Expresso das Ilhas

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Anjos da Noite cuidam dos invisíveis

Os super-heróis não existem. Há é gente humana capaz de pequenos (grandes) gestos que fazem a diferença. E há histórias de vida, “travessia”. Histórias com momentos maus onde uma reacção mais amiga resgata a dignidade devida. No projecto Anjos da Noite, da Câmara Municipal da Praia, há um pouco de tudo isso. Trata-se de uma iniciativa que presta apoio alimentar, psicossocial e outros, aos sem-abrigo da Praia. Ainda em fase-piloto, este é um projecto que cuida dos desabrigados, ajudando, olhos nos olhos, os invisíveis da cidade.

 

Todas as noites, de segunda a domingo, a equipa “Anjos da noite” reúne-se em frente ao edifício dos Paços do Concelho, por volta das 20h. As próximas três horas serão passadas a percorrer diferentes pontos do Plateau e da Fazenda, distribuindo sopa e pão a 28 sem-abrigo identificados. Para todos eles haverá também palavras amigas, dois dedos de conversa sobre o correr do dia e assistência ao nível da saúde, se tal for necessário.

A primeira paragem é a praça Alexandre Albuquerque. Num banco estão dois senhores de, aparentemente, meia idade. Costumam ser três, mas houve uma zanga. Um dos utentes está chateado. Além da zanga com o companheiro, houve também zaragata com outro grupo de sem-abrigo da mesma zona. Quezílias. Sandra, a psicóloga da equipa conversa com eles, pergunta-lhes como estão, se dormiram bem, aconselha-os e apela à calma e amizade. Emerson examina um curativo que há dias fez a um dos utentes do projecto, para ver se precisa de reforço.

Mais um pouco de conversa entre a equipa e os dois homens. A coordenadora do projecto, Margarida Rocha, entrega-lhe a marmita com a sopa que, mais tarde, se virá recolher vazia.

Prossegue-se. Há vários outros utentes do projecto para apoiar esta noite…

 

Os Anjos

Anjos da Noite é um projecto da responsabilidade da Direcção de Acção Social, Género e Educação Pré-Escolar (DSGPE) da CMP e teve a sua génese numa outra iniciativa, também no âmbito do combate à exclusão social.

“Andamos pelos bairros a fazer um levantamento de toxicodependentes”, conta a vereadora da Acção social, Ednalva Cardoso. Nesse levantamento, foram identificadas 41 pessoas (35 homens e 6 mulheres), com idade média à volta dos 39 anos. Segundo a ficha do projecto, “fazem parte desse grupo, doentes mentais, toxicodependentes, idosos e pessoas com deficiência”. Actualmente, como nos revela a coordenadora do projecto Margarida Rocha, o número identificado ultrapassa já as seis dezenas e segundo a estimativa geral, a nível da cidade, deverão ser pelo menos 80, avança, por seu lado Ednalva Cardoso.

O elevado número de sem-abrigos identificados preocupou, pois, a CMP, que considerou ser importante “dar alguma resposta a essas pessoas”. A resposta encontrada para a problemática foi precisamente este projecto, que está ainda na sua fase piloto, cobrindo os dois bairros onde foram identificados maior número de sem abrigo: Plateau e Fazenda (Avenida Cidade de Lisboa). “Neste momento estamos a cobrir 28 sem abrigo, 25 homens e três mulheres”, avança a vereadora.

Anjos da Noite foi o nome escolhido. E por trás do nome, há também uma pequena história. Este já tinha sido apontado pela equipa durante a concepção do projecto. A validação do mesmo, porém, acabaria por vir de uma utente que uma noite, ao ver a equipa disse: “vocês são os anjos da noite.” Assim ficou.

 

“O meu pai era rico”

Num canto, recolhido dentro de uma reentrância no desenho arquitectónico de um prédio encontramos o sr. A. Recebe a equipa falando em francês. “Je parle trés bien français”, salienta. Afinal, esta foi a língua com que cresceu e na qual estudou. Filho de pais cabo-verdianos  emigrados no Senegal, A., hoje com 64 anos, afirma ter vivido muito bem. “O meu pai era rico. Era mecânico de aviões, mecânico de carros”, conta. Tinha, segundo diz, várias casas em Dakar e ainda hoje há um prédio em Marselha (França), onde o pai passou os últimos tempos da sua vida, que é da família.

