Expresso das Ilhas

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Editorial: Precisa-se de maior agilidade governativa

As fragilidades de Cabo Verde vêm de tempos em tempos dramaticamente à superfície e toda a sociedade queda-se em choque perante as suas consequências, tanto aquelas que  se materializaram como as que poderiam ter-se verificado. Aconteceu na semana passada com o desastre da viatura na ilha do Fogo e a necessidade urgente de transportar doentes em estado grave para o Hospital da Praia. O facto de um ATR da TACV ter deixado de voar para o Fogo pôs a nu mais uma vez as dificuldades  de um país arquipélago em agir de forma efectiva a emergências a qualquer momento do dia ou da noite nas ilhas e no mar circundante. Outros acidentes e outras situações similares e até mais graves já tinham revelado a fragilidade existente, mas a reacção das autoridades tem sido de uma passividade confrangedora. Passada  a fase das recriminações públicas em que partidos e pessoas atacam uns aos outros e procuram fazer aproveitamento político da situação, não se notam mudanças significativas nas políticas, nas instituições ou nos comportamentos. Espera-se que desta vez não se repita o mesmo.

Devia ser óbvio que uma das principais prioridades de um país – com dez ilhas, uma enorme linha da costa e um mar vasto por controlar – fosse capacitar-se para fiscalizar o mar e a sua zona costeira e munir-se de recursos aéreos e marítimos, entre os quais helicópteros, para responder às emergências designadamente no que respeita a busca e salvamento no mar, evacuações médicas e respostas a desastres naturais. A responsabilidade do Estado de assim fazer é acrescida ainda com a gestão da FIR oceânica e o apoio que é obrigado prestar na eventualidade de alguma emergência aérea. O crescimento rápido do turismo deveria ser um incentivo para se acelerar nessa capacitação, considerando que é vital para o aumento do fluxo turístico que certas garantias principalmente de natureza médica estejam sempre asseguradas. Estranha pois que decorridos 42 anos desde da  independência e mais de uma década de aposta no turismo as respostas que o país por si só dá às emergências de toda espécie sejam ainda tão incipientes. Até parece que naufrágios, acidentes de aviação, desastres automóveis, cheias catastróficas e erupções vulcânicas com as sempre significativas perdas humanas e materiais não tenham sido suficiente incentivo para provocar uma mudança de atitude para além das proclamações de circunstância que no momento de choque e de dor se fazem.

Nota-se que passado o momento difícil, a tendência é voltar quase sem alteração à situação anterior. Exemplo notório é o que se passa no domínio do mar. A autoridade marítima continua dispersa entre o instituto marítimo e portuário, a capitania dos portos, a polícia marítima na polícia nacional e a guarda costeira nas forças armadas. Vários documentos oficiais entre os quais o plano estratégico de segurança interna de Agosto de 2014 e a prática já demonstraram que esta estrutura de forças não tem a eficácia desejável na consecução dos objectivos do país em matéria de policiamento dos mares e costas, de garantia de serviços de busca e salvamento e de outras emergências no país. Não se consegue coordenar devidamente as forças, não se consegue aproveitar adequadamente a cooperação internacional e mantem-se um quadro de desperdício de recursos tanto humanos como materiais por falta de foco e de estratégias consequentes.

O que se passa no mar com a autoridade marítima também verifica-se noutros sectores da vida do país. Sabe-se que algo não vai bem, mas para além das recriminações políticas de costume sempre que alguma coisa de excepcional acontece, as críticas ao status quo mantêm-se no mínimo. Procura-se não ferir susceptibilidades de grupos ou de interesses corporativos à volta do sector e o resultado é a inércia político-institucional que deixa quase tudo como estava. É o que acontece, por exemplo, com a segurança, a justiça e a educação, mas também é o que se constata noutros domínios com os transportes e a saúde. A factura que o país vai pagando com a incapacidade de definitivamente resolver os seus problemas de segurança ou de se conseguir uma justiça eficaz e ter uma educação de excelência não é desprezível. No caso da TACV já se sabe dos 120 milhões de dólares a pagar por omissões em matéria de política de transporte e por decisões erradas na gestão. Na educação é o próprio GAO há dias a apontar “as fraquezas do capital humano” como um dos principais constrangimentos ao crescimento económico apesar dos milhões gastos todos os anos no sector. A persistência do sentimento de segurança que limita a liberdade das pessoas em todo o país particularmente na Cidade da Praia e retira-lhes tranquilidade de espírito é o custo pago por todos por se continuar a pensar que se pode despejar meios sobre os problemas e eles se resolverão por si. 

