Expresso das Ilhas

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Ângela Coutinho: Historiadora fala da importância dos judeus no desenvolvimento económico, intelectual e desportivo de Cabo Verde

O legado histórico-cultural de origem judaica em Cabo Verde presente sobretudo nas ilhas de Santo Antão, Boa Vista, Santiago, São Vicente e Fogo foi declarado no mês de Julho pelo governo como Património Histórico e Cultural Nacional. Já anteriormente os dois cemitérios judeus existentes no município da Ribeira Grande de Santo Antão foram classificados como Património Municipal. Estas classificações foram conseguidas após a reabilitação física dos cemitérios judeus da Praia, de Santo Antão e da Boa Vista, empreendida pela “Cape Verde Jewish Heritage Project” (Projecto de Preservação da Herança Judaica em Cabo Verde) que paralelamente se tem dedicado à pesquisa e documentação desse legado judaico na pessoa da historiadora e descendente, Ângela Benoliel Coutinho, cuja obra em curso será lançada oportunamente. Nesta entrevista a historiadora fala-nos dos resultados dessas pesquisas e do seu recente relatório sobre a recolha de dados existentes no Boletim Oficial de Cabo Verde relativos ao século XX colonial (1900 – 1974).

 

O que significa para si enquanto historiadora e descendente a classificação da herança judaica como património nacional?

 Agradeço-lhe muito a sua pergunta, que é de muito interesse. Posso afirmar que como descendente de judeus marroquinos em Cabo Verde, que são dois dos meus trisavós, sinto-me feliz com essa classificação, que nos permitirá criar melhores condições e mobilizar mais meios que nos possibilitem ter uma actuação cada vez mais eficaz na preservação e valorização desse património. Como cabo-verdiana, também descendente de portugueses e de africanos ditos negros, faço votos para que sejam envidados mais esforços no sentido da salvaguarda do património que nos foi legado por todos os nossos antepassados, e em primeiro lugar, pelos próprios cabo-verdianos. Teremos sempre de ser nós os primeiros a valorizar a nossa história, e a valorizar-nos.  Reconheço, contudo, que o actual governo do MpD e o anterior do PAICV tiveram mais iniciativas nesse sentido, do que no passado. Iniciativas com as quais procuro colaborar, na qualidade de historiadora, sempre que me é possível, quer se trate do património material ou imaterial, relativo ao século XX ou ao XIX, a quaisquer concelhos e/ou origens, e quer as iniciativas partam de órgãos do Estado, de autarquias, ou de organismos da sociedade civil. 

 

Falando da sua recolha e no Boletim Oficial de Cabo Verde. Porque o marco 1900/1974?

Essa foi uma recolha que propus à CVJHP (Projecto de Preservação da Herança Judaica em Cabo Verde, da sigla inglesa) relativa aos dados existentes no Boletim Oficial de Cabo Verde, do período colonial. Uma outra recolha de dados tinha sido feita na imprensa privada cabo-verdiana do século XX, e uma recolha muito mais alargada foi feita em arquivos de Cabo Verde, Portugal, Gibraltar e Grã-Bretanha, relativa ao século XIX. Foi também realizada uma viagem a Marrocos para consulta bibliográfica e de especialistas.

 

Qual a diferença entre os séculos XIX, que é o principal foco da sua investigação, e o XX, na vivência e actividades dos judeus em Cabo Verde?

