Expresso das Ilhas

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Um percurso Impar

A 22 de Janeiro de 1992, nascia na cidade do Mindelo a primeira empresa seguradora privada da história de Cabo Verde. Um dia simbólico, visto que 22 de Janeiro é o dia de São Vicente, santo patrono da ilha com o mesmo nome.
Cabo Verde tinha entrado nesse ano numa nova e importante fase da sua história. Saído vitorioso das primeiras eleições livres e democráticas a 13 de Janeiro de 1991, o MpD iniciou um ambicioso programa de reformas económicas que visavam abrir o país ao mundo, permitindo, entre outras coisas, o investimento privado nacional e estrangeiro, que fora proibido durante os 15 anos de governação de orientação marxista-leninista do PAIGC/CV.
Atentos às mudanças em curso, dois cabo-verdianos, Augusto Vasconcelos e Corsino Fortes, resolvem embarcar juntos na aventura de criar a primeira seguradora privada nacional. Num curto espaço de tempo, conseguem angariar para o projecto mais 50 empresários nacionais e ainda as empresas portuguesas Marconi e Império, esta última a maior seguradora de Portugal na altura.
É mobilizada para o projecto a astronómica (para a época) quantia de 100 mil contos, ficando o capital social repartido em partes iguais entre os accionistas cabo-verdianos e portugueses.
Num contexto ainda de incerteza política e económica, num mercado exíguo, estes empreendedores lançam mãos à obra da conquista de um mercado até então totalmente dominado por uma única empresa estatal, que detinha todos os grandes clientes de uma economia controlada por empresas igualmente estatais. Seria difícil imaginar um cenário de partida mais adverso...
Analisemos, para começar, esta improvável dupla de empreendedores: Augusto Vasconcelos, nascido na Brava, mas que fez vida no Mindelo, era na altura um comerciante de retalho; Corsino Fortes, um jurista com um percurso de político e diplomata, e poeta já conceituado. Nenhum deles dominava a área dos seguros, o que torna ainda mais intrigante esta arriscada façanha.
É também surpreendente o facto de terem à partida conseguido mobilizar 50 empresários, uma multidão num tempo em que ainda não se conhecia o conceito de crowdfunding, e num país com pouca tradição de cooperação empresarial, o que demonstra uma invulgar capacidade de mobilização.
O montante mobilizado de 100 mil contos, quase a rondar o obsceno para a época, é igualmente algo de fazer arregalar os olhos, provando que quando os homens sonham e possuem vontades férreas, não há desejos que não sejam realizáveis e não há ambições que não sejam alcançáveis por muito estratosféricas que pareçam de início.
Neste ano de 2017, a Impar comemorou em grande os ricos 25 anos de uma das mais relevantes histórias de sucesso empresarial deste Cabo Verde. Um trajecto com muitas estórias, que espero sejam algum dia retratadas em livro, o que será um testemunho importante e um contributo fundamental para a história recente do nosso país.
Augusto Vasconcelos poderia ter permanecido no conforto e na segurança do seu negócio familiar no comércio de retalho; mas preferiu arriscar e partir para uma aventura que à partida poderia ter dois desfechos: ou as coisas corriam mal e poderia arruinar os resultados conseguidos a pulso durante toda uma vida, ou corriam bem e entrava numa outra galáxia; felizmente, prevaleceu o segundo cenário.
Sair do negócio familiar, onde se é dono, gestor e manda-chuva, para uma empresa com dezenas de sócios, onde se é mais um, não é para qualquer um.
Só conseguem isso indivíduos verdadeiramente empreendedores, comandados por uma paixão interior que não se aprende em lado nenhum: é preciso nascer com ela, o que não surpreende neste neto do corajoso e indomável Luis Loff de Vasconcelos, que duas gerações antes, saiu igualmente da pequenina ilha Brava para vir enfrentar no Mindelo as poderosas companhias carvoeiras inglesas, entrando por mérito próprio para a galeria dos grandes filhos destas ilhas que fundaram o espírito da nação cabo-verdiana.
Juntou-se à paixão aventureira de Augusto Vasconcelos a diplomacia elegante e eficiente de Corsino Fortes, um mindelense de gema que nasceu e cresceu nos bairros construídos pelas companhias inglesas para os seus trabalhadores, as mesmas companhias que o avô do seu futuro companheiro de jornada enfrentou antes do seu nascimento.
Ter crescido nesta baía do Porto Grande, a lidar com gente de todo o mundo, deve ter marcado para toda a vida o jovem que se tornaria, mais tarde, um político, um diplomata respeitado nos vários países onde viveu e representou Cabo Verde, e no poeta cuja craveira ultrapassa qualquer fronteira, seja ela política, geográfica ou outra.
Mas este percurso invulgar da Impar não se resume à sua quase romântica fundação, há todo um caminho feito por uma empresa que começou por ter um volume de negócios de 69 mil contos, e que hoje factura um milhão de contos. No início, empregava 22 trabalhadores, hoje são 77, na sua maioria jovens.
No princípio, tinha 50% de capital português, mas, com a saída da Marconi em 1997 e da Império em 2002, a empresa passou a ser detida maioritariamente por capital cabo-verdiano, e são os accionistas nacionais que dominam o know-how. Um percurso a todos os títulos invejável que envolve uma passagem de testemunho pacífica entre a geração dos fundadores e a gestão actual.
Quando Luís Vasconcelos, filho de Augusto Vasconcelos, assumiu o leme da Impar, ainda muito jovem, não faltaram as críticas do costume. Para azar desses críticos, sob a gestão do jovem praticamente saído dos bancos da universidade, a Impar cresceu e tornou-se uma das empresas mais rentáveis e bem geridas do país.
