Violência no parlamento, uma discussão com quase uma década / Nacional / Detalhe de Notícia
Violência no parlamento, uma discussão com quase uma década
De 2003 a 2009, vários foram os apelos da oposição, lançados no parlamento, pelos respectivos presidentes dos partidos políticos, sobre a onda de violência que asfixia o país. Apelos estes, que, de forma sistemática, foram rejeitados pelo Primeiro-ministro e o seu governo. José Maria Neves, durante uma sessão parlamentar, considerou de "levianas" as declarações do então presidente do MpD, Agostinho Lopes, afirmando que a oposição "estava a incentivar a violência no país". O Expresso das Ilhas recolheu os depoimentos dos ex-líderes do MpD.
Agostinho Lopes
Enquanto líder do maior partido da oposição, Agostinho Lopes recorda que em meados de 2003 o MpD começou a chamar a atenção do governo para o sentimento de insegurança da população, conforme revelou um estudo de opinião realizada na altura, "em que o factor segurança, que antes não fazia parte da lista das 10 preocupações da população, passou para a sexta posição". Na base dessa conclusão do MpD estava o aumento do tráfico e do consumo de drogas no país e "havia já nessa altura um estudo da ONU a chamar a atenção preante a crescente degradação das situações de insegurança na zona Ocidental Africana, incluindo Cabo Verde".
Cedidos esses dados ao Parlamento, para solicitar a atenção do Governo, este reagiu da seguinte forma: "isto é um discurso catastrófico, não há insegurança, o vosso discurso é que está a incutir nas pessoas o sentimento de insegurança, portanto, vocês querem é lançar caos, no pressuposto de vos ser útil e render-vos alguns votos", recorda Agostinho Lopes os discursos de José Maria Neves.
Entretanto, a situação de insegurança no país foi evoluindo de forma negativa, até que, em 2005, na altura da campanha, o governo decide colocar nas ruas a Polícia Militar e, de facto, "sentimos, durante alguns meses, que havia uma sensação de ter melhorado a situação em Cabo Verde. Mas, depois voltou o desleixo e estamos na situação a que chegamos hoje, em todo o país. Finalmente, há duas semanas, o PM assume que há problema, espero que após o reconhecer, neste ano de eleições, pelo menos, se possa dar, agora, tranquilidade às pessoas".
Jorge Santos
Nesta última década o MpD sempre teve uma postura responsável e serena, porque acompanhámos a evolução da criminalidade e sempre estivemos preocupados com o seu impacto no desenvolvimento do país, nomeadamente, a forma como podia afectar o sector do turismo. Sempre chamámos a atenção para o caminho que a violência estava a ter, um caminho de crescimento. No parlamento, pedimos sempre melhor qualificação das nossas polícias, investimentos sérios, laboratórios de qualidade, instrumentos e equipamentos modernos. O que aconteceu é que o governo nunca nos deu atenção. Com o agravamento da situação, podemos concluir que o MpD tinha razão, era necessário inverter o cenário, eram necessárias políticas activas. Infelizmente, o governo não nos deu atenção, aliás o primeiro-ministro, em declarações no ano de 2006, acusou a oposição de ser alarmista. O PAICV chegou a dizer que o MpD é que encorajava a criminalidade. Hoje, afinal, descobrimos que é mesmo necessária uma reforma profunda, um consenso profundo, para resolver os problemas de insegurança que se vive em Cabo Verde.
Lídio Silva
(dicurso directo na RCV)
Os deputados da UCID, na sessão plenária de Junho do ano passado, produziram uma declaração política, versando esse tema, em que nós chamávamos a atenção da situação. Portanto, nós saudamos a posição do Governo, neste momento. Lamentamos que, nessa altura, em Junho, não tenha tomado essa posição. Talvez teríamos ganho muito tempo em relação às situações que aconteceram de Junho a esta parte. Sem dúvida, que é preciso termos em conta que, neste caso, não podemos dizer que há alarmismo ou sensacionalismo desta ou daquele órgão. Todo o pequeno caso que aconteça nas nossas ilhas, deve ser levado ao conhecimento de todos, através da comunicação social, precisamente, para tentar, numa posição pedagógica, chamar a atenção para tudo aquilo que tem acontecido. A semana passada, quando nós vínhamos a entrar aqui para o estúdio, aqui mesmo à frente da rádio, passou aqui um bando, a vir da zona da polícia aqui da Achada, em direcção ao Palácio das Comunidades e parecia uma batalha campal. Não podemos permitir.
Agora, uma coisa é certa, toda a sociedade e todos nós somos chamados a combater essa situação. Não é só o Governo, não é as câmaras municipais. Todos nós, porque, caso contrário, a situação pode ser complicada, porque nós não podemos estar a comparar com outros países. Nós somos nós e o cabo-verdiano e o governo de Cabo Verde e todos nós temos de ter a determinação, porque capacidade existe, temos de ter a determinação de ir ao fundo das questões e tocar para que as pessoas saibam que nós sempre fomos um país de bem, com pessoas de bem e, portanto, não vamos permitir isso e os jovens têm que ouvir essa mensagem, para poderem começar a programar que aquilo que pensam hoje, alguns até por motivos outro, sem nenhuma importância, fazem acções que não deviam fazer, que isso é prejudicial para o seu futuro. Porque, muitas vezes, "ah, é do outro", mas a pedra que nós atiramos ao outro, amanhã poderá vir ao nosso encontro. Portanto, nós temos que ser, de uma forma pedagógica, lutar para que tudo volte a normalizar da melhor forma possível.
Quem paga
a factura?
A delinquência não só continua como ganha proporções cada vez mais preocupantes. De lá até hoje, quem ficou, e continua a ficar, debaixo de fogo cruzado, são os cidadãos. Essa é a realidade de Cabo Verde em 2010. Os crimes aumentam e são cada vez mais violentos. O país continua sem policiamento, nem da polícia nacional, nem da polícia militar. A iluminação pública é um caos. O número de desempregados formados e não formados aumentam. A violência toma conta do nosso quotidiano. Eis o Cabo Verde real.
Expresso das Ilhas
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