Expresso das Ilhas

Switch to desktop Register Login

Empreendedorismo Digital: Em vez da cana, pescar com a rede

Novos dados divulgados recentemente pela União Internacional das Telecomunicações, UIT, mostram que no mundo 830 milhões de jovens estão online. Em Cabo Verde não há ainda dados específicos quanto às características dos usuários, mas facilmente se percebe que ela segue as características da população cuja idade média é de 26,8 anos e 50% dela tem menos de 22 anos. Aproveitando a efeméride do Dia Internacional da Juventude – que se assinala a 12 de Agosto – tentamos, a partir de dois exemplos e da opinião de um conhecedor, compreender que uso poderiam dar os jovens à internet com impacto positivo nas suas vidas e na sociedade. E lembrando aqui uma das mais citadas parábolas das propagandas ao empreendedorismo, questionamos: assente que está que dar o peixe directamente é prejudicial, e se em vez da cana os jovens usassem a net (rede).

 

Cabo Verde assistiu nos últimos anos um rápido crescimento no que se refere ao número de assinantes de serviço de internet, com dados recentes a apontarem 394.114, dos quais 343.996 a partir de small screens 3G, ou seja smartphones e tablets. A taxa de penetração é de 73,30%.

Não há números, mas facilmente se percebe que do uso que se faz hoje em dia da internet grande parte dos gigas consumidos são-no através do uso das redes sociais, plataformas onde os jovens encontraram um espaço de afirmação. Essa presença massiva de jovens é, no entanto, sobretudo numa óptica de consumidores e não de produtores de conteúdos relevantes.

“Parece que a nossa sociedade está a ser ultrapassada pelo fenómeno internet e redes sociais. Tínhamos um sistema produtivo baseado na economia tradicional, industrial, digamos economia linear. Hoje em dia, com a evolução da Internet, com essa proliferação de redes sociais, há um número enorme de fenómenos a acontecer  e que, na nossa sociedade, não acompanhou o ensino, não acompanhou a formação profissional e não acompanhou o trabalho que as pessoas exercem dentro das empresas e no Estado. O que assistimos agora é muito consumo da internet para diversão e interacção, e pouca produção”, começa por caracterizar Amílcar Sousa Monteiro, um espectador atento e informado das tendências da internet e das redes sociais e que, com um amigo, criou a empresa de marketing online Get IT Social.

“As operadoras de serviço de internet oferecem pacotes ao pessoal mais jovem e oferecem toda uma oportunidade de consumo e, por outro lado, não estamos a produzir para gerar este consumo”, observa, ao mesmo tempo que revela preocupação com o facto de Cabo Verde poder estar a se iludir de que “somos avançados em tecnologia de informação, quando nem constamos dos rankings que medem o nível de adopção de tecnologias de informação pela sociedade”.

Analista informal do mundo digital, Sousa Monteiro observa que estas tecnologias são aplicadas [lá fora] para gerarem processos de trabalho mais eficientes, que geram mais valor acrescentando. “Mas, quando vemos para nossa realidade, o Estado as adopta parcialmente, as empresas privadas adoptam à conveniência, e no fundo o país não tem um ambiente de negócios que propícia utilização das tecnologias”.

Qualidade inferior à que se encontra lá fora, onde os países desenvolvidos já há muito navegam a 4G, mas superior a aquela que existia há seis anos quando Sócrates Carvalho, juntamente com dois amigos, criou a Sigui Sabura, empresa voltada para organização de eventos, sobretudo festas temáticas.

 “Entretenimento é uma indústria que existe em todo o mundo; é um negócio, movimenta a economia. São várias as pessoas que ganham com o nosso negócio”, explica o promotor de eventos.

E se já à partida o negócio não tinha muito por onde dar errado, o uso que passaram a fazer da internet, mais especificamente das redes sociais, só veio ampliar o alcance da marca e expandir o seu mercado de actuação. São 27 309 mil seguidores no Facebook e 12 258 no Instagram (rede que há dois anos atrás pouca expressão tinha no universo virtual cabo-verdiano e que vem registando agora uma rápida expansão). Estes seguidores são sobretudo jovens do meio urbano e muitos deles até estão em outros países e reservam as suas férias conforme o calendário das festas mais badaladas da Sigui Saburaa. Fazem likes (“Gosto”) aos vídeos, fotografias e cartazes das festas anunciadas e muito aguardadas. Pagam por estas festas e por aquilo que lá consomem.