Para responder a essa pergunta, seria necessário realizar um projecto de investigação histórica sobre esta temática, relativa ao século XX. Há ainda muita documentação de arquivo para consultar, no Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde, nas Associações Comerciais, Industriais e Agrícolas do Sotavento e do Barlavento, nos arquivos das diversas associações desportivas em Cabo Verde, do século XX colonial, só para referir alguns. Em Portugal, seria necessário consultar o Arquivo Histórico Ultramarino, o Arquivo do antigo Banco Nacional Ultramarino, e talvez outros. Seria também de utilidade consultar arquivos privados, se fossem disponibilizados. Depois de analisar e cruzar toda essa documentação é que se poderá estabelecer essa comparação e identificar as diferenças e actividades nos dois séculos. Desde já, posso adiantar que os comerciantes judeus que se instalaram em Cabo Verde no século XIX, sendo na sua maioria estrangeiros, não podiam aceder à função pública. Os seus filhos passaram a ser, na sua esmagadora maioria, nacionais. É necessário referir que a maioria da documentação depositada no Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde, relativa ao século XX, nem sequer está ainda totalmente organizada de forma a ser disponibilizada para consulta. Até há pouco tempo, foi o caso apenas para o concelho da Praia. Através de um protocolo assinado entre a CVJHP e o AHN, com financiamento da CVJHP e com um patrocínio parcial da Embaixada dos Estados Unidos da América em Cabo Verde, uma equipa constituída por diversos arquivistas trabalhou ao longo do ano de 2016 de forma a disponibilizar para consulta toda a documentação referente às ilhas da Boa Vista e Santo Antão, dos séculos XIX e XX. Tudo o resto terá ainda de ser completado, para se poder fazer uma História de Cabo Verde do século XX, ainda largamente por redigir.

 

O seu relatório mostra a importância dos judeus no século XX no desenvolvimento económico, intelectual e desportivo do país, para além da referência, também interessante, que faz às mulheres. Podia dar alguns exemplos?

Posso fazê-lo, com a ressalva de que estou a basear-me apenas na consulta do Boletim Oficial, no qual muitos indivíduos poderão não constar, o que não significa que não tenham tido um papel relevante na sociedade da época. No respeitante ao peso que estes comerciantes judeus ou os seus descendentes tiveram na actividade económica, basta referir que ao longo do século XX colonial, alguns deles ou as suas firmas integraram sempre, por vezes durante décadas, a lista dos maiores contribuintes da então província. De entre os que figuraram nesta lista durante mais tempo, podemos referir Bento Levy, a firma Levy & Irmãos, Abraham Julião Brigham, membros da família Benoliel de Carvalho, como os irmãos João e Smith, com as firmas JBC e a Sociedade Luso-Africana, a firma Cohen & Irmãos e ainda Fernando Wahnon. Na área do desporto, é de referir, antes de mais, o futebolista Ben-David, que foi considerado o melhor futebolista do espaço sob domínio português da sua geração nos anos 1940 e 50. Podemos também fazer referência a Júlio Bento de Oliveira, da família Abitbol, fundador dos Sokols, em S. Vicente, Daniel Rogério Leite, da família Cohen, atleta e professor de Educação Física, e Aníbal Lopes da Silva, da mesma família, que foi muitas vezes membro do Conselho Provincial de Educação Física, para além de ter desempenhado cargos de direcção em clubes desportivos, como foi o caso de muitos outros descendentes de judeus, mas não posso referir todos aqui. É ainda de interesse notar que os descendentes destas famílias, sobretudo os netos, estão sobre-representados entre os indivíduos que acediam a uma formação de ensino superior na então metrópole. No respeitante às mulheres – tal como sucede com algumas judias marroquinas e de Gibraltar que viveram em Cabo Verde no século XIX – também algumas descendentes surgem na documentação. Em princípios do século XX, surgem no Boletim Oficial como proprietárias, participando em acções de caridade, ou ainda, nas primeiras nomeações como professoras, embora haja muito mais professoras que não têm origem judia de Marrocos ou de Gibraltar. Assim, nas primeiras décadas do século XX, há referências, pelos mais diversos motivos, a Justa Azulay Silva, Rachel Levy, Maria da Conceição Pinto Wahnon, Elisa Levy Bentubo Santos, Maria do Carmo Mosso Benholiel, Emília Benchimol Lopes, Simy Seruya, Maria Nobre de Melo Benrós, Constança Brigham Silva, Filomena Pereira Azulay, Isabel Benoliel Lopes da Silva,Gertrudes Benrós, Inês Benrós Nobre, Carlota Gomes Levy, Teresa Cohen, Maria da Luz Benahim Leite, sem pretender ser exaustiva.

 

Diz que que para se compreender o papel dos judeus na sociedade cabo-verdiana do século XX colonial é necessário e até, imprescindível elaborar uma História Económica das ilhas. Que nomes e que actividades económicas constariam nessa história?

