“CABO VERDE TEM, NESTE MOMENTO, MAIS ARTISTAS DO QUE OBRAS DE ARTE” - MITO, ARTISTA MULTIMÉDIA / Cultura / Detalhe de Notícia
“CABO VERDE TEM, NESTE MOMENTO, MAIS ARTISTAS DO QUE OBRAS DE ARTE” - MITO, ARTISTA MULTIMÉDIA
O artista multimédia, Mito, participou recentemente no Encontro Transatlântico de Artes que decorreu em Porto Madeira, concelho de Santa Cruz. Durante a sua estada entre nós, encontrou ainda tempo para realizar, na Praia, a sua primeira exposição de raiz, intitulada, "Nu Bai". Sobre esses dois eventos, centrou-se essencialmente a nossa conversa, sem excluir outros temas que desde sempre vêm merecendo a atenção do artista praiense, residindo actualmente em Portugal: a difícil relação entre os artistas; o "o djanovismo" cultural; a desumanização da arte à escala mundial e o estado actual da produção artística nacional, sintetizada, nestes termos: " temos mais artistas do que obras de arte".
Mito, estás outra vez na Praia. Não se pode dizer que foram apenas férias, porque participantes nos encontros de Porto Madeira, no concelho de Santa Cruz, e ainda encontraste tempo para realizar, na Praia, a tua primeira exposição individual de raiz. Podias falar-nos primeiro dos encontros de Porto Madeira?
Mito - Participei no encontro transatlântico de artes que decorreu em Porto Madeira, reunindo mais de 15 artistas, de várias latitudes. Apresentei duas intervenções plásticas e vou fazer uma terceira, antes de viajar para Portugal. Não sei quais as razoes, mas o evento foi pouco divulgado. Talvez se Porto Madeira estivesse situado noutra latitude do arquipélago, teria granjeado mais simpatia das pessoas e mais atenção da comunicação social, porque Porto Madeira veio-nos salvar desse daltonismo de betão crescente em que nós vivemos.
Podias apresentar o encontro de Porto Madeira para os que não puderam deslocar-se a essa maravilhosa aldeia?
Mito - As intervenções dos artistas reunidos, durante todo o mês de Agosto, foram de natureza vária. O Carlitos de Madagáscar fez uma árvore com metais velhos, o Omar Camará, do Senegal, fez uma escultura com sapatos velhos e o Pascal da Costa do Marfim apresentou uma escultura com garrafas e eu pintei duas paredes. A ideia foi preparar a aldeia para acolher o turismo rural no futuro.
Passemos agora à tua exposição individual, na Praia, intitulada: " Nu Bai". Porquê o título?
Mito - Pela primeira vez na minha vida produzi inteiramente em Cabo Verde uma exposição de raiz, made in CV.
"Nu Bai", uma exposição dedicada aos hiaces
O BCA, em Cha-de-Areia, lançou-me o desafio e eu concordei. Durante 15 dias produzi esta exposição, constituída por 8 quadros, que chamei de NU BAI. " Nu Bai" é uma exposição dedicada aos hiaces e aos hiacistas, já que os hiaces têm dominado o " bai ku bem" das nossas ilhas.
Consideras-te também um hiacista?
Mito - Sem dúvida. Sobretudo agora, quando estive em Porto Madeira, viajei de Hiace muitas vezes. Esta temática de hiaces já a tinha em carteira há muito tempo, mas só agora pude concretizá-la em forma de exposição, por razões óbvias. Queria agradecer o carinho das pessoas que viajaram no meu hiace da criação: Helena França, Misá, Filinto Elísio, José Maria Barreto, Heleno Barbosa, Hélder, e a minha família. Sem estas pessoas a exposição não seria materializada.
Como criador multimédia, estranha-se que os teus trabalhos nunca tenham sido mostrados na televisão nacional. Porquê?
Mito - Boa pergunta. Em Dezembro de 2004 tive um encontro com a então directora da televisão. Deixei lá ficar alguns filmes meus que eram para ser passados e que nunca aconteceu. Há pouco tempo, vi um dos os meus filmes piratiados neste endereço do YouTube. http://www.youtube.com/watch?v=mOp1yS2NFo4
Falando de filmes. Há pouco tempo foi exibido, em pré-estreia, aqui na Praia, uma produção espanhola intitulada " Kuntinuasom". Como te agradou?
Mito - Gostei da fotografia e da óptica muito moderna do filme e do seu grande dinamismo. O casting do filme é que me pareceu algo viciado.
