da cooperação cubana (Roberto Lazio) e uma médica francesa (Magali Serine). É uma boa média para a sub-região. Mas não chega. Alguns estarão em formação, pelo que no futuro o panorama poderá ser melhor.

Os tratamentos disponíveis passam por (algumas) cirurgias e a quimioterapia, sendo que a radioterapia – cuja gestão de “desperdícios” requer um grau de segurança elevado – ainda não é contemplada. De qualquer forma, o país ainda não dispõe de uma máquina para o efeito.

Contudo, este é um tratamento cuja instalação se impõe, no entender da directora de serviço.

“É mandatório. De acordo com as normas internacionais, com a população que já temos é obrigatório ter um aparelho de radioterapia no país”, explica Hirondina Spencer. Só essa iniciativa iria diminuir imenso a transferência dos doentes para o estrangeiro.

Em 2015, último ano para o qual há dados nos relatórios estatísticos da Saúde, 205 pessoas foram evacuadas para o exterior para tratamento oncológico. E embora os números não tenham sido constantes ao longo dos anos, nota-se a tendência para aumentarem. Entre 2010 e 2015, a evacuação atingiu o seu valor mais baixo em 2012 (93) e em 2015 dobrou, pela primeira vez em cinco anos, as duas centenas. É de longe a principal causa de evacuação para o exterior, sendo que a segunda são as doenças do aparelho circulatório (120).

 A radioterapia iria permitir reduzir imenso o número. Mas por si só também não basta neste combate ao cancro, pois a visão deve ser integral.

“Precisamos, do meu ponto de vista, de ter um centro multidisciplinar para a abordagem do cancro, um centro com diferentes valências, com oncologia, radioterapia, quimioterapia, cirurgia oncológica, anatomia patológica…”, exorta a oncologista.

Sendo certo que – por aquilo que se observa, uma vez que não há estudos – os resultados dos tratamentos tenham vindo a melhorar e a sobrevida esteja a um nível bastante bom, é preciso avançar, “investir mais”. Assim, é necessário também capacitar e formar quadros, nomeadamente em correlação à cirurgia oncológica em diferentes áreas, nomeadamente em termos de cirurgias digestivas, cirurgias pulmonares e ginecológicas. Investir na investigação, desenvolver os cuidados paliativos, criar uma rede para apoio integral ao doente na fase avançada. Em suma, ter a referida  abordagem multidisciplinar em todas as fases da doença.

 

Prevenir e rastrear

Mas mais do que o seu “sonho” de ver no país um centro multidisciplinar de tratamento, para a médica Hirondina Spencer, a grande aposta tem de ser feita, acima de tudo, a montante: “em Cabo Verde temos de insistir na parte da prevenção”, reitera.

Essa vertente preventiva aplica-se, no geral, na manutenção de um modo de vida saudável e prevenção de factores de risco. Tais medidas têm bastante repercussão na diminuição de casos. Por exemplo, nos tumores digestivos (tumores gástricos, do esófago, cavidade oral, etc.), que estão em grande parte ligados ao consumo do álcool. Nesse ponto, a oncologista destaca, pela positiva, a campanha nacional que o país está neste momento a levar a cabo contra o alcoolismo.

Além da prevenção, o rastreio é fundamental. A detecção precoce é, aliás, o melhor “tratamento” para qualquer cancro, na medida em que é o que mais contribui para o sucesso ou não das intervenções médicas. Por isso, é de suma importância fazer investimento nessa área. No que toca aos tumores do tracto digestivo, de que falávamos, impõe-se uma maior “capacidade de realizar endoscopias”,

No caso do cancro da mama, seria importante, por exemplo, ter mamógrafos móveis, que pudessem ser deslocados pelas diferentes ilhas. Neste momento há apenas dois aparelhos, sendo que um está na Praia e outro em São Vicente. Não basta.

E também em relação ao cancro do útero é fundamental prover meios para o diagnóstico precoce. Em suma, explica por seu lado Hirondina Spencer, é “importante implementar um rastreio de base nacional”, que seja contínuo e eficiente.

