MITO, ARTISTA MULTIMÉDIA – “VIVO DO QUE FAÇO, NÃO SEI JOGAR FUTEBOL” / Cultura / Detalhe de Notícia


No Pic
15-2-2008

MITO, ARTISTA MULTIMÉDIA – “VIVO DO QUE FAÇO, NÃO SEI JOGAR FUTEBOL”

Mito esteve, recentemente, na Praia e no Mindelo, onde apresentou a sua mais recente criação artística "Fishboneye". De regresso à Praia, conversamos com o artista plástico sobre a arte que ele pratica e os seus predecessores, entre os quais Manuel Figueira, "em cuja fonte fui beber". Mito aproveitou para deixar algumas dicas sobre a forma como as exposições de pintura são geridas e chamou a atenção para a necessidade para a revisão da componente pedagógica para a área visual

Outra vez em Cabo Verde. Como te recebeu a tua estimada terra?
Mito
- Cabo Verde é meu, mas, às vezes, o relacionamento com algumas instituições é um bocado distanciado. Eu gostaria de ter uma relação mais estreita para poder trabalhar em diversos projectos, para não fazer só multimédia, mas também fornecer imagens para publicidade e outras coisas. Gosto sempre de trabalhar com Cabo Verde, não só por razões afectivas, mas também por uma certa militância.


Estiveste em Mindelo, onde apresentaste a tua mais recente criação artística. Como se intitula e se caracteriza este trabalho?
Mito
- É um trabalho multimédia, que chamei de Fishboneye. É um neologismo que eu criei, que é uma espécie de mantra para convite do exercício visual. O trabalho consiste num pacote de 10 filmes, que vão desde o vídeo clip, à entrevista, animação e ao documentário.


Como foi recebida a tua exposição mindelense?
Mito
- Há já dois anos que eu devia apresentar este trabalho no Mindelo, mas calhou que, na altura, havia eleições presidenciais e legislativas e para não interferir com a campanha política, achei por bem deixá-la arrefecer e compareci agora. Fui bem recebido, já não ia a Mindelo há 9 anos. Gostei muito: foram momentos de alguma lágrima e muito riso.


Pode-se dizer que existe em Cabo Verde, em relação ao tratamento institucional, artistas de classe A e classe B?
Mito
- Classe A e B existem em todo o lado. Se se dissecar esse conceito, podemos entrar por n conceitos. Em todo o caso, penso que há uma sobrevalorização de certas tendências aqui em Cabo Verde. Mas também existe aqui uma grande desinformação que leva a que isso aconteça, nomeadamente que caminhos a área visual deve trilhar ou não. Desconheço os conceitos da política visual que as pessoas querem que seja o símbolo nacional e é importante que se saiba isso. Eu sei qual a proposta que eu tenho para concepção de algumas coisas nacionais.


Então podias definir a arte que praticas?
Mito
- A arte que eu faço é a arte moderna. Trabalho com imagens sob diversas plataformas: filmada, desenhada, pintada, fotografada, imagem em movimento, imagem fixa. Aproveito de tudo o que estiver ao meu alcance para trabalhar: máquinas digitais, máquinas analógicas, máquinas fotocopiadoras, etc.


Pode-se dizer que na tua arte foste obrigado a voar sobre as nuvens, porque não havia nenhuma fonte onde ir buscar a água?
Mito
- Como já disse, em Cabo Verde, existe uma grande desinformação, de ordem vária no que concerne à área visual. Da forma como as exposições são geridas, o horário das exposições, o público jovem que não comparece, os alunos dos liceus que não são convidados para visitas de estudo aos centros culturais para falar com o artista. Temos que rever também essa componente pedagógica da área visual, que, de resto, tem sido muito negligenciada aqui em Cabo Verde. Respondendo à tua pergunta. Quando comecei a pintar, não tinha referências aqui em Cabo Verde. O único quadro que eu conhecia era o painel do Cachito, mais nada.

A nossa Mona Lisa

O painel do Cachito, que é a nossa Mona Lisa. Não havia nada. As coisas que eu conhecia eram de referências enciclopédicas. Agora já temos um acervo de quadros considerável, mas eu tive de começar às cegas e sobre as nuvens.


Mas já havia trabalhos de Jaime de Figueiredo, Abílio Duarte, Pedro Gregório...
Mito
- São coisas que a gente ouve dizer, eu nunca vi nada. O que se conhece de Abílio Duarte? Apenas aquele linóleo que está numa das capas da revista "Claridade". Mas isso não faz dele um artista plástico necessariamente. Não creio que ele seja um artista plástico. E o Jaime de Figueiredo também desconheço completamente a arte dele. Ouvi dizer que ele pintava, que cultivava uma corrente surrealista, etc, mas nunca vi nada dele. A arte visual não é coisa falada, é para ser vista. Do Pedro Gregório, pai, já vi alguns desenhos dele e gostei muito.


Pode-se dizer que as pessoas que vão aos lançamentos e exposições fazem-no mais pelo cumprimento de um dever social do que para o usufruto de um bem cultural?
Mito
- Esse exercício de estilo existe em todo o lado. A coisa também passa pelo convívio social. Tanto mais não seja, porque nós, aqui em Cabo Verde, convivemos mais nos bares e cafés do que propriamente nos jardins.