“Meu pai era rico, ‘usted’ compreende”, insiste, misturando Línguas.

Antes do desamparo,  A. visitou vários países da Europa: Portugal (“gostei muito, bom tinto…”), Espanha, França. Visitou também os EUA. E em África, a África do Sul, “no tempo do apartheid, ruas de branco e ruas de pretos”.

Explica que trabalhou nos barcos, após oito anos passados na tropa militar. Por isso viajou tanto. E ao longo da sua narrativa, o mundo por onde andou vai crescendo ao ponto de não sabermos se ainda fala das suas visitas ou dos países de que ouviu já falar: Alemanha, Itália, Dinamarca, …

Tem cinco filhos. Dois, adultos, em França (onde também viveu), filhos de uma francesa, um pequeno em Cabo Verde, e dois no Senegal, com uma senegalesa. Diz-nos que estes são pequenos, novinhos, mas pela cronologia que apresenta depreende-se é que já não os vê desde que eram crianças.

Hoje, como não tem dinheiro, as mulheres não querem ficar com ele, observa.

A. tem pois uma história repleta de aventuras e é oriundo de uma família que “vivia bem”. “No ano em que o Papa João Paulo II visitou Cabo Verde” (1990), seguiu a mãe no seu regresso ao país e foi morar com ela em Assomada. Trabalhava. “Eu sou pintor”, “loja chinês”, o resto não se percebe…

Quando a mãe morreu, há alguns anos, a família vendeu a casa onde viviam. Agora, “estou sem casa em Cabo Verde”, lamenta. Sem casa e sem meio de subsistência.

Dos 10 irmãos, diz que dois estão em Marselha a viver em casa do pai.  “Estou cansado de pedir, durmo na rua, a minha família não quer ajudar. Sabem que estou em Cabo Verde e não dizem nada, não me mandam nada.”

 “Não querem ajudar”, nem as irmãs que tem em Cabo Verde e que diz serem ricas…

No seu discurso por vezes é preciso adivinhar o que quer dizer. Fazer a ponte entre as memórias que vai contando, intercaladas com a imitação dos diálogos zangados com familiares e outros, e os saltos linguísticos. Mas fala bem-disposto, entre o orgulho de quem já viveu bem e a tristeza de ter perdido…

 

Refeição quente e calor humano

O projecto Anjos da Noite conta com dois parceiros: uma padaria portuguesa que fornece o pão, e um restaurante que fornece a sopa. Na realidade, esse restaurante (o Panorama) tinha já um serviço de voluntariado, do qual a CMP era parceira, no qual distribuía sopa, 3 vezes por semana, aos mais necessitados. Essa iniciativa privada, da dona Lilitcha (proprietária do restaurante) denomina-se Sopa Carinhosa, e é uma ideia reproduzida aqui, a título diário.

Mas no Anjos da Noite, à vertente da alimentação, juntam-se outros cuidados, nomeadamente  de saúde, que passam, por exemplo, por fazer pequenos curativos, ajudar os utentes – que muitas vezes nem têm noção exacta das horas – a tomar os medicamentos da forma correcta, encaminhá-los para as estruturas de saúde quando é necessário e acompanhá-los nessas entidades. Se ficarem internados, visitam-nos. Encaminham-nos até para um banho, na Trindade, quando a higiene já não deve mais ser adiada.

E há aqui ainda, e acima de tudo, um acompanhamento psicossocial. “Há uma escuta atenta, uma conversa amiga. Acho muito importante, gratificante mesmo, chegar ao pé de um utente, chamá-lo pelo nome, perguntar como foi o seu dia. Isso tem tido uma mudança de vida nele”, explica a vereadora Ednalva Cardoso.

É nesse momento, que a devida dignidade é reposta. Esses sem-abrigo, que segundo dizem, são invisíveis para a sociedade, deixam de o ser. E voltam a ser o João, o António, o Mário, a Maria…

 

A história de J.

