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Ambiente: Ecoturismo pode salvar tartarugas e desenvolver Cabo Verde
O problema da apanha de tartarugas nas praias de Cabo Verde é recorrente, apesar das inúmeras campanhas de sensibilização. Uma aposta no Ecoturismo poderia salvar esses animais em vias de extinção, e promover o desenvolvimento de Cabo Verde. É este o propósito do Projecto Natura, sedeado na ilha da Boa Vista.
A biodiversidade de Cabo Verde inclui muitas espécies endémicas de plantas, aves, insectos e diversas espécies marinhas. De entre elas, as tartarugas são das mais proeminentes. As praias são importantes áreas de nidificação e alimentação destes animais, fazendo com que o país tenha a 3ª colónia mais importante de tartarugas a nível mundial, depois dos Estados Unidos e Omán (sudoeste da Ásia).
Das sete espécies actualmente existentes, cinco estão presentes em Cabo Verde: a tartaruga de couro, pouco observada no arquipélago; a tartaruga verde e a tartaruga de casco levantado, que são apenas encontradas no seu estado juvenil, alimentando-se junto à costa; a tartaruga olivácea, que é geralmente encontrada com lesões ou morta nas redes de pesca ou nas praias; e a tartaruga comum ou vermelha (Caretta caretta), a única que nidifica em Cabo Verde com freqüência, sendo a mais abundante.
A população de Caretta caretta de Cabo Verde é a segunda mais importante no oceano Atlântico. Anualmente, cerca de 4000 tartarugas da espécie Caretta caretta procuram as praias de Cabo Verde para depositarem os seus ovos. No entanto, 90% dos ninhos são depositados na ilha da Boavista, com 12 a 21 mil ninhos cada ano. Em 2º lugar estão as ilhas do Sal, São Nicolau e Maio, com 300 a 1 000 ninhos por ano em cada uma.
Protegida, mas ameaçada
Apesar da Caretta caretta estar protegida por diversas leis e convenções internacionais, enfrenta diversas ameaças, encontrando-se em grave perigo de extinção. Em Cabo Verde, as principais ameaças naturais são a predação de ninhos pelos caranguejos; a inundação de ninhos pelas marés; gatos e corvos, para as tartaruguinhas; e tubarões, para as adultas. No entanto, a tradição de consumir carne de tartaruga, apesar de ilegal, é a principal ameaça das tartarugas em Cabo Verde. Para Samir Martins, biólogo da ONG Natura 2000, trata-se de uma "actividade que a população local vem praticando desde a povoação destas ilhas, e o consumo da carne de tartaruga faz parte da tradição".
Apesar disso, Martins admite que a apanha tem diminuído, e defende a aposta na "sensibilização e educação ambiental", salientando no entanto que "o sucesso na recuperação e conservação dessas espécies depende de todos, uns evitando a caça ilegal, outros preservando o habitat onde se alimentam e se reproduzem". O Governo de Cabo Verde foi pioneiro na aprovação de um Plano Nacional de Conservação de Tartarugas Marinhas em 2008, na África ocidental, pelo que a apanha das tartarugas constitui um acto criminoso, penalizado com multas e até com a prisão dos apanhados em flagrante. Neste sentido, "se há 10 anos, as tartarugas eram vendidas nas ruas, hoje as novas gerações estão a mudar de mentalidade", reitera Martins.
Mais valiosa viva do que morta
Através de estudos genéticos, concluiu-se que a tartaruga caretta de Cabo Verde é diferente de outras populações desta espécie do Atlântico e do mar Mediterrâneo. Neste contexto, Samir Martins defende que "a proteção deste património único, é de grande importância", pois pode contribuir para o desenvolvimento de um turismo diferente no arquipélago, sobretudo na ilha da Boa Vista.
Assim, Martins salienta o papel das tartarugas no desenvolvimento turístico da ilha, afirmando que: "são consideradas "espécies bandeiras", animais bastante carismáticos. Muitas pessoas, principalmente turistas, deslocam-se a Cabo Verde para ver as tartarugas a desovar". Portanto, "com a vinda dos turistas, muitas pessoas sairiam a ganhar: os operadores turísticos, funcionários dos hotéis, empresas de aluguer de carros, centros de comércio, lojas de suvenires, entre outros". Neste sentido, Martins defende uma aposta forte no ecoturismo, pois "se for só pelo sol e mar, os turistas vão a sítios mais próximos, e que custam muito menos. De forma directa, ou através de programas apoiados por projectos como o Natura 2000, o facto é que as tartarugas marinhas tornaram-se num importante recurso para o ecoturismo, beneficiando as economias das comunidades locais".
