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Debaixo da nossa Pele IV: Retrato de Uma Senhora

Andresa do Nascimento começou por servir em casa dos Cavalcanti, uma família de origem piemontesa, no ano de 1889, na Rua do Poço dos Negros.

Um extraordinário eixo invisível atravessa os telhados de águas-furtadas deste bairro, unindo três pontos históricos: a minha primeira escola primária, frente ao largo onde se cavara o poço para enterrar os escravos negros mortos de Lisboa, o rés-do-chão dos Cavalcanti, onde Andresa se metamorfoseou na Preta Fernanda, e o humilde 2.º andar habitado pela nossa família.

Talvez a africana mais conhecida da Lisboa do seu tempo, Andresa viveu num rés-do-chão não muito longe da nossa casa, na mesma rua. Todas as versões da vida extraordinária desta filha de catadores de purga de Ribeira da Barca, na ilha de Santiago —  ou natural da Guiné, como defendem alguns —, são baseadas na autobiografia fantasiosa que deixou. Tampouco podemos confirmar que Eça de Queiroz tivesse conhecido e muito menos subido a escadaria do Teatro da Trindade com a cabo-verdiana pelo braço, se bem que a imagem do par formado pelo ilustre escritor e a cortesã-mor do burgo agradasse, sobremaneira, à famosa coquette.

Uma história para não desmentir, diria a Preta Fernanda.

A linguagem de Recordações d’uma colonial é assumidamente racista e reflecte os quadros estereotipados da época. O livro, que ela assina como Fernanda do Vale, é o cartão-de-visita de uma outra mulher que, antes de ser famosa, foi aventureira, esposa, modelo, amante e mais tarde toureira, liberal, coriácea e destemida. Uma mulher lasciva que passava muito do seu tempo ao colo de diplomatas, ministros, artistas, escritores, jornalistas, e que noutras vezes aturava industriais da cerveja, como o marido alemão, Fritz. Andresa ainda arranja tempo para discutir com Almada Negreiros o Manifesto Futurista, sem nunca perder de vista as meninas do seu salão do Bairro Alto. Curiosamente, os seus passos nunca andarão muito longe desta zona histórica da cidade —  que décadas depois irá albergar várias famílias cabo-verdianas —, tendo-se instalado com Fritz no Hotel de France, na Rua de São Paulo, ao chegarem de Dacar.

Quando Fritz morre, o mundo de Andresa desaba e ela é obrigada a procurar o seu sustento. Entre outros trabalhos serve de modelo para a estátua da mulher negra que segura a criança, aos pés de Sá da Bandeira, na Praça D. Luís. E é por esta altura que se dá o início da lenda desta espécie de Josephine Baker avant-là-lettre. A sua autobiografia revela detalhadamente como descobriu o amor a bordo de um palhabote capitaneado pelo bem-falante Jerónimo Antunes Martins, durante a fuga para o Senegal. Faz questão de enumerar os artigos comprados na modista francesa de Dacar: o chapelinho de tule preto, o espartilho, a saia de seda em ramagens, o corpete de mangas justas, as saias de baixo e as calcinhas de renda até ao meio da perna.

Evoca também um estranho mundo de cubatas, plumas ornamentais, ai-iués, tambores e de indígenas vestidos de tangas e saias de palha, da sua aldeia do interior de Santiago. Em 1912, quando Recordações d’uma colonial é publicado, Andresa tornara-se numa amarga e vingativa cortesã de 53 anos, que faz questão de elaborar uma lista exaustiva dos homens que passaram pela sua cama. A encabeçá-la está o capitão Jerónimo Martins, o industrial Kemps (Fritz), logo seguidos de uma vasta equipa formada por jornalistas, cabos, capitães, sargentos, criados, comerciantes, guardas, redactores, amanuenses, solicitadores, cadetes… não faltando mesmo um acrobata de nome Pissiuti. Fernanda do Vale/Andresa reserva ainda um pequeno capítulo final (fatal) sobre o desempenho sexual de cada um deles. Noutro campo, menos polémico e num tom mais afectuoso, é possível encontrar uma curiosa referência à cachupa e à sua confecção. Será, provavelmente, uma das primeiras de sempre, em toda a literatura. Este facto leva-me a pensar que Andresa do Nascimento/Fernanda do Vale/Preta Fernanda talvez pudesse ter enveredado pela culinária e quem sabe mesmo influenciar os hábitos dos comensais das noites de Lisboa do seu tempo. No final da leitura, fica-se com a sensação de que a referência ao prato tradicional cabo-verdiano seja, muito provavelmente, o único facto verdadeiro em todo o relato da sua extraordinária vida.  

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 818 de 2 de Agosto de 2017

 

terça, 08 agosto 2017 06:26

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