A importância da alternância nas democracias é que abre o caminho para se mudar de políticas, para fazer novos arranjos institucionais, para definir outras prioridades e para congregar novas vontades na tarefa de construir um futuro de prosperidade e com superior qualidade de vida. Cabo Verde precisa libertar-se do colete-de-forças em que, de um lado, se tem entidades internacionais a impor políticas e reestruturação de sectores económicos sob pena de perda de ajuda orçamental e, do outro, se tem interesses corporativos que se servem de qualquer fragilidade ou hesitação na governação para seu próprio benefício sem preocupação com a eficácia global da actividade do Estado e com o impacto no ambiente geral dos negócios. Alinhar as prioridades com os recursos existentes e com uma nova agilidade institucional e governativa é fundamental para se dar o tipo de resposta segura e efectiva que há muito os cabo-verdianos esperam em matérias tão vitais como a segurança, a justiça, a educação, a saúde e os transportes. O Futuro depende do sucesso que se granjear nesse empreendimento.  

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 811 de 14 de Junho de 2017.

terça, 20 junho 2017 08:00

4 Comentários

  • César Palmieri Martins Barbosa 21-06-2017 Reportar

    Prezado Arthur

    Segue abaixo relação dos países arquipélagos oceânicos em seu contexto de independência e protetorado.
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    A Aliança dos Pequenos Estados Insulares (em inglês: Alliance of Small Island States - AOSIS) é uma coligação de países insulares e de pequena costa fundada em 1990. O principal objetivo da aliança é o de consolidar as vozes dos pequenos Estados insulares em desenvolvimento para enfrentar as alterações climáticas globais.
    São 43 membros efetivos e observadores de todo o mundo, sendo 37 deles, membros das Nações Unidas. Assim, representa 28% dos países em desenvolvimento, 20% do total de membros da ONU e 5% da população mundial. Os membros plenos são a Antiga e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Cabo Verde, Comores, Ilhas Cook, Cuba, Chipre, Dominica, Fiji, Estados Federados da Micronésia, Granada, Guiné.Bissau, Guiana, Haiti, Jamaica, Quiribáti, Maldivas, Malta, Ilhas Marshall, Maurícia, Nauru, Niue, Palau, Papua-Nova Guiné, Samoa, Singapura, Seicheles, São Tomé e Príncipe, Ilhas Salomão, São Cristóvão e Neves, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Suriname, Tonga, Trindade e Tobago, Tuvalu e Vanuatu.
    (fonte https://pt.wikipedia.org/wiki/Alian%C3%A7a_dos_Pequenos_Estados_Insulares)

    PEQUENOS PAÍSES ARQUIPÉLAGOS OCEÂNICOS NOS QUAIS A RAINHA DA INGLATERRA É CHEFE DE ESTADO DA MONARQUIA

    Rainha de Antígua e Barbuda · · Rainha de Granada · ·Rainha de Saint Kitts e Nevis · Rainha de Santa Lúcia · Rainha de São Vincente e Granadinas ·Rainha das Ilhas Salomão · Rainha de Tuvalu ·
    Fonte https://pt.wikipedia.org/wiki/Estados_chefiados_por_Isabel_II_do_Reino_Unido


    Estados em uma associação formal
    Ilhas Cook- Nova Zelândia,
    desde 4 de agosto de 1965 A Nova Zelândia mantém a responsabilidade pelos assuntos externos e defesa; contudo, essas responsabilidades não conferem direitos de controlo e são apenas exercidas a pedido do Governo das Ilhas Cook

    Ilhas Marshall Estados Unidos,
    desde 1986 - Os Estados Unidos fornecem defesa, o financiamento de subsídios e acesso a serviços sociais estadunidenses para os cidadãos dessas áreas sob o Tratado de Livre Associação.

    Micronésia- Estados Unidos,
    desde 1986 - Os Estados Unidos fornecem defesa, o financiamento de subsídios e acesso a serviços sociais estadunidenses para os cidadãos dessas áreas sob o Tratado de Livre Associação.

    Niue Nova Zelândia,
    desde 19 de outubro de 1974- A Nova Zelândia mantém a responsabilidade pelos assuntos externos e defesa; contudo, essas responsabilidades não conferem direitos de controlo e são apenas exercidas a pedido do Governo de Niue

    Palau Estados Unidos,
    desde 1994 Os Estados Unidos fornecem defesa, o financiamento de subsídios e acesso a serviços sociais estadunidenses para os cidadãos dessas áreas sob o Tratado de Livre Associação.

