Sida: “Ainda não há um casamento perfeito entre o conhecimento e o comportamento” / Sociedade / Detalhe de Notícia


2-12-2010

Sida: “Ainda não há um casamento perfeito entre o conhecimento e o comportamento”


O Secretário Executivo da Comissão de Coordenação do Combate à Sida (CCCS-Sida) defende que a prevenção continua a ser a melhor forma de combate à Sida. "Se cada um de nós, na sua medida, fizermos a prevenção, estamos a dar um passo decisivo para parar a propagação da epidemia", afirmou.

Para José António dos Reis, não se pode dizer que há falta de informação. "Praticamente 100% da sociedade cabo-verdiana já ouviu falar de Sida, uma percentagem elevada sabe como a Sida se transmite. A questão fundamental é que as pessoas, com as informações que possuem, possam ajam, em termos comportamentais, de acordo com o conhecimento que têm. Ainda não há um casamento perfeito entre o conhecimento e o comportamento", afirma, acrescentando que "isso é algo que se adquire com o tempo, com educação continuada, para que haja, paulatinamente, uma mudança de comportamento, e para que as pessoas ajam de acordo com a percepção e consciência de risco que têm".

Quanto à discriminação de portadores do VIH Sida em Cabo Verde, Reis admite que "há preconceitos, como acontece em todas as sociedades em que há preconceito sobre o que se considera diferente ou desigual. Mas, isso é combatido com informação e educação, para que haja maior tolerância".

Arminda Barros, consultora da CCS-Sida adiantou ao Expresso das Ilhas online que um dos maiores problemas que os portadores do VIH Sida têm é a falta de "afecto e atenção". Ainda assim, acredita que os cabo-verdianos estão cada vez mais sensibilizados para as dificuldades dos portadores do VIH Sida, sobretudo com o acesso à informação.

Arminda Barros

O ministro da Educação e Desporto defende que, no que se refere à luta contra a Sida, a formação e a informação não são suficientes. "É preciso trabalhar o comportamento e a atitude das pessoas, para valorizarem relacionamentos saudáveis. As pessoas devem reflectir, nas suas condutas quotidianas, o conhecimento que têm", afirmou Octávio Tavares, acrescentando que é fundamental "a adopção de condutas e estilos de vida saudáveis". Neste sentido, salientou a importância do ministério que tutela, na medida em que cerca mais de metade da população cabo-verdiana passa pelo sistema educativo.

Octávio Tavares falava durante um o "Encontro de Reflexão e Divulgação da Lei sobre Prevenção, Tratamento e Controlo do VIH-SIDA em Cabo Verde", promovido pelo Ministério da Educação e Desporto, em parceria com o CCS-SIDA, esta quarta-feira.

O psiquiatra Manuel Faustino enunciou os aspectos éticos e comportamentais relacionados com a lei. Para este, "a lei traz respostas boas na defesa da dignidade das pessoas, da privacidade, da autonomia que deve ter para ser tratada". Neste contexto, salienta que, apesar de controversa, uma das medidas mais importantes da lei é o facto de garantir a liberdade das pessoas de fazer ou não o teste. "Estudos mostram que o não respeito pelos direitos das pessoas representaram um atraso grande e dificultaram o combate contra a Sida. A lei diz que ninguém pode ser obrigado a fazer o teste, a não ser em situações específicas, ligadas a situações de justiça. Quando se obriga, os resultados são mais fracos. Quando você diz que não é obrigado, mas mostra às pessoas que elas têm interesse em fazer o teste, aumenta o número de testes. Quando obriga, você impõe e discrimina, e ninguém quer isso", explica.

Manuel Faustino

Para a jurista Luísa Sancha, uma das mais-valias da lei prende-se com o facto de reforçar os direitos dos portadores de VIH. "Uma vez que os portadores são vítimas de discriminação, a lei vem reforçar a sua protecção em matéria de direitos humanos.", afirma. Além disso, a lei refere-se à prevenção, tratamento e assistência dos portadores de VIH. Quanto à implementação, a jurista acredita que Cabo Verde tem as estruturas necessárias para garantir a execução da lei.

O evento contou com a presença da Representante das Nações Unidas em Cabo Verde, Petra Lanz, para quem a baixa taxa de infecção em Cabo Verde (1%) "não significa parar o trabalho, mas sim intensificar o trabalho". Acredita que Cabo Verde pode ser um dos primeiros países a conseguir reduzir a taxa de infecção para 0, erradicar a discriminação e a morte de pessoas com Sida. Salienta a importância da lei, que já tem três anos, mas chama a atenção para a necessidade de divulgação. "Uma coisa é ter uma lei, outra coisa é divulgá-la e fazer com que as pessoas compreendam as implicações da lei, não só para os portadores de VIH, mas para todos os actores na sociedade, incluindo os sectores da educação, saúde, e judicial", explica.

De acordo com os dados da CCS-Sida, nos últimos 24 anos, foram detectados 2888 casos de VIH Sida em Cabo Verde, sendo que a taxa de infecção no país ronda 1%.

De referir que os testes de VIH Sida são gratuitos, e podem ser realizados em qualquer centro de saúde e nos centros de juventude. Os portadores do VIH Sida também podem ter acesso gratuito aos tratamentos antri-retrovirais.


2-12-2010, 19:43:56
Ilda Fortes, Redacção Praia


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