“A evacuação é um método muito burocrático” - Hélder Tavares, Nefrologista / Exclusivo / Detalhe de Notícia


20-3-2010

“A evacuação é um método muito burocrático” - Hélder Tavares, Nefrologista

Nefrologia é a especialidade médica que trata as doenças renais, numa perspectiva clínica. Cabo Verde tem um problema de falta de especialistas. No arquipélago existem apenas dois nefrologistas, um em São Vicente e outro na Praia. Depois de vários anos sem acesso a hemodiálise, o país tem agora as suas duas primeiras máquinas. Hélder Tavares é médico nefrologista no HAN e respondeu às perguntas do Expresso das Ilhas.

Quantos médicos desta área é que temos em Cabo Verde?
Temos dois médicos. Eu, na Praia e outra médica em São Vicente.

Quantos doentes é que recebe diariamente?
Eu faço consultas de especialidade, aqui no hospital. Faço um a dois dias de consultas por semana. Atendo uma média de dez doentes, mas esse número é, muitas vezes, ultrapassado. Chego a ver quinze pacientes.
 
Tem ideia de quantos pacientes é que, anualmente, procuram os serviços de Nefrologia do Hospital Agostinho Neto?
Não tenho esses números, mas, o ano passado terei feito cerca de 600 a 700 consultas, aqui no hospital.

Não é muito, para uma único médico?
[risos] Pode ser que seja, sim, mas é a minha área. São várias doenças e não apenas a insuficiência renal. Estamos a falar de malformações, hipertensão, infecções urinais, pedra nos rins.

É o único médico na Praia. Caso esteja impossibilitado de prestar serviço, como é que os doentes são atendidos?
Se for uma situação de emergência, os pacientes são recebidos por um internista e, no caso de ser necessária uma avaliação complementar, estou sempre disponível.

Sabemos, então, que o hospital da Praia e o de São Vicente têm agora aparelhos de hemodiálise. Contudo, continuamos a ter doentes evacuados em Portugal. Quer isso dizer que esses aparelhos não são suficientes?
O que o hospital fez foi adquirir dois aparelhos de hemodiálise, para atender a situações agudas. Ou seja, doentes que têm insuficiência renal aguda, que é uma situação de doença, por um curto período de tempo. Nesse tempo, se houver necessidade de diálise, já temos esse tratamento.
Para o caso de insuficiência renal crónica, os doentes continuam a ser evacuados, porque é uma situação que necessita da diálise para o resto da vida. Esses doentes, habitualmente, são tratados num centro de diálise, que nós ainda não temos.

Pergunto-lhe, então, quais são os desafios que se seguem?
Desde logo, prosseguir com o projecto de construção do centro de diálise, que já está em andamento. Por outro lado, apostar na formação dos recursos humanos, porque ainda são insuficientes, nomeadamente, para quando o centro começar a funcionar. Finalmente, garantir o funcionamento e manutenção dos equipamentos já existentes.

Estas são máquinas frágeis. Como é que vai ser feita a manutenção dos equipamentos?
As máquinas não são tão frágeis assim. São seguras. Foram calibradas por técnicos especializados e a empresa que as vendeu facultou formação a dois técnicos nossos, habilitando-os para assegurar a manutenção das máquinas e para resolver qualquer avaria que exista.

Mas fonte da Direcção Geral de Saúde disse ao Expresso das Ilhas que um dos problemas de Cabo Verde prende-se, precisamente, com a incapacidade de garanti manutenção dos equipamentos hospitalares existentes...
Por isso, é que para este processo, uma das condições foi ter recursos humanos qualificados. Não são apenas médicos e enfermeiros, mas também técnicos. O projecto começou a ser desenhado há três, quatro anos e foram previstas todas as condições, inclusive técnicas.

Alguns enfermeiros estiveram a receber formação em Portugal. Como é que foi organizada essa formação?
A formação prolongou-se por três meses e foi, essencialmente, na área da diálise.

Quantos anos dura uma formação especializada em Nefrologia?
No Brasil, a formação demora quatro anos, noutros países pode demorar cinco anos, dependendo da carga horária. Mas, para este centro, o que precisamos não é de um médico nefrologista. Podem ser internistas, com formação, de três meses, em diálise. Porque um nefrologista não se limita, apenas, a fazer diálises. Tem uma área de actuação maior.

Então, porque é que não se investe em mais um médico especialista?
Como referi, existe um plano de formação e todos esses aspectos foram contemplados.
Numa entrevista anterior, referiu casos de pessoas que acabaram por morrer, enquanto esperavam ser evacuados...
Porque a doença é insidiosa e não há tempo para se fazer todo o processo.

Como é que se processa a evacuação dos doentes?
A evacuação é envolve processos muito burocráticos, que existem há mais de 50 anos. Em primeiro lugar, o doente é encaminhado para um hospital central, aqui em Cabo Verde. Um especialista avalia o paciente e, se preencher os critérios, apresenta-o a uma Junta Médica. É despachado pela Junta e o processo segue para o Ministério da Saúde, cumprindo uma série de etapas, até o processo chegar a Portugal. Daí espera-se que a Direcção-geral de Saúde de Portugal marque uma consulta e o utente é chamado.
É um processo que se repete para todos os doentes evacuados e não apenas os insuficientes renais.

Porquê tanta burocracia?
Isso não lhe sei responder, porque deve ser visto ao nível do Ministério.

Se a burocracia fosse menor, mais vidas poderiam ser salvas?
Não depende de mim e não posso comentar isso. A burocracia é necessária, visto tratar-se de um processo institucional.

Neste momento, quantos doentes tem à espera de evacuação?
Cerca de três a quatro.


Susana Rendall Rocha

20-3-2010, 20:11:24
Expresso das Ilhas


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Comentários


Gostaria de me por em contato com Dr. Helder, pois o mesmo terminou sua especialização em Nefrologia no ano em que começei a minha. Agora já se passaram 05 anos que terminei a minha. No momento trabalho como nefrologhista em angola.
Gostaria do contato do Dr. Helder de Cabo Verde. sou meduico nefrologista brasileiro e trabalho em Luanda. Obrigado


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