As actividades económicas são todas, com especial incidência no comércio internacional, de “import-export”. Basta dizer que ao longo de 75 anos, surgem sempre nomes de diversos descendentes de judeus entre os 30 maiores contribuintes da Província, numa lista publicada anualmente. É claro que, sendo Cabo Verde então uma colónia, muitas das maiores empresas estrangeiras que actuavam no nosso território pagavam os impostos directamente em Portugal, onde essas verbas ficavam. É o caso, por exemplo, dos Telégrafos, a receita mais importante da então província durante muitos anos, que ficou sempre integralmente em Lisboa e nunca entrou nos cofres e nas contas de Cabo Verde. Também reparei que nas poucas iniciativas de cariz industrial, durante o século XX colonial, havia quase sempre empresários com apelidos destas famílias oriundas de Marrocos e Gibraltar. As famílias são as mais diversas.

 

E em relação à indústria?

É necessário, antes de mais, precisar que são poucas as iniciativas neste domínio. Como noutras colónias, Cabo Verde estava sujeito a um condicionamento administrativo da actividade industrial, pois era suposto as colónias contribuírem para o desenvolvimento industrial das metrópoles, por conseguinte a iniciativa industrial nas colónias era dificilmente autorizada, e por isso, são raras as iniciativas que foram avante e que singraram. Posso dar os seguintes exemplos, que surgem no Boletim Oficial, com a participação de alguns destes comerciantes judeus ou dos seus descendentes: a empresa de cerâmica da Boa Vista, a importação de latas para acondicionar conservas e doces de fruta; o fabrico de pão e bolachas; a Sociedade Industrial de Pesca e Conservas, em S. Nicolau, e a “Peixel”, na mesma ilha; a indústria de preparação de peixe seco e atum em salmoura, na ilha do Fogo.

 

Os judeus estiveram também presentes nos sectores da pesca, na agricultura e na pecuária. Em que ilhas e em que actividades mais concretamente?

Em Santo Antão, que foi a ilha onde se instalou um maior número de famílias, a maioria dedicou-se à agricultura (café, açúcar, aguardente, melaço e outros produtos). Também no concelho de Santa Catarina, na ilha de Santago, houve agricultores, que eram também grandes proprietários, dedicados às mesmas produções, e à de algodão.  Na ilha da Boa Vista, houve investimento por parte destas famílias na exploração e exportação de sal, na criação de gado, na exploração de fundos de mar, na plantação de coqueiros, no cultivo de algodão e na cerâmica. Na Brava, houve armadores. Em S. Vicente actuaram no domínio dos seguros marítimos e no fabrico de pão e bolachas, entre outras actividades. No Fogo, investiram na exportação de peixe seco e atum em salmoura, e em S. Nicolau criaram uma fábrica de pesca industrial e conservas. Por fim, na cidade da Praia, actuavam, entre outras áreas, na dos seguros marítimos; também investiram numa farmácia, vendiam material para obras públicas, material para escritório, e alguns eram representantes de marcas estrangeiras. Na zona rural do concelho da Praia, produziam aguardente, melaço e açúcar. Investiram ainda no cultivo de algodão. Todos ou quase todos participavam numa ou em várias firmas comerciais, associando-se entre si ou com cabo-verdianos de outra origem. De entre os judeus estrangeiros, ou seja, vindos de Marrocos e Gibraltar, há ainda outras áreas importantes de investimento, sobretudo por parte do grande investidor Moses Zagury, de Mogador/Essaouira.

 

Quais os próximos passos da sua investigação?

Vou agora empenhar-me na redacção de um livro dirigido ao público em geral sobre a presença dos judeus de Marrocos e Gibraltar em Cabo Verde, no século XIX, inteiramente patrocinado pela CVJHP, depois de ter conseguido um apoio parcial do “World Monuments Fund”, de Nova Iorque, para o financimento da pesquisa de arquivo em diversos países, como já foi referido acima, desde 2014.   

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 820 de 16 de Agosto de 2016. 

domingo, 20 agosto 2017 06:33

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