Hoje, os factos falam por si. A Impar tem vindo a investir de forma sustentada e orgânica em empresas do sector financeiro e afins, naquilo que os manuais de estratégia empresarial chamam, tecnicamente, de diversificação relacionada, coroada com a recente aquisição do banco BCN, numa operação com contornos internacionais, e de uma dimensão apreciável para a nossa realidade, salvando esse banco do contágio dos problemas da casa-mãe Banif.
Mais uma vez se fez história, quando uma PME nacional adquire de forma audaz um banco muito maior do que ela própria, destronando pelo caminho poderosos interesses estrangeiros que queriam comprar o BCN.
O BCN, que nasceu com o inspirador nome de Banco Cabo-verdiano de Negócios, torna-se assim o único banco totalmente privado que possui capitais exclusivamente nacionais (apesar de eu ser um fã incondicional da globalização e, por conseguinte, de não estar normalmente muito preocupado com a origem do capital, que hoje é vadio e mundano, irão permitir-me esta deriva nacionalista momentânea, pois também tenho direito a algum nacionalismo de quando em vez – esta remarque dirige-se, particularmente, aos meus alunos, antes que me acusem de incoerência).
De Augusto a Luís Vasconcelos vai um percurso que faria as delícias dos estudiosos de case studies empresariais – de um comerciante que começou como funcionário comercial assalariado, de uma pequena empresa comercial familiar, a investidores institucionais devidamente estabelecidos no sector financeiro (tradicionalmente complexo e de acesso difícil) e afins, onde se incluem experiências inovadoras de internacionalização. Tudo isto no curto espaço de duas gerações, num país pequeno e com um mercado reduzido, e com uma ainda menor capacidade de poupança.
Convém também realçar que a família não se deslumbrou com o sucesso, mantendo e ampliando o negócio familiar, com a marca Fragata, gerida hoje pelo benjamim Rafael Vasconcelos. Outros comerciantes aqui da praça preferiram arrendar as suas lojas aos comerciantes chineses, uma opção também legítima...
Vivemos num país com uma cultura virada para a crítica (sobretudo a mordaz) e onde o elogio é praticamente inexistente. Lembro-me dos meus tempos da Shell Cabo Verde, da dificuldade que foi implementar na empresa as directrizes ditadas pelo Grupo Shell, do elogio e encorajamento permanentes no ambiente de trabalho, particularmente das chefias para com os seus subordinados (nestas alturas, lembramo-nos de que somos descendentes dos portugueses).
Este vosso cronista recebeu de Corsino Fortes um dos mais encorajantes elogios, quando há cerca de quatro anos iniciámos esta não planeada aventura cronista. Numa bela noite, na varanda da Casa da Morna, aqui no Mindelo, estava eu a conversar com uns amigos, quando chega aquela figura elegante vestida de branco, daquele que muitos chamam o Príncipe de Cabo Verde. Cumprimentou toda a gente e virou-se para mim, de forma suave e enérgica: “Tenho lido os seus escritos. Continue nesse caminho, continue nesse caminho!”
Um elogio curto, mas que de forma subentendida dizia tudo. Tão curto como os haikais com que o poeta nos levou para outras dimensões que só os abençoados conhecem.
Corsino Fortes era assim, um homem que atravessou a sua rica vida com uma elegância Impar, um poeta dos pés à cabeça.
Esta crónica procurará sempre seguir o bom exemplo do nosso poeta, quando for hora de elogiar. Quando for para criticar, aqui estaremos também.
Nesta homenagem, não poderia deixar de fora as mulheres, tantas vezes esquecidas no seu papel de companheiras, de onde vem muita da energia e a fonte de inspiração de homens com percursos invulgares e ímpares, como é o caso da hoje comendadora Rosália Vasconcelos, uma mindelense de origem alentejana, cuja inesgotável energia contrasta vivamente com a imagem estereotipada dos portugueses das extensas planícies do Sul de Portugal.
As mulheres, tão cantadas em verso e tão amadas de corpo e alma por Corsino Fortes, um incorrigível galanteador. Os poetas sabem como ninguém apreciar o belo e, neste sentido, o nosso Corsino não deixou, literalmente, os seus créditos por mãos alheias, não fosse ele um bom crioulo!
São Vicente e Cabo Verde precisam de criar mais “Impares”. O país precisa de mais homens de fibra como estes, para podermos sair definitivamente deste percurso nada abonatório de viver 42 anos à base de ajuda externa, numa soberania financiada com riqueza criada por outros (e cuja divisão causa tanta celeuma entre as ilhas, quais crianças a brigarem por prendas pelo Natal).
Cabo Verde precisa de mudar de rumo. E para isso terá de ser com exemplos como o da Impar e dos seus fundadores, gestores e funcionários, que deverão ser fonte de inspiração para as gerações vindouras.
Nota: Luísa Queirós deixou-nos! A cidade do Mindelo e Cabo Verde estão de luto pela perda de mais uma incontornável figura da nossa cultura. A pintora foi a enterrar no chão deste pequeno Cabo Verde, uma terra que ela adoptou como sua, ao tornar-se na companheira de uma vida de um crioulo cabo-verdiano que conheceu no mundo sem fronteiras das artes. Ninguém escolhe o país ou o local onde nasce, mas, quando são livres, os seres humanos escolhem onde vivem e de onde partem deste mundo. Luísa Queirós, cujo talento a poderia levar a viver onde quisesse, escolheu viver numa pequena cidade atlântica para onde veio para nunca mais voltar… e onde viverá para sempre na memória de todos.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 814 de 4 de Julho de 2017

terça, 11 julho 2017 06:00

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