No sábado passado foram mais de duas mil pessoas – a maioria jovens – a rumar à praia de São Francisco para, por 1000 ou 1500 CVE, participar de mais uma edição do Escape (pronuncia-se em Inglês, marketing oblige), afamada festa de verão organizada pela empresa de eventos, onde o atractivo oferecido é a proximidade da praia, os DJs convidados e o ambiente glamouroso criado. Nas próximas semanas estes ingredientes vão se repetir nas ilhas de São Vicente e Sal.

Se ainda há dúvidas de que a receita resulta, refira-se que dos iniciais três fundadores que se desdobravam no trabalho, a empresa conta actualmente 9 funcionários fixos e conta pontualmente com uma série de prestadores de serviço.

“Para um evento dessa dimensão [festa Escape] costumamos ter, em média, cerca de 200 pessoas a trabalhar connosco, contando os seguranças e agentes da polícia”, avança Sócrates Carvalho.

No cartaz do evento, o peso de certos nomes comprova a seriedade e dimensão que a marca Sigui Sabura alcançou nestes seis anos de existência: Unitel T+, Binter, Garantia e Caetano Retail são os principais sponsors da festa. O CEO da pequena empresa prefere chamar-lhes parceiros.

 

Likes, views e alcance

Uma das presenças nesta (e em outras) festa da Sigui Sabura foi Nadine Fortes. O nome não lhe diz nada? Tente Vaidosa D+. Ainda não? Então definitivamente o leitor não anda muito atento à ala nacional das redes sociais.

Vaidosa D+ é a marca criada por Nadine Fortes para registar a sua presença nos diferentes canais que criou online para partilhar as tendências de moda que segue. Isso foi o começo. O que era um hobby rapidamente evoluiu para um trabalho e, hoje, um negócio. Vaidosa D+ tornou-se uma poderosa marca de lifestyle e Nadine Fortes uma reconhecida digital influencer (uma espécie de guru virtual). De seguidora de tendências, a fashion blogger e youtuber passou a criá-las.

Empresas e marcas nacionais não ficaram indiferentes aos seus 242 266 mil seguidores no Facebook (número semelhante ao do total de usuários de Facebook em Cabo Verde) e 27 809 seguidores no Instagram. Para se ter uma ideia do poder de alcance da opinion maker vale referir que, no Facebook, nem Djodje a supera. O novo menino bonito da música cabo-verdiana conta com 209 357 seguidores nessa rede (no Instagram ganha: tem um pouco mais de 100 mil). Mesmo a “marca” cabo-verdiana mais internacional de todos os tempos – a diva Cesária Évora – só supera a Vaidosa D+ em 41 960 seguidores; tem no total 284 226 mil likes. Ainda para contextualizar os números, refira-se que a Presidência da República tem perto de 28 000 mil seguidores e o Governo de Cabo Verde somente 14 123 mil.

“Tenho perfeita consciência de ser uma digital influencer, consigo captar pelo feedback que tenho no dia-a-da às minhas publicações”, assume Nadine Fortes. “Recebo diariamente mensagens de pessoas a dizerem que inspiro-as, que as ajudei a mudar a sua vida, a ultrapassar momentos difíceis da vida, mas também pessoas que querem ter o mesmo shampoo que eu uso, a mesma roupa, querem saber onde podem comprar tal perfume ou óculos de sol”.

A blogueira conta que marcas e empresas começaram a contactá-la para que desse feedback sobre os seus produtos, passando ela também a representar algumas delas.

“Mas faço questão de sempre testar e passar uma opinião sincera, e não apenas porque me pagaram elogiar [o produto]. Acho fundamental na relação de confiança que tenho com o meu público”.