Tal como A., também J. não nasceu em Cabo Verde. Não que esse factor migratório tenha influência no perfil dos sem-abrigo. Ou talvez tenha… Na verdade, este é um perfil que ainda urge ser feito, um estudo que, aliás, poderá surgir em breve, fruto deste trabalho no terreno dos Anjos da Noite.

Como se dizia, J. nasceu em São Tomé e Príncipe, filho de pais cabo-verdianos. A família regressou à Praia quando tinha 16 anos. Foi para a escola, mas acabaria por deixar os estudos e, sem grande formação, foi trabalhar “nas obras”. “É um trabalho duro, mas é preciso coragem, é preciso trabalhar, sempre”.

A certa altura da sua vida, conheceu a esposa, com quem teve duas filhas. “As minhas filhas estão sempre a vir ter comigo, mas já não tenho relação com a esposa”.

Não se sabe o motivo para o corte de relações com a ex-mulher. Diz-nos só que “aquela foi falsa” e por isso nem teve “coragem de ter mais” mulheres. Embora, “graças ao Pai, os seres humanos não são todos iguais”, salvaguarda.

Fala das filhas, mostra-se cortês e educado. E garante que não mora ali na rua (embora toda a equipa saiba que sim). Explica que vai aquela zona para fazer o seu trabalho, “para ganhar o pão”. Às vezes, confessa, gostava de comprar mais coisas para casa, mas nem sempre possível.

“Pouco ou muito, vamos rabidar para conseguirmos” ganhar a vida, aconselha.

O sr J. tem família, irmãos, mas não se alonga na razão de não ter ajuda… aliás, lembremo-nos, ele não mora ali. Está só a trabalhar.

Nega a sopa, diz que já comeu. A equipa pousa a marmita ao seu lado. “Para se lhe apetecer”. Quando chegam ao fundo da rua, para cuidar de outro utente, o sr J está a comer.

 

Anjos

A equipa vai-se revessando, para garantir dois dias de folga entre os membros. Dela fazem parte a Vereador da Acção Social, Ednalva Cardoso, a directora da Acção Social, Isis Pinto e a coordenadora do Projecto “Anjos da Noite”, Margarida Rocha. Sandra, psicóloga e Emerson, enfermeiro, assim como os motoristas da CMP, Patrick e Wilson, fecham a equipa, que em breve será também aberta a alguns voluntários, através do projecto de voluntariado municipal.

Aliás, a recepção do projecto junto aos munícipes tem sido “gratificante”, salienta a vereadora.

Ao longo deste ainda curto projecto foram já criados laços. Hoje, são os próprios utentes que vão ao encontro da equipa. Conhecem também o nome de cada membro, brincam e riem, quando estão bem dispostos.

Se não estão, porque há muitos dias-não, dias em que alguns utentes simplesmente não querem falar, não querem comer, a equipa respeita.

É o caso de M. que encontramos deitado à entrada de uma empresa. Está totalmente tapado com um cobertor de cor indefinida. Não responde quando tentam falar com ele. Não quer comer. Está assim há uns dias. Respeita-se.

Prossegue-se.

 

Laços quebrados

Laços que se criam, laços que se perdem. A quebra dos laços com a família é, como observa Ednalva Cardoso, o motivo mais frequente para o desabrigo.

Por trás dessa fractura estão as mais diversas razões: brigas causadas por heranças ou outros assuntos, vergonha por certos modos de vida ou fontes de rendimento (nomeadamente passagens pela cadeia ou trabalho como profissional de sexo), comportamentos aditivos… Aliás, os comportamentos de risco estão (quase) sempre presentes.

As consequências são devastadoras a vários níveis e os problemas tendem, claramente, a agravar-se. Há utentes também nos quais se nota alguma demência, um discurso desorganizado revelador de uma desorientação a que seria importante dar tratamento.