Mas então o que estás a criticar nas exposições?
Mito
-Por exemplo, o horário: as exposições fecham aqui aos domingos, que é um dia ideal para quem vai à missa, ver, depois, as exposições. É uma chamada de atenção para a necessidade das exposições cumprirem um horário pós - função e não unicamente o horário de trabalho. Porque o pessoal da Função Pública devia ir ver exposições também. Há muitos que certamente desejariam ver e não podem, porque o horário de abertura e fecho das exposições é o horário que eles estão a cumprir eatrabalhar.


Será que um país com apenas uma estação do ano, não prejudica a afluência às exposições, já que parece que os europeus inventaram as galerias de arte para fintarem os rigores do Inverno.
Mito
- Não propriamente. No Brasil, faz-se boa arte e praticamente têm uma só estação do ano. É apenas uma questão de hábito, ou melhor, de falta de hábito. Mas existe um crescendo, de qualquer forma. Eu lembro-me do tempo em que as exposições eram feitas nas montras das farmácias. Só pelo facto de dispormos, hoje, de espaços onde albergar exposições, já é positivo por si só.

A nossa música está a dar passos mais largos que as artes plásticas, ou nem por isso?
Mito
- É porque também a música faz mais barulho, apenas por isso. Quando se faz um acorde, comparecem mais pessoas.


Arte visual é silenciosa

A arte visual é coisa silenciosa.


Enquanto artista plástico, como avalia a nossa música?
Mito
- A música de Cabo Verde, tem feito grandes progressos, tem havido um grande boom, sobretudo a nível da produção: há discos novos todos os dias. É claro que o momento é outro: há uma grande facilidade para gravar um disco; a informática trouxe essa facilidade. Mas não quer dizer que tudo o que sai é bom. Há, desde logo, a ditadura-zouk, há muito barulho. Em Cabo Verde, há muita poluição sonora. Sentas-te num café e ouves cinco fontes sonoras diferentes: é da televisão, do leitor de CD, da rádio, a máquina do café, pessoas a falar, etc. Isso perturba-se imenso. Mas há bons trabalhos musicais. Prefiro não mencionar nenhum artista para não ferir susceptibilidades.


Os artistas plásticos raras vezes pronunciam-se sobre o trabalho dos seus colegas. Cito alguns nomes e diz a tua opinião: Manuel Figueira, Tchalé Figueira, Kiki Lima...
Mito
- Eu sou um confesso admirador do Manuel Figueira, há muitos anos.

"Revejo-me no trabalho
do Manuel Figueira"

Gosto muito do trabalho dele e revejo-me no trabalho do Manuel Figueira. É um artista que aprecio muito. É uma das fontes onde fui beber.
Próximos projectos?
Mito
- Projectos há muitos, mas é preciso encontrar formas de os concretizar. Mas ideias não faltam. Tenho muito material para converter em filmes, em matéria áudio, em exposições fixas, etc e a conta-gotas vou mostrando algumas coisas.


Vives exclusivamente da arte que praticas?
Mito
- Só vivo daquilo que faço. Eu não sei jogar futebol.

 

15-2-2008, 17:36:34
Expresso das Ilhas


voltar


Comentários


O homem distingue-se dos outros animais não por ser inteligente (os outros também são), mas por ser criador...a obra do Mito, tal como a de Deus que criou o mundo e os homens, é que a obra não se revê nele com a mesma intensidade com que ele se revê nela.
Parabéns, Mito pelo seu trabalho e a Cabo Verde por sua beleza e personalidade.
De um jornal caboverdiano para outro ficamos com a mesma sensaçao : o vazio da argumentaçao jornalistica no que diz respeito a Arte em geral e as artes plasticas em particular. Fora das comparaçoes sem cabimento, dos superlativos mascarados e da autosatisfaçao estampada, nada podem ou sabem dizer da obra em si que muito custa ao seu autor apresentar ou explicar. Pamode ka é brincadeira na moda mas sim uma parte de si mesmo!! Ficamos com o mau gosto de uma informaçao "sans parfum et sans saveur" ao passo que se trata do belo, da estetica, de um bem cultural, da intimidade espiritual de um criador que tenta dar um sentido a vida humana. Na evidência nao falam a mesma linguagem... Boa caminhada Mito!!
ta bom


Submeta Comentário

Para deixar a sua opinião sobre esta notícia, por favor preencha o seguinte formulário.
A Ediçao deste jornal on-line reserva para si o direito de selecçao dos comentários, ficando desde já estabelecido que comentários cujos conteúdos sao difamatórios, xenófobos e atentatórios ao bom-nome de pessoas e instituiçoes nao serao publicados. Exerça o seu direito de comentar qualquer artigo e ou notícia nesta página, mas faça-o de forma educada e responsável.

 
Clique para fechar

Editorial: Política externa do Estado ou do Partido
As autoridades caboverdianas vêm seguido a crise na Guiné-Bissau na...
Editorial: Mudar para ganhar
A comemoração do 1º de Maio, Dia dos Trabalhadores, ficou ensombrada em todo...