    Fonte https://pt.wikipedia.org/wiki/Estado_associado


    Estados cedentes de poder para outro estado
    Kiribati - Austrália e
    Nova Zelândia Kiribati não tem defesa militar. A defesa nacional é fornecida pela Austrália e Nova Zelândia.

    Nauru - Austrália, desde 1968 Nauru não tem defesa militar. A Austrália leva informalmente a responsabilidade pela sua defesa

    Samoa - Nova Zelândia
    Samoa não tem defesa militar regular. A Nova Zelândia fornece proteção sob um acordo informal.
    fonte https://pt.wikipedia.org/wiki/Estado_associado

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  • César Palmieri Martins Barbosa 20-06-2017 Reportar

    Prezado Arthur

    Primeiramente desejo agradecer a sua consideração em me responder, pois o seu comentário é muito importante e pertinente.

    De todos os pequenos países oceânicos totalmente independentes, sem ser súdito da Rainha da Inglaterra, ou estado associado dos Estados Unidos, França, Austrália ou Nova Zelândia, apenas as Ilhas Maurícias e Seychelles são mais ricas do que Cabo Verde, e os demais países insulares oceânicos totalmente independentes são consideravelmente mais pobres do que Cabo Verde.

    Todavia, não estamos interessados em uma eventual união de Cabo Verde com algum país poderoso, mas em estudar Cabo Verde como um caso de um pequeno país arquipélago independente, sem o apoio que um país poderoso possa lhe oferecer, como nos casos dos pequenos arquipélagos oceânicos que se beneficiam de poderoso apoio e dinheiro de um tesouro forte.

    Assim sendo, tomando-se como imutável que Cabo Verde é e será um país independente, sem poder se socorrer de uma união maior, deve-se questionar quais os sacrifícios que Cabo Verde deve estar preparado para suportar e quais as suas perspectivas de enriquecer ou de se tornar ainda mais pobre em razão da actual crise econômica mundial.

    É certo que Cabo Verde, apesar de independente e soberano, e por isso só, não podendo contar com o socorro de uma União, apresenta uma dependência da ajuda internacional e da remessa de dinheiro dos seus nacionais em diáspora, bem assim das receitas do turismo para poder importar o que necessita para não entrar em colapso.

    A dificuldade em crescer para atingir o mesmo nível de riqueza das Seychelles e das Maurícias é que o actual momento econômico está a empobrecer mesmo quem é rico, e, de forma dura, impede o enriquecimento de quem é pobre, mesmo que possua excelentes potencialidades, como é o caso de Cabo Verde.

    Acreditamos que Cabo Verde se encontra muito abaixo de suas potencialidades, mas, para poder enfrentar os problemas urgentes, é forçoso reconhecer as suas fragilidades, para se poder planejar a sua segurança no curto e médio prazo e conseguir evitar danos sem a devida capacidade para administrá-los e minorar os seus efeitos.

    Cabo Verde não pode querer se comparar com as Seychelles, que lhe é mais rica, mas também sofrerá consideravelmente nessa crise mundial, e nem pode se comparar com os pequenos países insulares oceânicos também independentes e solitários nos seus problemas, mas que são muito mais pobres do que Cabo Verde, o que é a regra entre os casos semelhantes ao caboverdiano.

    Cabo Verde não é um caso de fracasso, muito pelo contrário, o problema é que essa crise mundial é gravíssima, e Cabo Verde se encontra fortemente endividado, e dependente da importação de bens e serviços para satisfazer as suas necessidades mais essenciais, como na defesa das seguranças alimentar e energética.

    É sabido que alguns propugnam a união de Cabo Verde com Portugal, e por conseguinte com a União Europeia, para equiparar aos casos dos Açores, Madeira e Canárias, exemplos de maior riqueza na Macaronésia, e nem sequer se cogita uma união com outros países da CPLP, em especial Angola ou Brasil, ou a reedição da união com a Guiné Bissau, e nem mesmo a união com os Estados Unidos, China, Reino Unido, França ou outras potencias, por isso trabalho com a hipótese de um futuro com Cabo Verde independente e só, em um mundo em crise, repleto de desafios graves, que precisam ser conhecidos, enfrentados e vencidos, sob pena de, em caso de fracasso, a própria independência ou existência de Cabo Verde se encontrar posta em causa, como já aconteceu mesmo com os mais poderosos impe´rios e civilizações ao longo da História da Humanidade.

