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Terra de abundância. O que quer a Tailândia de África? (I)

O mais básico que se pode dizer sobre o Reino da Tailândia é que é um país muito bonito, fértil, com uma economia pujante e sem conflitos bélicos. Indo aos números, e só para registar já alguns, encontramos um PIB de 406, 8 bilhões USD (em 2016; superior ao das suas vizinhas da região Malásia e Singapura), uma população de 68.86 milhões de habitantes e o desemprego a manter a média de 1% em cerca de uma década. Em anos recentes o país iniciou uma aproximação a África que conhece agora uma intensificação. O que poderá querer este reino do sudeste asiático, onde tudo parece abundar, de Cabo Verde? A resposta óbvia é: mercado. Mas será só isso?

 

O calor em Bangkok, sendo intenso, tem qualquer coisa de diferente do calor da África Ocidental. Á falta de uma análise mais científica decidimos atribuir a diferença à presença latente da chuva. E mesmo sem ver mais do que um breve sinal da mesma durante as duas semanas de viagem, a presença está sempre lá. Latente.

A chuva e água abundantes no país, sobretudo no norte, são tão almejadas lá como por cá. Afinal a agricultura é um dos principais sectores de produção do país e, com os desafios trazidos pelas mudanças climáticas, toda a atenção é pouca já que há áreas do país propensas á seca.

Ainda na capital salta à vista a imagem do rei, Bhumibol Adulyadej, por toda a parte. O país está de luto. O rei morreu há quase um ano e pela cidade – e também nas outras visitadas – encontram-se enormes retratos do monarca em molduras de flores brancas.

Jirasak Weraarpachai, o jovem secretário da embaixada tailandesa no Senegal e que é o nosso guia nessa denominada viagem de familiarização ao Reino da Tailândia, explica-nos que o seu sempre igual traje preto e branco deve-se ao luto pelo falecido rei. Como ele, outros funcionários públicos vestem-se de preto ou de preto e branco para honrar a memória do monarca.

As grandes cerimónias fúnebres só irão acontecer agora em Outubro. Só depois delas é que o filho, o actual rei Maha Vajiralongkorn, será corado em cerimónia pública.

Muito amado e respeitado, o rei Bhumibol Adulyadej, que iniciou o seu reinado em 1946, empenhou-se a fundo pelo desenvolvimento do país, criando uma série de iniciativas com vista a um desenvolvimento sustentável. Uma caminhada que enfrentou alguns percalços quando em 1997 o país foi duramente atingido por uma crise financeira. Os tailandeses acreditam que a saída da crise deveu-se ao mesmo método que levou o país a alcançar o seu alto nível de desenvolvimento: a filosofia criada pelo rei, a chamada Sufficiency Economy Philosophy (SEP, ou Filosofia da Economia Suficiente) que mais não é do que uma série de princípios centrados nas pessoas, em que indivíduos e instituições são aconselhados a tomarem decisões baseadas em informações concretas e a ter em conta toda e qualquer possível repercussão. Ou seja, um país onde ao nível mais alto decisões pessoais e institucionais baseados em fofocas, boatos e rumores, são desencorajados, para dizer o mínimo.

Parece bom e simples demais para ser verdade. Mas pelo que pudemos atestar, da nossa experiência de dias, ficou a forte impressão de um país onde cada pessoa parece empenhada no seu trabalho, qualquer que ele seja, e engajada num esforço colectivo de superação.

Superação. Como não associar esta palavra a um país que em 2008, em plena crise económica mundial, queixava-se de estar a beirar o 1 milhão de desempregados e desde então tem conseguido manter o desemprego em praticamente menos de 1%? Não por acaso, o país ganhou do Bloomberg’s Misery Index 2016 a etiqueta de “lugar mais feliz para se viver e trabalhar” na Ásia.

Os tailandeses, de facto, parecem sempre felizes. Sorriem muito. O sawasdee kha/khap (a saudação típica) que recebemos quer nas recepções dos diferentes hotéis, quer nos mercados, instituições e praias visitadas – no norte, centro e sul – vinha sempre acompanhado de sorrisos. O país é mesmo comumente denominado “Land of Smiles”.

 

Motivos para sorrir?

A Tailândia é a produtora de cerca de 1/3 do arroz do mundo. Isso ajudou o país a reduzir a sua posição no Índice Global da Fome de 28.4 em 1990 para 11.9 na actualidade. Para além do perfumado arroz tailandês (cujo plantio até é actividade de lazer oferecida aos turistas) tivemos oportunidade de comprovar (e provar) a abundância (outra vez esta palavra…) de frutas, legumes, peixes e mariscos existentes e produzidos no país. Porém, falando apenas da produção agrícola, e porque a safra pode falhar nas áreas propensas à seca, a “Nova Teoria Agrícola” implementada em mais de 40.000 aldeias promove a diversificação de culturas e estipula que se coloque 30% das terras cultivadas em reserva de modo a assegurar uma reserva anual de água. Outra inovação seguida pelo país para ultrapassar a escassez eventual de água é a inseminação de nuvens para provocar chuvas.

Não sabemos dizer se a chuva que nos recebeu à chegada à região sul, na província de Krabi, resultou de inseminação. O que pudemos constatar já na descida do avião vindo do norte do país sobre Ao Nang foi a beleza do lugar, um dos mais procurados pelos milhares de turistas que anualmente visitam a Tailândia.