Ednalva Cardoso ilustra com um caso, de um utente, a quem, estão a tentar levar para uma unidade de saúde, para diagnóstico preciso. “Falei com ele noutro dia, a tentar sensibilizá-lo. Às vezes é ir na sua conversa, para não entrar em choque. Ele dizia que era um atleta de grande competição. Então eu respondia, ‘tendo em conta que é atleta, na altura de competir, a sua saúde tem de estar como deve ser…”

Pelo meio vão surgindo pequenos sucessos que motivam a continuar neste projecto que mais do que alimentar, visa orientar para uma mudança de vida. Surgem casos que mostram que, muitas vezes, basta uma mão amiga para ajudar a sair da espiral de decadência. Um dos utentes, por exemplo, um jovem toxicodependente aceitou ser encaminhado para tratamento. É um pequeno triunfo, revestido na esperança de ter menos uma pessoa em situação vulnerável. A equipa, nota-se, está feliz.

 

Um porto seguro

O projecto Anjos da Noite pretende não só continuar a prestar apoio dos sem-abrigo na rua, como criar uma casa de passagem para pernoita. Um espaço, como nos explica a vereadora Ednalva Cardoso, onde estes possam dormir, tomar um banho, comer à mesa, ver televisão… enfim, um porto seguro para passarem alguns momentos.

Há, porém, várias questões a ter em conta. A começar pela localização. É que, de acordo com as conversas que a equipa tem tido com os utentes, estes não querem sair da zona onde pernoitam e que acaba por constituir a sua “zona de conforto”.

O Plateau parece ser o local indicado, uma vez que este é uma zona com um número considerável de utentes e devido à proximidade com a Fazenda, outra zona coberta pelo projecto. Este deverá ser o próximo passo do projecto, tendo em conta a extrema importância desse tecto dos Anjos da Noite.

 

Ajudar na emergência

Qualquer pessoa pode, por infortúnio da vida ficar sem tecto. Quando há munícipes que ficam desalojados, devido a um incêndio, por exemplo, ou uma situação de desemprego, a resposta da CMP é outra.

“São casos de emergência social. Temos tentado implementar, e já implementamos algumas medidas que auxiliam nesse sentido. Trata-se de pedidos que dão entrada na Acção Social e a que damos resposta em 72h. Para situações urgentes, respostas urgentes, tem sido a nossa prática”, aponta a vereadora Ednalva Cardoso. Os técnicos de Acção Social intervêm, então, fazem o levantamento, e a CMP garante “para casos emergenciais” 3 meses de renda de casa, após os quais é feita uma nova avaliação. “Damos um período máximo de seis meses para a pessoa se organizar”.

São um “público” diferente dos utentes do projecto Anjos da Noite, refere. Até pelo número de utentes abrangidos  - “ não conseguiríamos” arranjar casa para todos” – e provavelmente ao fim dos seis meses, a pessoa continuaria sem ter como subsistir.

“Então ou fica para sempre na lista ou temos de arranjar outra solução e o mais viável, pareceu-nos ser a casa de passagem (ver texto)”, explica.

“É um público-alvo diferente. Alguns [utentes dos Anjos da Noite] são doentes mentais. Não basta pôr numa casa, dar um tecto, tem de ser algo maior”, corrobora a directora de Acção Social, Isis Pinto.

 

“O objectivo do projecto “Anjos da Noite” é assegurar uma resposta de proximidade, desenvolvendo um trabalho técnico de intervenção psicossocial e de encaminhamento a outras estruturas de serviços psicológicos, médicos, recuperação de laços familiares aonde for possível, assim como oferta de uma refeição quente”. O projecto visa também aproximar os toxicodependentes e os sem-abrigo dos serviços sociais e de saúde, não perdendo de vista a reintegração social dos mesmos.

Para esse efeito, Anjos da Noite realiza saídas nocturnas, para a distribuição de uma refeição quente, diminuição de comportamentos de risco com a distribuição de preservatvos, apoio social , psicológico, jurídico e médico.” in Ficha do Projecto

 

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 815 de 12 de Julho de 2017

domingo, 16 julho 2017 06:55

2 Comentários

  • Neves 17-07-2017 Reportar

    Numa só palavra: EXCELENTE.

  • Sócrates de Santiago 16-07-2017 Reportar

    Feliz iniciativa! Isto demonstra o nosso lado humano. Afinal, as instituições são compostas por HOMENS. Força, ANJOS DA NOITE! Esta vossa filantropia é de louvar e de apoiar. Que outros anjos diurnos e nocturnos abracem este grande projecto. Os sem-abrigos capitalinos merecem. São também humanos.

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