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Empoderamento Feminino: A Casa das 9 Mulheres

O empoderamento económico das mulheres foi a bandeira erguida pelas Nações Unidas (ONU) na sua mensagem a assinalar o 8 de Março – Dia Internacional da Mulher. Sem olhar a objectivos macro como o Planeta 50-50 em 2030 definidos pela ONU, a Casa de Acolhimento Manuela Irgher, em Santa Cruz, vem trabalhando há 9 anos no empoderamento de mães solteiras em situação de vulnerabilidade económica. Histórias de sucesso não faltam, mas o desafio da sustentabilidade é também realidade.

 

Aos 19 anos, Adalgisa engravidou e teve que interromper os estudos. O pai da criança, numa história demasiado comum no país, não assumiu as responsabilidades para com esta. Como se não bastasse a situação económica vulnerável da família, a adolescente ainda enfrentou problemas de saúde ligados à gravidez e ao pós-parto.

Franzina e tímida, não levanta os olhos enquanto nos conta, quase num murmúrio, o sofrimento físico pelo qual passou e ao qual se juntava o desespero de saber as dificuldades que teria para garantir o sustento da filha. Sem apoio do pai da criança, sem recursos para continuar os estudos e sem ter com quem deixar a filha para procurar um trabalho, encontrou na Casa de Acolhimento Manuela Irgher aquilo que mais precisava no momento: calor humano e amparo emocional. Ali encontrou também o apoio necessário para dar continuidade aos estudos e ter assim a possibilidade de vir a realizar o curso de Cozinha e Pastelaria com que sonha.

Adalgisa e a filha formam uma das quatro famílias que a Casa acolhe neste momento. A capacidade máxima é para cinco mães, com um máximo de três crianças (dos 0 aos 8 anos) cada. Mas a família, de certa forma é uma só. E dela fazem parte as quatro técnicas profissionais que coordenam a administração do espaço e até mesmo as duas cadelas – Branca e Nutella – ali acolhidas e que também dão alguma sensação de segurança às moradoras.

A rotina na Casa começa bem cedo, às seis da manhã. Todas têm a sua tarefa e um quadro afixado no pátio fresco serve de lembrete. As mães e crianças que estudam, seguem para escola. As que ficam revezam-se nos trabalhos domésticos.

Mas também é frequente quebrar-se a rotina. Como no dia da nossa reportagem, em que a Casa recebia a visita das mulheres do projecto Negras Plus Size, uma iniciativa que visa o empoderamento das mulheres fora dos padrões de beleza incutidos pela indústria da moda e do entretenimento ocidentais, ao mesmo tempo que promove um estilo de vida saudável. A chegada das mulheres vindas da Praia fez a casa alvoraçar-se com o cantar e o dançar de batuco. Um ritual sempre oferecido a quem as visita.

A certa altura, Maria do Nascimento, uma das coordenadoras do centro, canta um batuco em italiano. É a tradução da letra que criou para homenagear a jovem italiana Manuela Irgher, que dá nome ao espaço. Manuela, falecida aos 17 anos, não chegou a conhecer Cabo Verde. Contudo, os pais quiseram cumprir com a sua vontade de fazer algo para ajudar a melhorar o mundo e canalizaram aquilo que seria a sua herança para a construção da casa de acolhimento para mães solteiras, em Santa Cruz.

Os pais da jovem Manuela continuam a contribuir para a Casa, que visitam com alguma frequência. Mas o orçamento mensal de 300 contos é maioritariamente assumido pela tutela do empreendimento, responsabilidade conjunta da edilidade local e da ASDE – Associação de Desenvolvimento com base em Itália e com longos anos de trabalho em Cabo Verde.

Os desafios da gestão financeira de um espaço pelo qual já passaram (desde a sua criação, há 9 anos) 54 mães e 69 crianças, são quotidianos. E aumentaram atendendo que a crise económica europeia fez diminuir o montante que chegava da Itália. Protocolos como o que mantêm com o Hospital de Santa Cruz, que lhes permite ter os medicamentos básicos e aceder a consultas com isenção nas taxas, são importantes para fazer face a alguns destes desafios. Mas não chegam. De olhos postos na sustentabilidade futura, traçam-se projectos.

“Nós vamos trabalhar a nossa horta e investir em plantas fruteiras, de modo a tirar daí algum rendimento para a Casa”, explica Maria Antónia Alves Soares, educadora profissional e uma das coordenadoras do centro, onde é carinhosamente tratada por Tia Maria.

Com um pé em Santa Cruz e outro na Cidade da Praia, Maria Soares, que se formou em Itália, trabalha na casa de acolhimento desde a sua criação. Não esconde o orgulho pelo trabalho realizado, pelas conquistas feitas pelas mães que por lá têm passado, mas também alguma preocupação quanto ao futuro e a necessidade de garantir a sustentabilidade.

A criação de uma fábrica de queijos e maior divulgação da pousada Casa da Amizade são outras apostas para o incremento dos recursos. A pousada, anexa à Casa de Acolhimento, e com 8 quartos e 3 mini apartamentos bem equipados e confortáveis, já ajuda no orçamento mensal. Tem todavia potencial para mais.

 

Pobreza no feminino

Dados do Relatório Anual sobre a Situação da Justiça, do Ministério Público, referentes a 2015/2016, trouxeram a informação de que 6.134 crianças cabo-verdianas não têm o nome do pai. Esta ausência de registo paterno quase sempre aponta para famílias monoparentais, e de mães solteiras, que constituem a maioria no país.

