Expresso das Ilhas

Switch to desktop Register Login

Sociedade civil, estado de direito, economia e governo representativo – repensando a tradição liberal – conservadora no séc. XXI

O texto que se segue refere-se à apresentação, feita por mim, da mais recente obra de Casimiro de Pina, que teve lugar na ilha do Fogo e que contou com uma grande assistência, da qual se destacava o Sr. Primeiro-Ministro para além de Ministros, Presidentes de Câmara e outras entidades oficiais. O Sr. Presidente da República também esteve presente, na qualidade de apresentador do livro.

O texto da apresentação, em referência, será subdividido em duas partes.

Neste número publica-se a primeira parte.

Gostaria de começar por saudar o senhor Presidente da República pelo prazer e a honra que me dá de estar aqui ao seu lado na apresentação do livro da autoria de Casimiro de Pina.

 Gostaria também de cumprimentar e agradecer o Dr. Casimiro de Pina pelo convite que teve a amabilidade de me dirigir para apresentar, nesta linda e acolhedora ilha do vulcão, esta que é, sem dúvida, uma das obras de referência no nosso panorama intelectual, e que irá marcar, seguramente, para sempre, o pensamento cabo-verdiano, pela lucidez da análise patenteada e pelo compromisso do autor com a verdade, e apenas com a verdade.

Cumprimento igualmente os presentes porque, sem o leitor, o escritor não existe.

Muito obrigada a todas e a todos, por terem vindo!

Penso que, no mínimo, devo aos estimados presentes uma explicação pelo facto de estar aqui a acompanhar dois dos mais respeitados intelectuais cabo-verdianos, reconhecidos tanto dentro como fora do nosso país.

A explicação é muito simples, e é esta:

Estava eu, há cerca de ano e meio, a sair do edifício da Conservatória de Registos, na Praia, e deparei-me com Casimiro de Pina, que apenas conhecia através daquela pequena fotografia que normalmente encabeça os seus artigos publicados em alguns dos jornais da praça.

Devo dizer que na altura ele não me conhecia de lado nenhum. E foi nesse momento que, com o entusiamo de quem tinha acabado de encontrar um dos seus ídolos, gritei: Casimiro, Casimiro! Estupefacto, ele olha para mim e, sem deixar que a surpresa durasse muito, disparei logo: Casimiro, sou uma leitora assídua dos teus artigos e gostaria que me incluísses na lista dos teus admiradores.

Hoje, não duvido que Casimiro é meu amigo e eu, para além de amiga, uma leitora entusiasta e empenhada de tudo aquilo que ele tem tornado público.

É, pois, na qualidade de admiradora e leitora assídua do escritor Casimiro de Pina que estou nesta mesa, beneficiando do privilégio de já ter lido, e apreciado muito, a mais recente obra deste grande escritor, em relação a quem não é difícil vaticinar um futuro especial na produção intelectual no nosso país.

Sociedade Civil, Estado de Direito, Economia e Governo Representativo – Repensando a Tradição Liberal-Conservadora (Chiado Editora, 2016) é o título do livro que nos tem aqui reunidos.

Trata-se de uma obra monumental, que condensa o essencial do pensamento de Casimiro de Pina e que acaba por pôr em evidência os poderosos instrumentos de análise que ele domina como ninguém e que o colocam num lugar privilegiado para entender e interpretar a nossa realidade local, ultrapassando mesmo, com a maior tranquilidade, as nossas fronteiras, sempre com uma imensa sensibilidade, extraordinária lucidez e enorme inteligência.

A extensão, profundidade e complexidade desta grande obra exige de qualquer leitor, mesmo dos mais preparados, espaço e tempo de meditação, que eu não tive, e, por isso, esforçar-me-ei por dar uma visão panorâmica do livro, aliás como é natural e recomendável nestas circunstâncias.