Martins apresenta dois exemplos. "Antes dos projectos de conservação e ecoturismo, tanto Mazunte, no México, como a Praia do Forte, no Brasil eram isoladas geograficamente e dependiam da caça de tartarugas marinhas e da cultura de uma ou duas colheitas. Hoje em dia, em Mazunte, o ecoturismo atrai mais de 50 mil visitantes todos os anos. Boavista e Cabo Verde têm a oportunidade de olhar para estes exemplos e apostar neste tipo de desenvolvimento sustentável", conclui.
Turismo na Boa Vista ameaça tartarugas
Em Cabo Verde, 90% da nidificação está concentrada na ilha da Boa Vista, facto explicado pelas "excelentes praias de nidificação, localizadas muito longe das populações". No entanto, o desenvolvimento turístico costeiro tem aumentado o nível de ameaça para os animais, na medida em que o acesso às praias tem-se tornado cada vez mais fácil. De acordo com Martins, a praia onde ultimamente se tem apanhado mais tartarugas é a de Lacação. "Está a ser construído um grande hotel na zona, e muitos trabalhadores aproveitam para apanhar tartarugas durante a noite", explica.
Assim, Samir Martins reitera que "uma má gestão no planeamento costeiro na ilha pode ter consequências irreversíveis. Se o turismo não for bem gerido, as tartarugas não terão praias para nidificarem. Irão sentir-se perturbadas durante a saída para a praia, pois as luzes desorientam-nas. Manter virgens as principais praias de nidificação das tartarugas de Cabo Verde é fundamental para a manutenção deste valioso recurso natural".
Caretta caretta 
A tartaruga caretta caracteriza-se por possuir cinco pares de escudos costais na sua carapaça, e pela sua cabeça grande em relação ao corpo, sendo também conhecida como tartaruga cabeçuda. Alimenta-se de peixes, moluscos, crustáceos e outros invertebrados. Em média vive 80 anos, e tem um tamanho médio de 80 cm. São necessários entre 10 a 30 anos para que as fêmeas possam realizar o seu primeiro ciclo reprodutor. As tartarugas marinhas realizam migrações ao longo dos oceanos.
Quando chegam à idade adulta, voltam ao local onde nasceram para fazerem os seus ninhos. O período de desova decorre de finais de Maio a meados de Outubro, com um pico máximo no mês de Agosto. A cada 2 ou 3 anos, saem de 2 em duas semanas para fazer um ninho, podendo chegar a fazer até 7 ninhos numa mesma temporada. Cada ninho tem em média 80 ovos, cujo tempo de incubação é aproximadamente de 2 meses. Após esse tempo, saem dos ninhos, em direcção do mar. Atingem a maturidade por volta dos 15 a 20 anos, mas a taxa de mortalidade é elevadíssima. Apenas uma em cada 1000 chega à idade adulta.
Projecto Natura
A ONG Cabo Verde Natura 2000 surgiu em 1998, com o objectivo de desenvolver projectos e iniciativas para a proteção do ambiente e o desenvolvimento social de Cabo Verde. É financiada pela União Europeia, Governos das Canárias e de Cabo Verde, fundações espanholas e americanas. Apesar da ênfase na Boa Vista, actua em todas as ilhas do arquipélago, incluindo Santa Luzia. Tem postos de vigia em cerca de 20 km de praias, protegendo 80% de nidificação em toda a Boavista.
Entre os meses de Junho e Outubro, mais de 100 voluntários, cabo-verdianos e estrangeiros, passam três semanas nos acampamentos nas praias de Ervatão e Porto Ferreira. Para além da vigilância das praias, recolhem dados científicos, marcando fêmeas e ninhos. O projecto tem realizado acções nas áreas de saneamento, recursos hídricos, educação e agropecuária na Boa Vista. Projectos para o futuro incluem: criação da Estação Biológica de Ervatão; gestão adequada e das áreas protegidas em Cabo Verde; aumento das zonas de estudo; reintrodução das tartarugas noutras ilhas de Cabo Verde; e consolidação da cooperação internacional no âmbito da conservação da biodiversidade.
Fotos cedidas por ONG Natura
Ilda Fortes, Redacção Praia
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