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Street Force Motivation: A voz dos bairros luta contra a violência

Street Force Motivation é, como o próprio nome indica, uma força motivadora que vem das ruas, das zonas da cidade da Praia consideradas mais problemáticas. O projecto percorre os bairros lançando, através da sua página de Facebook, a reflexão sobre os problemas sociais e usando a dança e outras manifestações artísticas e desportivas de rua como instrumentos de promoção da paz. Neste ponto de convergência cultural entre os bairros, que mostra o talentos de jovens das diferentes “zonas”, também não faltam depoimentos sobre quem tendo andado na guerra dos thugs, denuncia o absurdo da violência.

“N txoma Rtixas, N era antigu thug di Várzea …” Ao lado da campa de dois companheiros assassinados na luta de thugs, Rtixas é um dos rapazes que dá a cara, no projecto Street Force Movement, contra a violência nos bairros da capital.

Aceitou fazer parte deste movimento para que pelo seu exemplo, pela sua estória, vidas possam ser salvas. “Guerra di thugs ka sta leba nenhum kau, e so magua, so rancor, dor pa dos ladus: pa família di kel ki sta presu i pa família di kel ki mori”, avisa.

Ao seu exemplo juntam-se outros, que podem ser vistos na página de Facebook Street Force Motivation. Estórias que chocam, entristecem e põe a nu o vazio da vida de thug. “N kre fla nhos ki vida di thug e so iluzon”, diz Ritxas, insistindo que, “Djan Fla Nhoz, kela e tudu falsu, un Kultura  K ka fazi parti di noz, e un mintira, un iluzon. Nu buska kaminhu di salvason ki so djuntu nu ta konsigi!”

O testemunho é, pois, aqui uma das formas de luta pela paz. Ouvir quem, por experiência, sabe que há caminhos que nada trazem de bom. E também Etson Carvalho dos Reis, jovem que ficou paraplégico após ter ser baleado na sequência de uma rixa entre o seu grupo de thugs (Meio di Txada) e um outro, dá a cara. Vida de thug, de violência, diz, “e ka vida. Kel vida ta danu so morti.”

ANhos ki sta na grupu, pa tudu ladu, di tudu zona”, conta: “ami N tive un asidenti, N toma un tiru, gosi N larga kel vida la. Assim, “N ta fla nhos: rapaz bu toma juízo pamodi ora ki akontisi keli ku nhos, Nu ka ten nenhum amigu pa djobi nu nau”.

Mas se os exemplos de quem passou por essa vida violenta e sobreviveu – ainda que não incólume – são fortes, eles constituem apenas uma pequena parte deste movimento. Dar voz aos bairros é entrar num universo onde acima da brutalidade há música, dança, arte, desporto e gente com muito talento e mensagens positivas.

 

A dança como forma de vida

Nesta primeira fase do movimento, o Street Force Motivation tem-se concentrado na música e na dança. Street dance, afro house, rap, breakdance, o Hip Hop sobressai em vários bairros, e grupos de cada zona vão mostrando o seu talento em pequenos clips.

E ao mostrar o seu talento e domínio dos ritmos, dão o exemplo. Como diz uma rapariga, sobre o grupo de Tira- Chapéu “TRATXA”, são “Rapazis dretu, es e bunitu, es ta badja bunitu, es e un ezemplu pa Tra-xapeu. Txeu algen gosta des, (…), minins tudu gosta des, sigi pa es badja, es e…un ezemplu pa nha zona”.

Exemplos positivos pois, através da dança. Ou como a dança pode salvar vidas.

É tudo filmado com telemóveis pois o projecto não tem verbas. É feito da boa-vontade e do desejo de ver a arte como veículo de fraternidade, união, inspiração e comunicação entre os jovens das diferentes zonas da Praia.

Deste modo, os jovens de um bairro podem não só passar a sua mensagem e mostrar a sua “arte”, como ver também o que outros grupos de dança de outras zonas andam a fazer.

Mylene Oliveira é uma das promotoras do projecto. “Uma de muitos”, afirma, reivindicando que o Street Force Motivation não é um projecto de alguém, ou de uma organização, em particular, mas sim de todos quantos dão a cara, fazendo os seus depoimentos ou mostrando a sua “arte”.

E como avança, não se pretende aqui usar só a dança, apesar desta ter surgido em primeiro como motor do SFM. Outros “pilares” do Hip Hop, como o grafitti, também terão aqui um espaço de difusão. E o desporto, nomeadamente o street basket, será também, em breve incluído no movimento pois, como reitera Mylene, a ideia é usá-lo, tal como o hip hop, “como instrumento para combater a violência e outros males sociais”.

Enfim, a ideia é mostrar que essas manifestações nascidas e criadas na rua, são “uma forma de passar a mensagem de paz e que funcionam também como uma terapia para os jovens. Quando os jovens dançam, por exemplo, não perdem o seu tempo em coisas menos positivas”.

 

Pela paz e igualdade

O projecto vai, então, percorrendo os chamados “bairros periféricos”, dando-lhes voz. E vai também assinalando vários temas sociais. A “luta” contra a violência, através do hip hop é, como visto, um dos pontos principais. Aliás, um dos manifestos a que a página do Facebook constantemente faz referência é a Declaração de Paz do Hip Hop, um documento assinado por vários artistas e organizações de Hip Hop internacionais e que foi entregue às Nações Unidas em 2001. O documento, composto por 18 princípios, reconhece, em primeiro lugar, o Hip Hop como uma cultura internacional de paz, e afasta as ideias que associam este estilo à criminalidade.

“Kultura HIP-HOP ta rejeita kualker impulso imaturo de kualker ato injustifikado de violensia”, é um dos trechos, retirados da Declaração, que estão “postados” na página do movimento.

Pretende-se, sobre esta base e como refere Mylene, “promover o hip hop com uma boa mensagem”. É que, segundo afirma, “o hip hop foi criado por delinquentes, para, justamente, sair da delinquência. É uma forma de se exprimir, comunicar pela arte.”

A mensagem passada vai para além da “luta” pela paz. Aqui lança-se a reflexão sobre os mais diferentes problemas, levantam-se outras questões que flagelam a sociedade, nomeadamente a questão da igualdade de género.

“Já começamos a falar sobre VBG”, adianta Mylene. “E vamos agora dar mais destaque à mulher em si. Incluindo no Hip Hop, que normalmente é muito masculinizado. Vamos falar da mulher nas diferentes esferas”.

Em suma, da rua, pela rua e para a rua, o SFM é uma forma de trabalhar os chamados bairros problemáticos, ouvindo e mostrando o que seu potencial; motivando-os, no terreno, a passar a sua mensagem, a sua arte, as suas preocupações, sua alegria e, claro, o seu talento.

 

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 811 de 14 de Junho de 2017.

domingo, 18 junho 2017 06:00

1 comentário

  • Sócrates de Santiago 18-06-2017 Reportar

    Bom projecto! Feliz iniciativa! PRAIA MARIA bem merece este djunta-mon de todos nós contra a violência de qualquer índole. Força! Estamos convosco.

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