    Caro Arthur, não estou propondo, em absoluto, a incorporação voluntária de Cabo Verde a Portugal, à União Europeia ou a qualquer outro país por mais poderoso que seja, mas a ameça da assimilação de Cabo Verde pela Nigéria ou outros países com fluxos migratórios para Cabo Verde superior ao número dos caboverdianos descendentes dos seus actuais nacionais é evidente consta do estudo e teses referentes às tendências populacionais no século XXI.

    Espero ter esclarecido o meu pensamento, e me coloco à disposição para qualquer questionamento que desejarem me fazer.

    Da mais alta estima.

    Rio de Janeiro, 20 de junho de 2017

    César Palmieri Martins Barbosa

  • arthur 19-06-2017 Reportar

    Oh Palmieri. Não compare coisas que não são comparáveis. Cabo Verde é independente e bem independente. As outras ilhas que refere são colónias de paises economicamente fortes. Primeiro, nem dados económicos independentes e isentos teremos dessas colónias-ilhas. Porque o senhor feudal não deixará. Segundo, todos os anos esses os colonos injectam nas suas colónias milhões em dinheiro, pagando aos seus funcionários públicos verbas enormes como se estivessem a receber na colonia-mãe e realizando projetos caríssimos que a produção económica local não teria condição de realizar. Terceiro, essas ilhas colónias ainda recebem milhões de ajudas das suas respetivas zonas económicas. Na próxima vez, quando quiser comparar CV faça a comparação com países-ilhas independentes.

  • César Palmieri Martins Barbosa 19-06-2017 Reportar

    Prezados Leitores

    Cumpre-nos, por coerência ao debate, republicar os nossos comentários feitos na reportagem "«Economia de Cabo Verde representa três dias da economia da Nigéria» – Carlos Lopes- no jornal Expresso das Ilhas, on line, de 30 de agosto de 2016, nos quais a falta de segurança nacional em Cabo Verde é verificada no citado editorial do Expresso das Ilhas de 2 de outubro de 2015, na mesma linha de outros editais desse Jornal, como se pode ler no link abaixo:

    http://www.expressodasilhas.sapo.cv/economia/item/49987-economia-de-cabo-verde-representa-tres-dias-da-economia-da-nigeria-%E2%80%93-carlos-lopes


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    "CABO VERDE NA ROTA DA IMIGRAÇÃO NIGERIANA.

    O problema de Cabo Verde não é a falta de chuva, mas escassez de dinheiro.

    Não é possível fazer capitalismo sem capital.

    No mundo existem várias e vastas áreas sem uma atividade econômica desenvolvida, e a pobreza é predominante em toda a História da Humanidade, sendo a riqueza privilégio de minorias, como ocorre atualmente no nosso planeta, no qual a maior parte das 7 bilhões de almas vive em condições que nem parece que estão no século XXI.

    Uma das causas determinantes da pobreza e da riqueza é o fluxo financeiro internacional.

    Os países que se encontram fora da rota dos fluxos financeiros internacionais, como Cabo Verde, padecem na pobreza apesar das suas grandes potencialidades, e aqueles que observam Cabo Verde isoladamente não conseguem entender ou explicar porque esse País não consegue, ao menos, o mesmo desempenho econômico dos seus pares da Macaronésia.

    O compararmos Cabo Verde com as Canárias e Madeira, e mesmo os Açores, salta aos olhos que há algo de errado.

    A mesma comparação nos mostra que arquipélagos oceânicos que recebem ricas verbas orçamentárias de tesouros centrais poderosos, como o Hawaii, o Tahiti, ou mesmo o arquipélago de Fernando de Noronha, no Brasil, possuem uma infraestrutura e serviços muito além dos seus próprios recursos, e não precisam manter forças armadas, banco central, comunicações, saúde, relações exteriores e todas as caríssimas despesas que são um flagelo para os pequenos países.

    No Hawaii o seu poderoso turismo é importante, mas secundário para a economia havaiana, que possui na administração pública a sua principal atividade econômica.

    Os Estados Unidos mantém na Hawaii bases militares, universidade e escolas, observatórios astronômicos, hospitais e tantas outras riquezas que o turismo, que de acordo com a Hawaíi Tourism Authority 8,3 milhões de turistas visitaram o arquipélago em 2014, gastando 14,7 mil milhões de dólares (http://www.hawaiitourismauthority.org/default/assets/File/research/monthly- visitors/December%202014%20Visitor%20Stats%20Press%20Release%20(final).pdf).

