Hemodiálise em Cabo Verde: só para casos de emergência / Exclusivo / Detalhe de Notícia
Hemodiálise em Cabo Verde: só para casos de emergência
O ministério da Saúde aponta 2011 como o ano em que, "possivelmente", o país possa ter o seu primeiro centro de hemodiálise, para tratamento de casos crónicos.
Cabo Verde dispõe, desde 26 de Fevereiro, de dois aparelhos de hemodiálise. Um na cidade da Praia, outro em São Vicente. O investimento, na ordem dos 26 mil contos, corresponde a um avanço no tratamento da doença renal crónica, mas está longe de ser a solução.
A aquisição dos aparelhos é, para o Ministro da Saúde, a prova de que os cabo-verdianos podem confiar nos hospitais e no serviço de saúde, mas Basílio Ramos acrescenta que, neste momento, os hospitais da Praia e do Mindelo estão em condições de resolver apenas os casos de emergência médica renal.
A 19 de Junho de 2009, a página on-line do Ministério da Saúde anunciava "o fim da problemática da evacuação de doentes" de foro renal. Segundo o site oficial, a necessidade de enviar os insuficientes renais crónicos para Portugal teria "os dias contados".
No entanto, essa informação foi desmentida pelo próprio titular da pasta da Saúde e pelo director do Hospital Agostinho Neto (HAN), Artur Correia. Os dois afirmaram, a 26 de Fevereiro, aquando da apresentação oficial dos primeiros aparelhos de diálise do país, que os dias serão, na realidade, meses, já que o ano de 2011 é a data provável apontada, para a tão esperada instalação dos primeiros centros de hemodiálise de Cabo Verde, nos hospitais Agostinho Neto e Baptista de Sousa.
Apesar de considerar que Cabo Verde tenha dado este ano, um passo histórico, Artur Correia, confirma tratar-se apenas de "uma situação transitória para a situação definitiva, com a aquisição da unidade de hemodiálise no HAN que talvez só seja possível no próximo ano".
Basílio Ramos recorda que o momento é para ser celebrado. "O pessoal está a ser formado, estamos a elaborar um projecto para a remodelação de um espaço, aqui no hospital, mas este passo que demos é extremamente importante para todos os cabo-verdianos e devemos celebrá-lo".
De facto, 2010 marca sérios avanços para a resolução do problema, considera o ministro. "Desde a independência, temos feito uma caminhada excelente em direcção ao desenvolvimento do país, e o ministério da Saúde tem acompanhado este processo. Há muito que vimos falando da questão dos problemas que temos com os doentes de foro renal. Muitas vezes temos dificuldades em aguentá-los até serem evacuados para Portugal".
Dificuldades
de evacuação
A verdade é que, antes desta aquisição, os médicos assistiram impávidos à morte de muitos insuficientes renais crónicos, na impossibilidade de, por falta de condições financeiras, se deslocarem a Portugal.
O único médico especialista em Nefrologia do HAN, Hélder Tavares, lembra alguns destes casos: "são pessoas que não têm condições de viajar por causa da sua situação clínica e nós assistimos impávidos a essas situações um pouco infelizes."
Apesar de as doenças renais não constituírem a principal causa de evacuação para Portugal, já que essa posição é ocupada pelas doenças do foro oncológico e cardíaco, estarão, neste momento, em terras lusas, cerca de uma centena de insuficientes renais crónicos, em hemodiálise ou transplantados em observação, de acordo com o Ministro da Saúde.
Outros "já fizeram o transplante e vão fazer o controlo anualmente. Neste momento, a mais-valia que esses equipamentos nos trazem é termos a garantia de que, se surgir um doente de emergência, ele não vai morrer enquanto não for evacuado e isso já é bom", garante Basílio.
Manutenção dos
equipamentos
Um dos problemas equacionados, nesta fase do processo, prende-se com a manutenção dos equipamentos adquiridos. Fonte da Direcção-geral de Saúde manifestou ao Expresso das Ilhas a sua preocupação, por serem muito frágeis e facilmente danificáveis.
A mesma fonte lembrou o caso da Brava, por muitos considerada "a ilha esquecida", já que não dispõe de uma simples máquina de Raio X. A ilha já teve três aparelhos, agora inoperacionais, por falta de manutenção.
Doentes cabo-verdianos são prioritários em Portugal
A Direcção Geral de Saúde portuguesa divulgou, numa circular normativa, de 28 de Julho de 2009, o procedimento para atribuição de cuidados de saúde nefrológicos a doentes evacuados de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).
No documento, assinado pelo Director-geral de Saúde português, afirma-se que as Repúblicas de Cabo Verde, Guiné-bissau e São Tomé e Príncipe, "têm constituído espaços de intervenção prioritária da cooperação internacional portuguesa no domínio da saúde". Francisco George enquadra o privilégio no âmbito dos acordos existentes no domínio da saúde.
Os doentes evacuados dos PALOP, para tratamento dialítico, estão, assim, sujeitos aos mesmos direitos e deveres de todos os utentes do serviço nacional de saúde português.
Iniciado o tratamento de substituição da função renal numa unidade de diálise pública ou convencionada, "os doentes evacuados dos PALOP que decidam fixar residência em Portugal e procedam à sua inscrição no Serviço Nacional de Saúde (SNS) deixam de estar abrangidos pelos Acordos de Cooperação no Domínio da Saúde, passando a ter o estatuto de cidadãos estrangeiros, residentes em Portugal, sendo-lhes aplicáveis os mesmos procedimentos em matéria de acesso ao SNS" que a todos os imigrantes residentes nesse pais.
A "doença silenciosa"
A doença renal é conhecida como "a doença silenciosa". Os seus sintomas são, muitas vezes, camuflados, não sendo claramente identificáveis pelo paciente. Em muitos casos, os primeiros indícios surgem apenas num estado avançado da doença, quando já não há possibilidade de cura, tornando-se a hemodiálise ou um transplante renal, as únicas hipóteses de sobrevivência.
Entre os sinais mais frequentes estão as cãimbras musculares, cansaço, náuseas e vómitos ou ainda vontade frequente de urinar.
Ter cem por cento de função renal, ou seja, os dois rins completamente saudáveis, é mais do que o que necessitamos para viver. Existem pessoas que nascem com apenas um rim e que podem, mesmo assim, levar uma vida normal e saudável. Por esse motivo, doar um rim para transplante não constitui qualquer risco de vida.
Para que existam sérios problemas de saúde é necessário que a função renal seja de apenas 25 por cento ou menos. Quando o doente não consegue sobreviver sem diálise ou transplante de rim, a sua função renal está abaixo dos 10 a 15%.
Tensão arterial alta, mais de cinquenta anos de idade, ser do sexo feminino, sofrer de doença cardíaca ou de doenças circulatórias nas pernas e ser diabético são factores de risco que devem ser levados em conta.
Expresso das Ilhas
Comentários
Submeta Comentário
Para deixar a sua opinião sobre esta notícia, por favor preencha o seguinte formulário.A Ediçao deste jornal on-line reserva para si o direito de selecçao dos comentários, ficando desde já estabelecido que comentários cujos conteúdos sao difamatórios, xenófobos e atentatórios ao bom-nome de pessoas e instituiçoes nao serao publicados. Exerça o seu direito de comentar qualquer artigo e ou notícia nesta página, mas faça-o de forma educada e responsável.




.jpg)