Em suma, prevenir, “fazer um diagnóstico precoce e, depois do diagnóstico, fazer um tratamento mais atempado”, são as chaves para o sucesso, para a almejada cura.

 

Cancro de estômago mata mais mulheres do que o de mama

Olhando o panorama nacional e o que nos mostram os números: os cancros são a segunda causa de morte no país, “apenas” superados pelas doenças do aparelho circulatório.

De acordo com o último relatório Estatístico de Saúde (que, repita-se, só tem dados até 2015), houve nesse ano 348 óbitos devido a cancro e 779 devido a doenças do aparelho circulatório. Entre as duas causas surgem no entanto uma outra, em segundo lugar, apelidada de “sintomas mal definidos” (363 óbitos). Quando comparamos os números com os de 2014, houve uma diminuição de morte por cancro – em 2014 foram 379.

O cancro mais mortífero, lê-se no relatório, é o da próstata (46 casos, o que significa que quase 1 em cada 4 homens vítimas de cancro morreu de tumor maligno na próstata). Seguem-se os cancros do esófago (35 mortes, sendo 23 homens e 12 mulheres) e estômago (34, 18 homens e 16 mulheres). Olhando apenas para o cancro no feminino, destaca-se o cancro do colo do útero (29 vítimas), seguido do já referido, cancro de estômago (16). O de mama, que em 2014 era o segundo mais mortífero para as mulheres (18), foi, em 2015, o terceiro, com 13 vítimas.

Uma das características do tratamento do cancro no país que Hirondina Spencer destaca pela positiva é que todos os doentes são tratados. “Ninguém fica sem tratamento e não há diferença de classes ou outras. Todos os nossos doentes são tratados. Do mais rico ao mais pobre. ”Se não há hipótese de tratamento no país, os doentes são evacuados.”

Entretanto, se não há possibilidade de cura (por exemplo, por a doença ter sido detectada em estádio muito avançado), os doentes são encaminhados para os cuidados paliativos. “O único factor que conta é o estádio da doença”, reforça Hirondina Spencer.

Apesar desta aparente cobertura geral e generalizada, há um dado no relatório que intriga: na Praia, há, como se sabe, mais gente e, portanto, mais doentes e mais vítimas mortais. Contudo, em 2015 os números mostram que mais pessoas morreram devido a tumores em São Vicente (91) do que na Praia (72).

Não havendo, também aqui, um estudo que permita conhecer a razão de tal disparidade, o senso comum aponta que tenha a ver com o Centro de Dia, que apenas funciona no hospital central da Praia, o Agostinho Neto.

“Os doentes com a doença avançada têm a possibilidade de fazer aqui no centro uma quimioterapia paliativa e, portanto, viver mais tempo. Talvez nas outras ilhas os casos muito avançados não sejam encaminhados para o centro. Não sei, não tenho dados, mas talvez seja isso”, arrisca Hirondina Spencer.

Seja como for, defende, “é necessário ter um centro em São Vicente também”.


Medicamentos oncológicos representam cerca de ¼ dos gastos totais

A Direcção-Geral de Farmácia despende cerca de 50 mil contos por ano em medicamentos para tratamento oncológico, nomeadamente, para a quimioterapia. E a tendência é para aumentar.

Em Cabo Verde, já há vários anos que se faz quimioterapia. Começou-se em 2006/2007, com a formação de técnicos para preparação dos medicamentos e avançou-se depois da abertura do centro de dia em 2008. Segue-se, neste tratamento um protocolo de primeira linha, feito com medicamentos essenciais. Quando essa linha não resulta, deve mudar-se o protocolo, usando outros medicamentos mais recentes, e pode-se recorrer até à evacuação. “Mas a maioria dos casos, com quimioterapia, são tratados aqui”, com a primeira linha, informa a oncologista Hirondina Spencer. “Em relação à quimioterapia, não temos tido muitas dificuldades”, refere ainda a médica.