Krabi é a região do turismo de sol e praia onde ficam as famosas ilhas tailandesas. Sem dar-se conta do nosso contentamento pelo reduzido número de turistas que encontramos na tour que fizemos por quatro das várias pequenas ilhas da região, o guia da ocasião apressou-se a explicar-nos que aquela afluência menor era certamente resultado da chuva da noite anterior.

O turismo é outra das fontes de rendimento do país. E uma fonte que não para de aumentar o seu jorro. Os preços acessíveis e a isenção ou facilidade nos vistos têm parte nisso. Em 2016 o reino recebeu mais de 30 milhões de turistas. O número de visitantes não para de crescer, tendo o Financial Times previsto que até 2030 deverá duplicar e chegar aos 60 milhões (quase o número da população local). Um facto interessante é que o fluxo turístico distribuiu-se com relativo equilíbrio pelas diferentes regiões do país: Norte, Centro e Sul. Embora os europeus cada vez mais procurem a Tailândia, é da China que chegam os maiores fluxos.

O que parece maravilhoso pode entretanto não o ser completamente. A par do já velho problema com o turismo sexual, que estimula os altos números de prostituição, o país que ocupa o terceiro lugar - apenas superado pela Singapura e Malásia - na lista do Travel and Tourism Competitiveness de 2017 (Ásia & Pacífico) pode em breve enfrentar problemas ambientais e pressão sobre as infra-estruturas existentes se não souber dar resposta a este super-fluxo turístico.

Outro desafio é a segurança. Em Chiang Mai, uma das 66 províncias do país, o governo local está a levar a cabo um projecto de instalação de videovigilância e reforço das forças policiais. Esta província do norte do país recebeu no ano passado 10 milhões de turistas (30% destes eram estrangeiros).

Questionado por nós sobre as razões desta medida, o governador limitou-se a referir a prevenção como motivo. Mas o facto é que a imprensa britânica, e não só, noticiou em anos recentes sobre turistas atacados e até mortos e a explosão registada no verão passado em um spa que matou 4 tailandeses e feriu vários turistas estrangeiros na região Sul.

 

África porquê?

Aos números espectaculares do turismo juntam-se bons indicadores também no que se refere à Educação e à Saúde. E mais: no recentemente publicado Relatório da Competitividade Global este reino do sudeste asiático conseguiu manter a posição alcançada no ano passado: 34º lugar. No ranking do sul da Asia sobe para a 10ª posição. A Tailândia está a competir com Singapura, com o Japão, Malásia, Hong Kong e Taiwan (que constam no ranking de forma independente) e a própria China.

Se pararmos para pensar como a presença da China cresceu em África nos últimos anos será fácil compreender a aproximação da Tailândia e o seu interesse numa parceria estratégica com os países da África Ocidental. O país está ciente de que mais de 60% da população africana tem menos de 25 anos. É o mercado do futuro.

Num artigo publicado em Março deste ano o Bangkok Post aponta que, em 2016, 171.962 africanos visitaram a Tailândia. A maioria, proveniente da Etiopia e do Sudão, esteve em Bangkok para tratamento médico. “Em contrapartida, apenas cerca de 3000 a 4000 tailandeses visitaram África no mesmo período”. Quénia, Egipto e Etiópia são os países cujas companhias áreas têm voos directos para a Tailândia e, em sentido inverso a Thai Airways pretende em breve abrir linhas directas para África.

Para reforçar a sua presença no nosso continente a Tailândia conta ainda aumentar o número de embaixadas e consulados. Angola e Etiópia deverão receber as próximas embaixadas e juntarem-se assim a Marrocos, Egipto, Senegal, Nigéria, Quénia, África do Sul e Moçambique. Há ainda um consulado em Madagáscar e 12 consulados honorários em vários outros países.

Já o Reino da Tailândia deverá juntar o Sudão à lista de 32 países africanos com representação diplomática em Bangkok. São sete embaixadas e 25 consulados honorários.

Uma das várias companhias tailandesas que já investe em África é a Petroleum Authority of Thailand Exploration and Production. Há também gigantes da hotelaria, empresas de produção de peças automóveis, de conserva de pescado, e ainda pequenas e médias empresas como spas e restaurantes.

Jóias, pedras preciosas e citrinos são os principais produtos importados de África pela Tailândia. No sentido inverso, vai da Terra dos Sorrisos para o continente berço da humanidade arroz, carros, peças de automóvel, têxteis, artigos de plástico, marisco e peixe enlatado.

Este “frenesim” actual resulta de directrizes mais formalmente estabelecidas a partir de 2013 em que o governo tailandês traçou a política “Olhar para o Ocidente”, com o fito de relacionar-se para além da esfera asiática. O reforço da relação com África - tanto como continente como a nível individual das relações com os países - através de uma parceria estratégica foi então apontando.

Em anos recentes a Tailândia lançou a Thai-African Initiative, um mecanismo para estimular o relacionamento de longo prazo com Africa.

A esta iniciativa e outros aspectos observados voltaremos na próxima edição.

(*O Expresso das Ilhas viajou a convite da Embaixada do Reino da Tailândia no Senegal)  

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 827 de 04 de Outubro de 2017. 

domingo, 08 outubro 2017 06:37

2 Comentários

  • Free tickets 09-10-2017 Reportar

    E a jornalista foi à Tailândia para voltar e escrever um texto com informações que qualquer um encontra no google? Fogo, isso é que é estar podendo.

  • Cândida Leite 09-10-2017 Reportar

    O primeiro interesse da Tailândia na Africa é a obediência de um programa que é a expansão religiosa.
    So um cego não vê isso.

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