BERTA DE OLIVEIRA BENTO, cabo-verdiana radicada em Bissau: “Esta é a minha terra” / Exclusivo / Detalhe de Notícia
BERTA DE OLIVEIRA BENTO, cabo-verdiana radicada em Bissau: “Esta é a minha terra”
É cabo-verdiana, natural da ilha do Maio. Da terra natal, conhece apenas a sua ilha e Santiago, nada mais. Ainda jovem, sentiu a necessidade de deixar a sua terra, para ajudar uma irmã mais velha que vivia em Bissau. Com 19 anos, D. Berta (na foto) fez as malas e seguiu viagem, de barco. Aportou na Guiné, no então porto de Pidjiguiti, por volta das 21 horas. Chegou para assistir a irmã nos trabalhos do parto. O que era para ser uma viagem familiar, acabou por ser uma deslocação, completa. Não mais voltou, para fixar residência, em Cabo Verde. "Esta é a minha terra", garante.
Apesar da idade - 80 anos - a D. Berta carrega no seu olhar uma grande alegria. Comove facilmente. Cabo Verde inspira-a. Apesar da distância, gosta da terra natal, em pé de igualdade com a Guiné-Bissau, terra de adopção. É ali que conhece o seu marido, falecido há 15 anos. Nunca teve filhos, mas na Guiné, conquistou o amor de muitos e garante que Deus lhe deu grandes alegrias com os filhos que foi conhecendo.
No passado 19 de Julho, soprou mais uma velinha. A idade já vai avançada. A saúde já não ajuda, mas não quer deixar o povo guineense. "Tenho saudades, mas quero continuar aqui", diz quando questionada se pensa em regressar, a Cabo Verde. "Faço de tudo para que a minha vida corra da melhor forma".
Com a independência, muitos fizeram as malas, mas a D. Berta não. "Sentei-me no chão, a ralar mandioca para fazer pastéis para dar aos cooperantes", responde, mostrando um sorriso.
Do Maio, guarda apenas recordações. Tem presente a imagem do litoral, das conchas de areia, e de uma ilha quase desabitada. Deixou o Porto Inglês tinha ela 13 anos. Fixou residência na ilha de Santiago. Completou a então 4.ª classe em Assomada.
Aos 19 anos, faz as malas para Bissau e nunca mais saiu. Nem mesmo para Cabo Verde, excepção feita a um dos períodos críticos - talvez em 1999 - que foi forçada a deixar Bissau, rumando a Lisboa, fazendo uma escala técnica na Praia e no Sal. Fez uma viagem numa embarcação de guerra, foram três dias a enfrentar o mar.
"Tenho saudades de Cabo Verde mas estou bem aqui"
Quando é que a senhora chega a Guiné-Bissau?
Já nem me lembro da data. Acho que tinha uns 19 anos. Recordo que os barcos não atracavam nem na ponte da praia nem em Bissau. Eu desembarquei aqui, e vim cozinhar para os trabalhadores que vieram construir o porto de Pidjiguiti. Desembarquei por volta das nove horas da noite.
Como era Bissau, naquela altura?
Agradável, e pessoalmente gostei. Mal pisei esta terra comecei a trabalhar e no dia seguinte já estava a cozinhar para os trabalhadores que construíam o porto.
O que levou a D. Berta a deixar Cabo Verde para aventurar na Guiné-Bissau?
Eu tinha uma irmã, casada com um senhor português: vieram para Bissau, a minha irmã engravidou-se e vim ajudá-la, durante o parto. Acabei por gostar e ficar por aqui.
Estava para ir para Angola, mas surgiu esta hipótese de vir para Bissau e cá estou.
Nunca pensou em regressar?
Não. Com a independência, muitos deixaram o país e foram-se embora para as suas terras, eu não, fiquei aqui e continuo. Faço de tudo para que a minha vida corra da melhor forma.
Nunca senti necessidade de voltar. Com as movimentações em torno da independência, sentei-me no chão, a ralar mandioca para fazer pastéis para dar aos cooperantes. Depois da independência, esta terra não tinha nada.
Veio a conhecer o seu marido aqui.
Sim, apesar de ele ter estado em S. Vicente, a cumprir serviço militar foi aqui que nos conhecemos. Faleceu há 15 anos.
Tem filhos?
(lágrimas) Não, nunca.
Tenho saudades. Não tive filhos, mas ganhei muitos aqui nesta terra e em Portugal. Agora que estive doente em Portugal, recebi muita amizade de filhos que ganhei nesta vida.
Por aqui todos falam da D. Berta com um carinho especial. O que fez para conquistar esta amizade?
Sempre fui uma pessoa amiga e simpática. Acolhia a todos com simpatia e simplicidade. No dia que o primeiro governo da Guiné-Bissau tomou posse, vesti de branco e estive na varanda entre várias pessoas. Havia pessoas que se escondiam, com medo, mas eu não, não escondi. Nunca encontrei indiferença nesta terra.
As pessoas escondiam porquê?
Tinham medo.
Mas aqui há guerras constantes, nunca teve medo de viver cá?
Não, nunca. Mas também nunca mexeram comigo. Nesta casa agasalhei muita gente e pessoas de todas as raças. Desde cabo-verdianos, portugueses e americanos. Muita gente mesmo.
Acredita que a paz pode ser uma realidade nesta terra?
Vai haver paz. As pessoas têm saudade de paz. Deus vai ajudar este povo.
O que faz hoje?
Já não faço muita coisa, mas tenho este negócio aqui (restaurante e residencial) e tenho a firme esperança de passar melhores dias na Guiné-Bissau.
E vai continuar aqui?
Sim.
Quer voltar a Cabo Verde?
Sim, quero. Tenho saudades de Cabo Verde, mas estou bem aqui.
Expresso das Ilhas
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