Os medicamentos são importados pela Emprofac, que detém o monopólio da importação, e fornecidos pela Direcção Geral de Farmácia.

“Existe também a Comissão Nacional de Medicamentos que define quais são os medicamentos que podem constar dos protocolos, de acordo com as patologias, os cancros, existentes no país”, destaca o Director Geral de Farmácia.

É essa comissão que, “mediante esse conhecimento tem de propor ao país os melhores medicamentos disponíveis tendo em consideração custo-efectividade”, acrescenta Eduardo Tavares.

Os medicamentos são comprados sob “uma gestão muito acurada dos recursos” que, como se sabe, são parcos. Assim, a lista de medicamentos do protocolo aqui seguido, não inclui “medicamentos inovadores” recentes, que geralmente só conseguem entrar nos mercados mais ricos. A Cabo Verde, explica o DDSF, só chegam de facto fármacos mais antigos e que já “têm a sua eficácia totalmente comprovada”.

Contudo, para além da hipótese de evacuação quando a resposta ao protocolo de primeira linha é má, há uma outra possibilidade, aponta: ”Existe a autorização de importação especial de medicamentos que é emitida pela própria Direcção Geral mediante um relatório médico detalhado sobre a efectiva necessidade para um doente daquele medicamento específico”. Os custos são sempre suportados pelo Ministério da Saúde.

 

Cocktail dispendioso

A lista de medicamentos essenciais é relativamente vasta e composta “na maior parte por medicamentos que ainda não possuem genéricos” e portanto “têm um valor elevado”, explica o DGF.

Além dos medicamentos directamente usados no tratamento do cancro, há vários adjuvantes, e ainda outros que são usados para minimizar os imensos efeitos secundários. “Para possibilitar que o paciente consiga aguentar o tratamento”, explica. Há também medicamentos para os cuidados paliativos, nomeadamente o alívio da dor.

“Não podem ser medicamentos de ponta, mas são medicamentos com provas dadas no tratamento desses cancros em Cabo Verde”, reitera.

Actualmente, e como referido, o Ministério da Saúde despende então cerca de 50 mil contos por ano em medicamentos para tratamento directo do cancro.

Os gastos e a própria lista têm vindo ao longo dos últimos anos a ter uma evolução constante.

“Ainda que o país não adopte imediatamente medicamentos mais recentes, com as revisões das listas, geralmente vão-se incluindo novos medicamentos, geralmente mais recentes, mais caros. E não é só o custo dos medicamentos, é também o número de casos que tem aumentado”.

Olhando para, por exemplo, 2004, era “pouquíssima a quantidade de medicamentos oncológicos comprados, tanto em termos de variedade quanto em termos de quantidade”.

Mais qualidade e mais quantidade fazem da oncologia uma das especialidade que maior parcela leva dos cerca de 200 mil contos que o Ministério da Saúde gasta na aquisição de medicamentos.

Outras áreas que consomem muitos recursos são a hematologia (medicamentos, muitos deles concomitantes com o tratamento para o cancro, e reagentes) e ainda a diálise (“mas não especificamente medicamentos. São outros produtos”).

 

Mercado pouco apetecível

Entretanto, aliados aos parcos recursos, a pequenez do mercado dificulta o poder de negociação de Cabo Verde. Salvaguardando que a Emprofac é que detém a exclusividade sobre a importação de medicamentos (sendo que depois a DGF os adquire a essa empresa nacional, para distribuir pelas unidades de saúde), Eduardo Tavares aponta que esse facto justifica de alguma forma a ausência de acordos e benesses dados pelas grandes farmacêuticas (ver caixa).

É que embora haja várias questões em jogo, as farmacêuticas “não têm grande interesse no mercado cabo-verdiano, que é realmente muito pequeno para o volume de negócios que têm”.

