Expresso das Ilhas

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Daniel Rendall: um compositor que cantou Cabral

No seio de uma família modesta de alfaiates e de músicos, Daniel Alberto Rendall Moreira Monteiro, de nome completo, nasceu em 05 de Setembro de 1947, na Rua da República, na Praia, é filho de João Tavares Monteiro e de D. Clara Maria Rendall Monteiro, esta última natural da ilha de São Vicente e parente próximo do famoso executante de violão, Luís Rendall. Aliás, Daniel teve o privilégio de conhecer de perto o mestre de cordas cabo-verdiano, por volta de 1956, quando aquele, também natural da ilha do Porto Grande, era faroleiro na Boa Vista e costumava deslocar-se à Praia em tratamento médico, ficando hospedado em casa da prima Clara.

Nos períodos da infância e da adolescência, Daniel Rendall, de nome artístico, fez os estudos primários e a admissão aos liceus na sua cidade natal, na Escola do Nazareno, em cuja instituição de vocação religiosa haviam ingressado os seus progenitores por volta de 1947, precisamente no mesmo ano em que ele próprio nascia. Natural, também, da Praia e tocador de violão, o pai, por mera falta de recursos locais, desloca-se a São Vicente, entre 1935 e 1939, a fim de, ali, frequentar o 2º ano liceal e, na ilha do Monte de Cara, conhece a futura companheira e, mais tarde, mãe do Daniel, que, na altura, “cantava nos bares da cidade do Mindelo, acompanhada de violão e de outros instrumentos musicais”. Se bem que não pertencesse a uma família abastada, o seu avô paterno era, no entanto, “um alfaiate de referência na ilha de Santiago, que trabalhava para o então Governador da Província e para os Chefes de Serviço, na Praia, mas também se deslocava com frequência a São Tomé e Príncipe com o intuito de confecionar roupas para os trabalhadores das roças”, entre 1920 e 1930, mais precisamente. Não terá, aliás, sido por mero acaso que o pai do Daniel nasce em alto-mar, a bordo de um navio, no percurso entre São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, numa das habituais viagens de regresso dos avós daquelas paragens equatoriais.

Concluídos os seus estudos primários sem, contudo, ter enfrentado grandes dificuldades, a não ser aquelas de índole económica ou material ditadas pela própria conjuntura altamente desfavorável da década de 40, Daniel Rendall ingressa no Liceu Adriano Moreira em 1961 e termina o então sexto ano, que o habilita a entrar no quadro administrativo com o estatuto profissional de aspirante interino, mediante requerimento dirigido ao então Governador da Província. Anos mais tarde, precisamente em Setembro de 1968, presta serviço militar obrigatório, sucessivamente, em Portugal e em Moçambique (1969), tendo regressado definitivamente a Cabo Verde, em 1971. Na altura, a legislação colonial permitia que o militar recrutado para o exército português, uma vez concluída a missão, regressasse ao seu serviço de origem, não perdendo, assim, o vínculo laboral inicial, razão por que Daniel optaria, sem quaisquer dificuldades, pelo regresso à Administração Civil donde partira.

No seio familiar, Rendall herda a veia musical, tanto do pai, que executava violão e cavaquinho, quanto da mãe, que, também, tocava viola e cantava mornas de Eugénio Tavares e de B. Léza. Em casa do avô paterno, os cinco irmãos alfaiates tocavam violino, violão e cavaquinho, respirava-se música pelos poros. Ainda de tenra idade, através do buraco da fechadura da porta que dava acesso à sala de visita, Daniel “espreitava a mãe a fixar os dedos e, ao mesmo tempo, observava o tempo de passagem musical de mudança de dedo no violão que Ivo Évora, irmão mais velho de Amílcar Cabral, professor na ilha de Santiago e construtor de instrumentos musicais, oferecera carinhosamente à mãe do menino.

Enquanto, tranquilamente, dedilhasse o violão em relação ao qual, de resto, nutria um carinho especial, a mãe interditara o filho o acesso à sala de visita. Diante de tais restrições, o Daniel viu-se obrigado a aprender a tocar às escondidas, sempre que a sua progenitora fosse às compras, repetindo, minuciosamente, na sua ausência, tudo o que observara. Num processo de socialização musical reprimido, diria eu, Rendall aprendeu a tocar violão de uma forma terrível e inédita, às escondidas, repetia aquelas mesmas coisas que, antes, tinha observado a minha mãe fazer no violão, mas, também, é verdade que aprendi todas as mornas que ela cantava”.

Por volta de 1956, aos nove anos de idade, Daniel aprende a executar alguns acordes musicais com as duas irmãs, mas, em especial, com a mais velha, a Verónica, que, na altura, era professora na escola dominical na Igreja do Nazareno, na Praia, e interpretava música litúrgica nessa instituição religiosa. Posteriormente, afora as noções de cântico e de piano que aprendera na Igreja Nazarena, Daniel Rendall adquire alguma formação musical ministrada pelo professor Jorge Monteiro, quando frequentava o 1º ano liceal, e passa a integrar um pequeno orfeão juntamente com outros colegas do Liceu, que “atuava nas festas no Palácio do Governador da Província, na Câmara Municipal da Praia e na Paróquia”, sob a batuta daquele famoso mestre musical, também já falecido.