Por outro lado, de acordo com o artigo Oportunidades Económicas e Redução da Pobreza - “A Feminização da Pobreza em Cabo Verde”, da autoria da técnica do Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género (ICIEG), Damaris Lopes da Silva, relatórios internacionais produzidos em anos recentes apontam para a feminização da pobreza em Cabo Verde.

Um relatório de 2015 do Banco Africano de Desenvolvimento, por exemplo, atesta que o arquipélago está sim bem encaminhado no que se refere às questões de género (posicionando-se em 9º lugar num ranking relativo á performance dos países nestas questões) e no entanto o mesmo documento chama a atenção para “deficiências importantes no referente a oportunidades económicas, sendo esta a dimensão que menos se tem observado avanços em Cabo Verde”.

Na mesma linha, informações do “Global Gender Report 2015” do Fórum Económico Mundial, mostram Cabo Verde numa boa posição no Indicador Global sobre Igualdade de Género (lugar 50 entre 145 países cotados). E no entanto, também aí o quadro no referente a oportunidades económicas para mulheres é negativo, com o país a cair para o posto 115 dentre os mesmo 145 países avaliados.

O mesmo relatório lembra ainda os dados do Instituto Nacional de Estatísticas que mostram uma evolução positiva no país referente à diminuição da pobreza. Conforme as estatísticas do INE, a população vivendo abaixo do limiar da pobreza diminuiu, passando de 49% em 1990 para 26.6% em 2007. Todavia, são ainda as mulheres as mais atingidas com os números a apontarem um alargamento do fosso entre o sexo masculino e feminino. Das 111.219 mil pessoas pobres, 66.015 mil eram mulheres (56,3%) e 51.204 homens (43,7%).

Dados mais recentes [III Inquérito às Despesas e Receitas Familiares do INE, referente ao período entre 2014-2015] apontam que os valores da pobreza diminuíram no país, mas Santiago continua a ser a ilha com maior número de pobres e as mulheres continuam a ser as mais atingidas (53%).

O concelho de Santa Cruz, onde se localiza a Casa de Acolhimento Manuela Irgher, é um dos que regista maior taxa de desemprego no país, sendo que o desemprego em Cabo Verde afecta maioritariamente os jovens, mas fundamentalmente a mulheres jovens em idade reprodutiva. E são estas as características das internas da Casa Manuela Irgher.

Estas jovens mulheres foram resgatadas de situações de extrema dificuldades sócio-familiares, após o diagnóstico efectuado pelas técnicas da Casa. Estas fazem todo um trabalho de campo, efectuando visitas às comunidades locais, realizando inquéritos às famílias e constatando in loco as suas condições de vida até seleccionarem aquelas que precisam ser encaminhadas ao centro.

Na Casa, após um primeiro momento de estabilização afectiva e emocional, o foco é no futuro. Todas as internas beneficiam de formações pontuais e informais – como as ministradas pelos voluntários estrangeiros que visitam periodicamente o centro – mas também são canalizadas para a formação profissional, sendo o Centro de Formação Profissional do município um parceiro institucional.

Maria Soares, a Tia Maria, elenca satisfeita as várias histórias de sucesso das mães que se formaram e são hoje cabeleireira, enfermeira, professora, entre outras, e que hoje garantem agora os sustentos das suas famílias.

“Quando tiramos uma mãe da situação de risco, estamos a evitar que a sua situação piore e que ela seja atingida por outros males”, diz.

A Casa tem também recebido pontualmente mulheres vítimas de VBG. Uma situação que a coordenadora classifica de “mais delicada”, já que as técnicas da Casa ainda não têm formação especifica na área.

O perfil destas vítimas de violência doméstica é quase sempre de mulheres com nível de escolaridade básica e cujos filhos não têm o nome do pai.

“Procuramos ajudar no que podemos. Concedemos um microcrédito, por exemplo, para permitir a estas mulheres conseguirem o seu próprio rendimento”.

É um trabalho contínuo, de empoderamento económico mas também de mudanças comportamentais, onde a saúde reprodutiva e o planeamento familiar também entram. Daí o protocolo assinado com a VerdeFam, que vai passar a trabalhar com a instituição.

 

Há também um trabalho de intervenção junto à família e sensibilização do pai para o registo da sua criança.

“Temos notado que quando a mãe e as suas crianças são acolhidas na Casa, geralmente o pai se aproxima. Aproveitamos então para fazer a sensibilização e quase sempre têm aceitado registar os filhos, e há também casos de casais que se reconciliam e voltam a viver juntos e estão bem”.

E continua: “Ver uma vida a mudar, ver pessoas ultrapassar o desespero, é uma satisfação para todas nós que trabalhamos aqui”, reitera a nossa entrevistada.

Atendendo ao sucesso que vêm registando nesses nove anos de trabalho e considerando as 66.015 mil mulheres afectadas pela pobreza no país e o número de crianças sem o nome e o amparo paterno, a primeira-dama Lígia Fonseca, na visita que efectuou ao espaço no início deste mês, deixou o repto: que a casa de acolhimento seja replicada em todas as ilhas.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 798 de 15 de Março de 2017.

domingo, 19 março 2017 06:08

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