O mercado é pequeno e a oferta, por outro lado, é também pequena e centralizada. Apenas a Praia oferece tratamento quimioterapêutico e apenas neste hospital central há médicos da especialidade e técnicos formados para a manipulação dos medicamentos. É que estes fármacos, “apesar de serem industrializados, precisam de cuidado especial, de treinamento na sua preparação”, além de equipamento especial de protecção. São medicamentos que curam, mas “o medicamento que cura também pode causar cancro”. Seja como for, assevera, o Ministério garante a medicação a quem dela necessita, mediante o seguimento médico.


ÁFRICA

Acordo com farmacêuticas pode levar a cura a milhares de pessoas

O aumento de cancros não é um problema que afecta só Cabo Verde. É um problema mundial. Mas, se por um lado, surgem cada vez mais casos, por outro, os avanços científicos têm permitido que a temida doença seja cada vez menos uma sentença de morte.

Em África, porém, o cenário ainda não é esse. Cerca de 450.000 africanos morrem anualmente de cancro, muitos dos quais tratáveis. Em 2030, de acordo com a Organização Mundial de Saúde serão 1 milhão. Entre os tumores com tratamentos destacam-se os de mama, colo uterino, e próstata.

Por exemplo, nos Estados Unidos, 90% das mulheres com cancro da mama sobrevivem cinco anos. No Uganda, apenas 46% tem essa sobrevida, e na Gâmbia, apenas 12%, aponta o The New York time.

Recentemente, um acordo celebrado entre duas farmacêuticas e seis países africanos (Etiópia, Nigéria, Quénia, Uganda, Ruanda e Tanzânia), vai permitir que estes comprem medicamentos para a quimioterapia a preços de desconto, o que se acredita poderá reverter em grande parte o cenário. Estima-se que nesses seis países ocorram 44% dos cancros da África Subsariana.

Especifica o NYT, que a americana Pdizer e a indiana Cipla se comprometeram, assim, a cobrar preços baixos em 16 medicamentos de quimioterapia, o que deverá trazer tratamento, e salvar a vida, a dezenas de milhares de pessoas.

Segundo o jornal, a Pfizer acordou vender os seus medicamentos a preços que estão apenas ligeiramente acima dos custos de fabricação enquanto a Cipla prometeu vender comprimidos por 0,50 dólares e infusões por 10, uma fracção do que eles custam em países ricos (1/8 do que custam nos EUA).

Os medicamentos são antigos, já estão disponíveis como genéricos, mas representam um peso considerável nos orçamentos dos países na luta contra o cancro.

Da parte das farmacêuticas, enquanto a Pfizer frisou que o intuito é pelo menos não perder dinheiro, uma vez que a solidariedade tem de ser sustentável, a Cipla já afirmou que tenciona começar a produzir medicamentos contra o cancro em fábricas do Uganda e África do Sul.

Acredita-se que o acordo torne, por exemplo, possível salvar uma criança com leucemia (doença que nos EUA tem uma taxa de cura de 90% e na África uma taxa de mortalidade de 90%), por 300 dólares.

 

Mais do que medicamentos

O acordo vai além dos medicamentos. Prevê, além da redução dos preços, que oncologistas americanos simplifiquem os protocolos do tratamento, adaptando-os a hospitais mal equipados, e que programadores da IBM criem pro bono uma ferramenta online com essas directrizes.

Em África 80% dos tumores só são descobertos quando as metáteses já se espalharam e  o continente tem uma enorme falta de máquinas de radioterapia, de condições para cirurgias complicadas e também de oncologistas. A Etiópia, por exemplo, tem apenas quatro oncologistas, para uma população de 100 milhões de cidadãos e a Nigéria, 40, para 180 milhões de pessoas.

“O complicado acordo foi conseguido pela sociedade americana do cancro, juntamente com a Clinton Health Access Initiative, fundada em 2002 pelo ex-presidente Bill Clinton; a IBM; a National Comprehensive Cancer Network, uma aliança entre os principais hospitais americanos contra o cancro; e a African Cancer Coalition, uma rede de 32 oncologistas em 11 países africanos”, escreve o jornal americano.  SA c/NYT.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 831 de 31 de Outubro de 2017. 

sexta, 03 novembro 2017 14:29

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