Sociedade Civil, Estado de Direito, Economia e Governo Representativo – Repensando a Tradição Liberal-Conservadora está estruturado em quatro partes, antecedidas de uma “Nota Prévia” redigida pelo autor e de um Prefácio assinado pelo escritor brasileiro Heitor de Paola, médico, analista e conferencista de política internacional e análise de imprensa, que se refere à obra dizendo que, e cito, “…o leitor encontrará neste livro assuntos para profundas reflexões sobre os principais problemas que a Humanidade enfrenta neste início de século, ou melhor, de todos os séculos.

Sobre Casimiro de Pina, ele garante o seguinte: “Asseguro que aproveitarão muito este autor, que desponta como um dos maiores intelectuais da atualidade”.

Falava eu da estruturação do livro e não de Casimiro de Pina, que fez questão de me pedir que evitasse referir-me à sua pessoa e que fixasse a minha atenção no livro. Tentando cumprir esse pedido, retomo a apresentação da obra, que, como eu disse, está estruturada em quatro partes.

Na primeira parte, Casimiro de Pina aborda a História das Ideias Liberais, Ética Republicana e Movimento Revolucionário.

Na segunda parte reflete sobre a Pobreza, Desenvolvimento e Globalização.

Na terceira, incide sobre a Governação e Patrimonialismo Selvagem e, finalmente, na quarta parte escreve sobre Guerra e Paz – Questões de Geopolítica.

São quase oitocentas páginas de profunda reflexão sobre uma multiplicidade de temas, todos eles perpassados pela ideia da liberdade, fermento da democracia.

Logo à entrada, Casimiro de Pina, procura clarificar o espaço político em que ele próprio se situa, ao citar parte da publicação intitulada “A cinza do purgatório”, de Otto Maria Carpeaux, um dos grandes pensadores do séc. XX, e em que este diz: “Falo daquele liberalismo superior, como um Croce ou um Ortega y Gasset o professam, esse liberalismo a que Ramón Pérez de Ayala, numa página sobre Pérez Galdós, chamou ‘la aptitud para la comprensión amplia de todas las cosas en conjunto’”.

Completando essa espécie de auto-retrato, por identificação, Heitor de Paola acaba por nos fornecer a chave para explorar a obra e compreender o seu autor, ao registar, no Prefácio do livro em análise, que Os fundamentos de seu pensamento são, em primeiro lugar, a liberdade individual, depois a democracia, a Justiça e a Rule of Law (a regra da Lei) que consubstancia o Due Process (devido processo legal). Tudo, no entanto, permeado por uma visão Cristã do mundo e do homem”.

Heitor de Paola vai mais longe, ao afirmar que “Casimiro certamente concorda com Hayek quando este diz que ´a liberdade é fundamental, a democracia apenas importante’”.

É verdade. Um dos pontos centrais do pensamento de Casimiro de Pina é a distinção, tão bem estabelecida por Stuart Mill e outros autores modernos, entre Liberdade e Democracia.

A Liberdade, como explica Casimiro, é essencialmente uma Filosofia Moral, ao serviço da intocável dignidade do ser humano, esse núcleo irredutível enquanto “trunfo contra as maiorias”, ao passo que a democracia, hoje cada vez mais “estatística” e manipulada por certas correntes de opinião, tem mais a ver com a selecção dos governantes através do voto.

Aconselho, neste sentido, os leitores do livro a procurarem o texto paradigmático da pág. 647, onde o autor aborda esse contraste com uma profusão de exemplos práticos e referências intelectuais, num exercício estimulante de História das Ideias.

 Quando se fala em “regimes liberais” tem-se normalmente a tentação de os tomar por uma única realidade, mas é preciso ter em atenção que, muitas vezes, essa classificação esconde realidades muito diferentes umas das outras. 

(…) continua no próximo número.

 

*Deputada Nacional


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 811 de 14 de Junho de 2017.

segunda, 19 junho 2017 06:00

1 comentário

  • Zobeida Lima 19-06-2017 Reportar

    Caboverdura no seu máximo esplendor. Tantas entidades na apresentação de apenas um livro? A terra das quarenta e duas maravilhas.

Deixe um comentário

Os campos com (*) são obrigatórios.

Expresso das Ilhas

Top Desktop version