Em 1964, já iniciado nas lides musicais e do cântico e depois de uma curtíssima experiência à frente de uma banda informal que ele próprio criara, Daniel, que cresce sob a influência de The Beatles e da música brasileira, italiana e francesa, passa a integrar o conjunto musical Micá, numa altura em qua não havia bandas daquele formato, na Praia. Criado entre 1963 e 1964, o referido grupo de estudantes ligado à Associação Académica da Praia animava bailes na Rádio Clube e atuava, igualmente, em atividades ligadas ao teatro musical. Desaparecido o Micá da cena musical praiense por volta de 1966, Rendall passa a integrar outra banda musical, essa sim efémera, chamada Vampiros, que animava saraus no Liceu Adriano Moreira.

Em 1981, por razões estritamente familiares, Daniel Rendall parte para a República da Guiné-Bissau e, ali, trabalha como Assessor do Ministro das Finanças para a área da administração e dos recursos humanos do então Governo de Nino Vieira, regressando à Praia em Novembro de 1985. Volvidos cerca de 15 (quinze) anos, mais precisamente em 09 de Dezembro de 2000, alegando motivos ponderosos de “férias para descanso”, resolve o compositor, desta feita, rumar para Portugal, onde permanece até 20 de Outubro de 2005, correndo atrás da música e da cultura.     

Em rigor, o gosto do Daniel pela arte de compor surge aos 18 (dezoito) anos de idade, numa altura em que também desperta no jovem e promissor compositor o gosto pela poesia, é particularmente influenciado por Euclides Burgo CorreiaTavares (Djodja), tio materno de Tonecas Marta e um dos maiores compositores santiaguenses, nascido na Praia em 1934 e falecido por volta de 1980. Autor da lindíssima morna Violón Tchorá, cuja divulgação foi proibida no tempo colonial, ou, ainda, da famosa coladeira Nha Bolanha, gravada magistralmente por Bana, Djodja terá, de facto, influenciado Daniel Rendall, do ponto de vista musical, particularmente no domínio do cântico. Às influências do Djodja,juntam-se as de Eugénio Tavares, de B. Léza, de Luís Rendall, ou, ainda, de Manuel Tavares Monteiro (Manelinho Bala), seu tio paterno nascido em São Tomé e Príncipe entre 1917 e 1919, considerado bom violinista e autor da lindíssima composição Entrada di Assomada, de entre cerca de uma vintena de mornas rimadas da sua autoria.

Autor de quase 250 (duzentas e cinquenta) composições recolhidas e compiladas, entre mornas, coladeiras, funanás, batuques, baladas e algumas litúrgicas, e privilegiando temáticas como “o amor de mãe, o amor à terra, o amor à beleza e o amor à infância ”, sobretudo no género da morna, Daniel Rendall fica imortalizado quando, em Outubro de 1974, na Escola da Variante, em S. Domingos, compôs a sua obra prima intitulada Cabral ca morri, gravada, sucessivamente, por Nhô Balta e Ildo Lobo. Numa conjuntura particularmente difícil em que vivia a então colónia, marcada pela presença de retornados cabo-verdianos procedentes de Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe e pela ausência de recursos, o compositor, confiante e esperançado no sonho de Cabral e movido pela “força espiritual de vencer todas as dificuldades”, quaisquer que elas fossem, lançou, através da música, o “grito de Cabral” de elevação patriótica, de mobilização de consciências e de vontades e de solidariedade.

A técnica de composição de Daniel Rendall, que privilegia o género tradicional da morna, não se afasta tanto das opções utilizadas por outros grandes compositores cabo-verdianos: “Como se diz na gíria de tocador de viola, corro o dedo na viola e se a melodia aparecer poderei arranjar um tema qualquer e fazer a letra em cima da melodia. Ou, então, o contrário: pode aparecer-me uma inspiração de letra e, depois, vir procurar a música. Mas, também, as duas coisas em simultâneo: letra e melodia”. Para lá das facetas de compositor lírico e de executante de violão, com conhecimentos rudimentares do piano, Rendall, que frequentou o orfeão da Igreja do Nazareno, a quatro vozes, tem educação de voz e é dono de uma voz potente e considerada boa e muito agradável, na linha, aliás, daquela de Mick Baptista, seu primo irmão: “A minha voz é, muitas vezes, agressiva e alta. A qualidade da voz do Mick, que tem vozeirão próximo da minha, conjuga-se mais com as vozes de Albertino Évora; do Caloira, um indivíduo do Fogo que vive no Canadá; do falecido Bilocas, pai do Albertino Évora e; ainda, do Sapo, irmão do Albertino. É um tipo de voz idêntica à dos galos, que é accionada a partir de uma força que vem dos gânglios especiais”.

Sempre combativo e com olhos postos no futuro, Daniel Rendall, pai de seis filhos, tem, agora, entre mãos, um projeto de edição de um livro de composições dele próprio, bem como a publicação uma antologia de obras musicais de autores nacionais, como valioso contributo ao enriquecimento do património musical e, em particular, à preservação da música tradicional cabo-verdiana, que tanto ama.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 835 de 29 de Novembro de 2017. 

quarta, 06 dezembro 2017 06:50

1 comentário

  • V.P 09-12-2017 Reportar

    Admiro este diplomata, escritor e grande cidadão que tem o privilégio de ser bom em tudo quanto mexe. Não é pessoa que conheço pessoalmente por nos termos encontrado so por duas vezes sendo a segunda no lançamento do meu livro onde não pude disfrutar da sua companhia e não ter podido apresentar-lhe as minhas desculpas por uma falta, involuntària, do pessoal que me acompanhava e que lhe fez pagar em vez de o entregar o seu volume autografado.
    Minhas renovadas desculpas com desejos de continuação de sucesso na vida pessoal e profissional.
    V.P.

    S.P - Lamentàvel que quem aqui passa não diz uma so "mantenha"

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