Um público que ela faz questão de conhecer e acompanhar. E por isso sabe que ele é composto sobretudo de mulheres (85%), na faixa dos 18 e 37 anos e oriundo de países diversos, com predominância natural de Cabo Verde e Angola. Sabe também que parte dele está disposto a pagar para receberem aulas de auto-maquiagem, consultoria de imagem, entre outros serviços que a também modelo fotográfica presta agora que o seu negócio transbordou o âmbito online e tornou-se o seu trabalho a tempo inteiro.

 

Cabo Verde IT

Voltando a Amílcar Sousa Monteiro e sobre que outros usos os jovens cabo-verdianos poderiam dar á internet, ele aponta: “Vejo que lá fora os jovens começam a programar, a gerar soluções para problemas com base em tecnologias da informação. Há um mundo por explorar. Se os nossos jovens estivessem pr’aí virados estaríamos a ter soluções criadas por eles com impacto na vida das pessoas”.

 “Como o país não está organizado neste sentido, resta aos jovens divertirem-se com aquilo que a tecnologia traz, com a quantidade de conteúdo e entretenimento, estarem voltados mais para consumo imediato do que se produz la fora do que trazer a tecnologia e adaptá-la à nossa realidade”.

Aqui Sousa Monteiro refere-se sobretudo à criação/importação de software e não mero uso dos já existentes. Algo como criar uma rede social ou um aplicativo 100% cabo-verdiano e voltado para o mercado nacional.

O co-criador da Get IT Social acredita que os jovens poderiam ter um importante papel a desempenhar nas mudanças necessárias se lhe fossem fornecidas as ferramentas certas.

“ O jovem que está a entrar no mercado de trabalho, que vai para o primeiro emprego… Precisamos de melhor orientação desta o que ele sabe efectivamente fazer. Sabemos que educação formal dá uma certa capacitação, mas na prática é preciso que os jovens possam dominar certas ferramentas. As instituições que estão mais vocacionadas para formação profissional deveriam estar a fazer um trabalho mais abrangente porque é uma massa de jovens com poucas qualificações (mesmo quando têm um curso superior), principalmente para negócios e empresas que pedem alto desempenho”. 

E, peremptório, avisa: “A internet não é algo que Cabo Verde pode continuar a ignorar e a não assumir a sua integração nas políticas de desenvolvimento”.  


Jovens na Rede

Dados divulgados no final de Julho pela União Internacional das Telecomunicações, UIT, mostram que 830 milhões de jovens estão online no mundo, representando 80% da população jovem de 104 países.

O relatório anual da agência da ONU também mostra um aumento significativo no acesso à banda larga, com a China liderando o caminho.

Segundo o documento, os jovens de 15 a 24 anos estão na dianteira do uso da internet. Nos chamados Países Menos Avançados, até 35% das pessoas que usam a rede estão nesta faixa etária, em comparação a 13% nos países desenvolvidos e 23% globalmente.

 

Banda larga móvel

A edição 2017 do relatório da UIT revela que assinaturas de banda larga móvel cresceram mais de 20% anualmente nos últimos cinco anos e devem chegar a 4,3 bilhões até o fim de 2017.

Entre 2012 e este ano, os Países Menos Avançados tiveram o maior crescimento de assinaturas de banda larga móvel. Apesar disso, o índice nessas nações ainda é o menor do mundo, com 23%.

Já o número de assinaturas de banda larga fixa aumentou 9% ao ano nos últimos cinco anos, com 330 milhões de novas assinaturas.

Segundo o relatório da UIT, a banda larga móvel é mais acessível que a fixa na maioria dos países em desenvolvimento. Os preços da banda larga móvel, como percentual do rendimento nacional bruto per capita, caíram pela metade entre 2013 e 2016.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 819 de 09 de Agosto de 2017

sábado, 12 agosto 2017 06:10

1 comentário

  • Augusto 12-08-2017 Reportar

    Pena que o sistema é preguiçoso, só chega ao trabalho por volta das 11, quando todo o mundo já está desanimado a rumar para casa.

Deixe um comentário

Os campos com (*) são obrigatórios.

Expresso das Ilhas

Top Desktop version