Duques e cartas viciadas
O casting do filme vem, mais uma vez, mostrar que na nossa Arca de Noé só são permitidos alguns bicharocos. Durante o filme, interroguei-me algumas vezes, se não estaria a ver uma versão fabulada do espectáculo de 5 de Julho de 2005. Quem anda a coordenar este tipo de casting, ou quem é que anda a influenciar as pessoas que vêem para aqui fazer coisas culturais, que são feitas secreta e conspirativamente; a mai oria dos artistas não se dá conta e parece coutada de um determinado grupo. Não haverá um certo Jdanovismo de quintal nesta parada. (?)
Consultando a tua biografia dá-se conta que já fizeste exposições até na longínqua China. A lista é enorme, mas o Centro Cultural Português da Praia não faz parte do teu percurso artístico, embora vivas em Portugal. Nunca houve um convite?
Mito - Em 1984, quando era Adido Cultural, o sr. Pedro Moutinho, participei numa colectiva com o José Brazão e o Luís Garção. - O mesmo grupo que expôs no coreto da praça.
Um artista "descomplexadamente" crioulo
Sempre tiveram um porte soslaio com os meus projectos, mas eu tenho uma teoria para isso: como todos os meus projectos têm uma veia descomplexadamente em crioulo, será certamente por aí que se deve procurar as razões.
A arte reflecte a sociedade, daí que qualquer artista que se preze não pode andar de costas viradas para o que acontece. Como é que classificas a nossa sociedade praiense?
Mito - A nossa sociedade mudou muito em pouco tempo. Actualmente vivemos numa urbanidade feroz, tornamo-nos amnésicos, dispersos, dissecando diariamente a anatomia do caço-body. Lamentavelmente estamos imbuídos numa dispersão. Há um certo autismo em cada um: parece que cada um de nós anda a fazer lopping na nossa rotunda. Não há uma confluência, um desembocar colectivo. Estou a falar sobretudo de nós os artistas; não existe uma união entre os artistas.
Estamos a dar os primeiros passos no combate à poluição ambiental. Quanto à poluição sonora, qual é o estado do nosso país?
Mito - A poluição sonora é uma matéria terrível em Cabo Verde. Num único espaço há às vezes para aí 5 ou mais fontes sonoras diferentes: da televisão, do rádio, do barulho das máquinas de café, dos carros, etc. Aliás, actualmente, a coisa que mais me impressionou é um carro que anda por aí com altifalante na carroçaria a fazer publicidade de uma discoteca. Os decibéis que utilizam estão acima de qualquer média da suportabilidade humana.
Vivendo numa sociedade que se torna cada vez mais individualista e brutal, a arte não corre o risco de se desumanizar, ou já está mesmo desumanizada?
Mito - Há quem diga que a arte é o grande barómetro da sociedade que habitamos. Há, de facto, alguma arte hitech e desumanizada. Mas há uma outra arte que vai ao encontro do estado mais puro das coisas, portanto ao estado mais simples do gesto humano. - Back to basics. Por isso é que há artistas que se preocupam em fazer música puramente acústica...ou pintores que fazem os seus pigmentos, ...
Daí talvez o segredo do sucesso à escala mundial da Cesária Évora. Numa cena musical extremamente sofisticada ela propõe o regresso às fontes...
Mito - O sucesso da Cesária veio desmontar alguns atavismos, que ainda nos assolam. É um grande orgulho para mim, o sucesso dela para além do mais gosto muito da música dela.
Constatas um crescendo na produção artística cabo-verdiana?
Mito - Sem dúvida que há um crescendo sobre a produção artística, mas há uma grande desinformação. Creio eu que, neste momento, aqui em Cabo Verde, temos mais artistas do que propriamente obras de arte.
Mais união entre artistas
O entendimento das coisas que nós temos, está intimamente ligada à quantidade de informação que possuímos e de como as canalizamos de forma criativa. Acho que devia haver mais união entre nós todos, para debatermos esta matéria e, inclusivamente encontramos formas de espraiar estas lacunas que persistem nesse domínio. Apesar da Internet e das facilidades de comunicação que existem, hoje em dia, as informações são mal processadas, a ponto de termos documentários sobre música que se confundem com teleculinária ou blogocratas que se julgam os faróis da nossa cegueira.
Mito, estás outra vez de férias aqui na Praia, onde nasceste? Como tens sido acolhido?
Mito - Muito carinhosamente. Aliás, a minha estadia em Cabo Verde, é sempre um exercício de afectos. Não é apenas muito salutar como ser humano, mas também é muito bom para o meu trabalho, porque o meu trabalho é feito de afectos. Apesar da nossa conversa transpirar algum pessimismo, confesso estar sereno e de bem com a vida. Não se pode ficar indiferente à cama de pregos, quando não se é faquir.
Pode-se dizer que hoje em Cabo Verde ser é ter?
Mito - Há esse conflito, e ele é visível. Em todo lado, creio que existe essa glorificação material, que aqui parece ressaltar mais à vista porque o nosso palco é mais pequeno.
António Monteiro, Redacção Praia
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