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Manecas Santos ao Expresso das Ilhas: “Eu não fujo!”

Acusado de um crime que nem entende muito bem qual é, Manecas Santos falou com o Expresso das Ilhas esta terça-feira à noite. Sair da Guiné-Bissau não está nos seus planos, garante.

“Estou internado numa clínica. Não estou preso, como estão a dizer, e como apareceu em algumas publicações. Nem há razões para isso”, contou Manecas Santos ao Expresso das Ilhas, ontem, ao final do dia.

O comandante histórico do PAIGC está sob pressão do Ministério Público da Guiné-Bissau desde que deu uma entrevista ao Diário de Notícias, de Portugal, alertando para a possibilidade de o país estar na iminência de um golpe de Estado.

“No final de Abril dei uma entrevista ao Diário de Notícias, onde emiti uma opinião como analista”, explica ao Expresso das Ilhas, “onde dizia que a condição vigente na Guiné-Bissau poderia levar a Guiné a estar na iminência de um golpe de Estado. As autoridades fizeram disso um bicho-de-sete-cabeças, quando é uma simples opinião emitida numa entrevista”.

Na entrevista, publicada a 11 de Maio, o antigo guerrilheiro e actualmente membro do bureau político do PAIGC, quando questionado sobre como descreveria a actual situação política na Guiné-Bissau, respondeu: “o presidente [José Mário Vaz, conhecido como Jomav] utiliza a Constituição a seu bel-prazer. Quando demite o Domingos Simões Pereira - o melhor primeiro-ministro que a Guiné-Bissau já teve -, a única razão que encontrou foi incompatibilidade. Ora, o primeiro-ministro não tem de ser amigo do presidente. Isto não é um regime presidencialista. Depois vem com acusações de corrupção, tudo mentira. Aliás, o Domingos pediu uma comissão de inquérito, que trabalhou, já tem os resultados. Este presidente resolveu assenhorear-se do país. Quer ser primeiro-ministro e não presidente. Quer governar. Donde os problemas que teve com os dois governos do PAIGC. Nenhum aceitou isso”.

No seguimento da conversa com a jornalista Alexandra Lucas Coelho, e perante a possibilidade de haver eleições somente em 2018, cumprindo-se a Constituição, Manecas Santos diz: “Penso que antes disso há um golpe de estado [pausa]. Esta situação está-se a tornar insustentável para a maioria”. E continua: “Para dizer a verdade, não acredito que haja um golpe para os militares tomarem o poder. Estamos na iminência de haver um golpe de estado, e eventualmente violento, para tirar o presidente, o primeiro-ministro, e provocar eleições rapidamente. Não creio que os militares façam um golpe para se apoderarem do poder”.

Manecas Santos chega a fazer uma analogia com a Revolução dos Cravos: “Um pouco como o 25 de Abril [ri]. O 25 de Abril foi um golpe de estado mas foi um golpe de estado bom. Serviu a sociedade portuguesa”.

E quando questionado se o actual Presidente da República tem noção dessa possibilidade, responde: “Deve ter, mas está perfeitamente obcecado pelo poder. Pelo poder e pelo dinheiro, que para ele é complemento essencial do poder. O tipo está a meter a Guiné-Bissau no bolso. Antes de ele ser eleito, eu já tinha dito aos camaradas do partido: esse tipo vai nos criar grandes dores de cabeça. Ele é um traidor. Claro que o presidente sabe disso e não me pode ver nem com molho de tomate”.

Foram estas as palavras polémicas que levaram à intervenção da Procuradoria-Geral da República, apesar de ainda não ter recebido qualquer acusação formal, como contou ao Expresso das Ilhas. “Chamaram-me para depor há coisa de duas semanas, fui lá, à procuradoria, não aconteceu nada, saí em liberdade, sem nenhuma acusação, nem medidas de coacção. E depois, subitamente, recebo uma convocatória da procuradoria para ir depor já como suspeito de um alegado crime de simulação, que até agora não entendi o que é isso”.

Questionado se considera a acusação ridícula, diz rapidamente: “Obviamente. Não cometi nenhum crime, limitei-me a emitir uma opinião a partir da análise do que está a acontecer no país. Em princípio, isto é uma democracia onde devia ser possível emitir opiniões e acho que não tenho de me coibir de emitir a minha opinião”.

Fora das opções está um possível regresso a Cabo Verde, como garantiu ao Expresso das Ilhas. “Não! Eu não fujo!”.

Na análise ao que está a acontecer, Manecas Santos considera que “A única interpretação possível é que há gente interessada em humilhar-me, ou provocar o partido. Não retiro as minhas opiniões, quaisquer que sejam as pressões que eu sofra”.

Até ontem à noite, Manecas Santos não tinha sido contactado pelas autoridades cabo-verdianas, nem pela Associação dos Combatentes da Liberdade da Pátria, nem pelo PAICV.

Combatente da Liberdade, Manuel dos Santos, o Comandante Manecas, está nos dois momentos que ficam para a história da guerra colonial: o assalto ao quartel de Guiledje e a introdução dos mísseis Strella no cenário da luta pela independência. No pós independência, acaba por ficar na Guiné-Bissau, onde chegou a ser Ministro das Finanças e embaixador em Angola. 

 

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 811 de 14 de Junho de 2017.

sábado, 17 junho 2017 06:00

1 comentário

  • Alberto Tavares 17-06-2017 Reportar

    Que eu saiba, o Comandante foi indigitado para duas embaixadas mas não recebeu as credenciais para o exercicio em nenhuma delas.

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