A contemporaneidade não passa de uma burka - Mito / Cultura / Detalhe de Notícia
A contemporaneidade não passa de uma burka - Mito
Mito esteve mais uma vez na Praia. Desta feita para participar no lançamento do livro "Li Cores e Ad Vinhos" do poeta Filinto Elísio, em que surge como ilustrador. Na nossa conversa, o artista lança um olhar crítico sobre a arte que se pratica entre nós. Em relação à polémica recentemente lançada sobre a problemática da contemporaneidade dos artistas plásticos cabo-verdianos, diz laconicamente: "esses chavões são apenas burkas".
Foi lançado recentemente na Praia o livro " Li Cores e Ad Vinhos". Como é que surges como ilustrador da obra?
Mito - Foi um produto do acaso. Inicialmente era para cuidar da capa apenas, mas o editor do livro não conseguia decidir nada face às minhas propostas de capa, e o poeta Filinto Elísio insistia na minha presença no livro. Foi aí que surgiu os desenhos à linha que enviei por um mero acaso numa das propostas de capa, depois veio essa torrente em forma de dueto. Os desenhos são talvez, a face hieroglífica dessa maturação poética. Cada imagem está irmanadamente adequada à beleza de cada poema. Eu e o poeta Filinto Elísio trabalhamos em parceria, com bons resultados há 20 e tal anos.
Como está a vida artística em Cabo Verde?
Apesar de algumas melhorias, acho um pouco confusa e negligenciada. A pseudo stardom que nos grassa a todos e nos tolda o espírito, não nos deixa enxergar os gestos mais simples. Infelizmente não seremos reconhecidos pelas nossas humildes capacidades. Gostei muito da exposição MOSF, sobretudo das fotos do Hélder Paz.
O que significa para Cabo Verde o prémio Camões atribuído recentemente a Arménio Viera?
Sinto-me bafejado pela sorte de estar presente na Praia quando o prémio foi anunciado. Acho justo e merecido pela coesão e solidez da sua obra, embora escassa. Contudo ficou provado de que os outsiders também chegam lá.
Um crítico de arte que muito aprecio disse há não muito tempo que aos artistas plásticos cabo-verdianos falta a contemporaneidade. O que há nesta afirmação?
Esses chavões são apenas burkas.
É o que dizia Joseph Beuys - todo o homem pode ser artista.
Todo o homem pode ser um artista e também todo o homem pode ser um pedreiro. Só que ele tem que laborar, tem que suar e sujar as mãos...
Qual é o critério para se diferenciar um bom de um mau artista?
Os mesmos critérios de outras tantas profissões : técnica, fluídez, firmeza, destreza, inteligência, humildade e honestidade. Acho que esses são os principais ingredientes.
Arménio Vieira afirmou recentemente que se ele tivesse viajado mais teria sido eventualmente um melhor poeta. Esta asserção é válida para os nossos artistas plásticos?
Eventualmente, dependendo da experiência individual de cada artista. Já tive o privilégio de viajar e contactar directamente com muitas grandes referências, isso deu-me outra dimensão, para além das enciclopédicas e especulativas. Tenho uma velha máquina que já captou e testemunhou muita coisa : o selo vapor que Hundertwasser desenhou para os CTT de Cabo Verde, Zawinul a falar de Mr. Gone no café Landtman em Viena, uma pedra do vulcão do Fogo na National Museum em Londres, um dos cartões telefónicos da CV Telecom, desenhados por mim, à venda na Rambla em Barcelona. A primeira vez que vi um esquilo, foi na campa de Kafka em Praga. Achei trancendental esse sinal. Quem viaja percebe a sua dimensão no espaço e no tempo.
Mick Jagger disse numa entrevista há 15 anos que o rock'n'roll, o blues e outros géneros musicais são autolimitativos. Acontece o mesmo com a linguagem da pintura e terá esta arte os dias contados?
Não me consta que a pintura tenha os dias contados. Mesmo com o suporte digital e com a cultura da coisa ser remetida cada vez mais para o lado efémero, não creio que a pintura esteja a viver os seus últimos dias. As gravuras de Altamira continuam a ser o que de mais moderno existe.
Eu queria dizer que o pintor é limitado pela linguagem da pintura. O quadro Mona Lisa limita-se essencialmente ao sorriso enigmático da retratada.
Essa do sorriso enigmático é um lugar comum. A garota de Ipanema do Jobim faz-me lembrar a Mona Lisa, por causa do número sempre crescente de reintrepretações.
Defines-te como artista multiforma e multimédia. Podias explicar melhor?
Utilizo várias frentes para exercer a coisa artística, a performática inclusivé. Reformatei a flor-de-lis na boca do lixo em jeito remix, e resultou num slam poético à beira do farol, ao som de uma ensemble de 20 búzios. Estou concluindo uma animação que se chama le chien sampadju: Um cão de água parecido com o puppy do presidente Obama, sofre uma perseguição sem tréguas pelo director do canil municipal, por ter mordido ferozmente a bunda de 5 alupecadores incautos. Mas a mais pós moderna de todas chama-se: kanto arvi sta li - 2 equipas de futebol de ábaco na mão, correm pelo Palmarejo adentro contando as àrvores que por ali existem. Para ser um artista contemporâneo só me falta uma betoneira.
Onde gostarias de viver?
No ilhéu de Santa Maria.
António Monteiro, Redacção Praia
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