    A OPÇÃO DE CABO VERDE PARA, AO CONTRÁRIO DOS OUTROS ARQUIPÉLAGOS DA MACARONÉSIA, OPTAR PELA INDEPENDÊNCIA E SOBERANIA INDIVIDUAL

    Creio que a opção pela independência que Cabo Verde escolheu, ao contrário dos seus pares de Açores e Madeira, agora manda a sua fatura com o insustentável nível de endividamento cabo-verdiano, como se pode verificar nas maiores relações de dívida pública e do PIB no mundo, como se lê:

    DÍVIDA PÚBLICA % PIB - LISTA DE PAÍSES

    Japão- 230.%

    Grécia- 177%

    Líbano- 134%

    Jamaica- 132.7%

    Itália - 132.3%

    Portugal- 130.2%

    Cabo Verde- 114.2%

    Irlanda- 109.7%

    Chipre- 107.5%

    Bélgica- 106.5%

    Estados Unidos- 102.98%

    Essa bancarrota do tesouro cabo-verdiano (sendo o escudo de Cabo Verde atrelado ao euro por meio de acordo monetário entre Cabo Verde a União Europeia, por intermédio de Portugal) torna-se ainda mais grave com a crise do euro, inserida na maior crise financeira da História desde a Revolução Industrial, maior até do que a crise de 1929.

    O problema de Cabo Verde como pequena nação independente é ainda maior do que a sua viabilidade econômica, mantidas as atuais circunstâncias (ceteris paribus), pois as coisas não estão constantes.

    A AMEAÇA MIGRATÓRIA CONTRA CABO VERDE

    Para comodidade dos leitores, segue abaixo a reprodução do texto dos nossos comentários já publicados nesse jornal:

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    “Primeiramente desejo deixar bem claro que concordo com a importância do turismo para Cabo Verde, pois é relevante até para os Estados Unidos e para a os principais países europeus e do mundo, e Cabo Verde de facto possui todos os requisitos de beleza e encantamento para ser tão bem sucedido como os mais famosos arquipélagos oceânicos do mundo, como o Hawaii, Tahiti, Seychelles, os caribenhos, enfim, nada fica a dever em potencial aos melhores destinos, principalmente para os turistas europeus.

    Todavia, é necessário ponderar que o cenário actual desse ano de 2015 não é perene, e a qualquer momento a crise mundial pode afetar dramaticamente o País pondo tudo a perder, até o turismo, por óbvio.

    O século XXI está sendo cruel com diversos estados que estão a ser destroçados em sequência, com características simulares: Líbia, Iraque, Yemen, Síria e Afeganistão sofrem o caos completo pela luta das superpotências pelas antigas terras desde o oriente até África que já foram dominadas totalmente outrora pelos impérios da Pérsia, de Alexandre Magno, de Roma e Otomano. Egito, Tunísia, Argélia, Arábia Saudita, Líbano, Palestina, Israel, Jordânia, Kuwait, Emirados árabes Unidos, Omã, Qatar, irã e outros vivem o agravamento das suas ameaças.

    A descolonização que se deu no século XX, na qual Cabo Verde nasce como país soberano em 1975, criou muitos estados independentes que agora voltam a entrar em colapso.

    Os países descolonizados que se situam nas regiões de conflito histórico dos grandes impérios já possuem um padrão de ameaça de desintegração.

    Cabo Verde se situa entre os numerosos pequenos países sem capacidade própria de resistir a uma invasão e se defender militarmente que proliferaram no século XX, principalmente após a II Guerra Mundial com a supremacia dos Estados Unidos e da União Soviética, quando foram desmantelados os resquícios dos outrora poderosos impérios europeus.

    Essa crise econômica mundial, por si só, parece ser bastante para arrasar com a grande maioria dos pequenos países independentes em especial os mais pobres, como os pequenos países arquipélagos oceânicos, como é o caso de Cabo Verde.

    O editorial do Expresso das Ilhas de 2 de outubro de 2015, alerta:
    "Essa possível evolução da economia não é uma boa notícia para Cabo Verde. Não torna os parceiros mais generosos na dispensa da ajuda internacional, seja por que vias for. Afecta negativamente a procura para bens e serviços cabo-verdianos e tende a diminuir o fluxo de capitais que eventualmente o país poderia atrair."

    Por enquanto ainda não há uma sequência de quebras como no caso dos países do antigo Império Otomano, mas em breve países inviáveis economicamente deixarão simplesmente de existir como independentes, por decisão estratégica própria, unindo-se a outros países, ou por desintegração política em razão da bancarrota e do peso de sua dívida insustentável, crises migratórias, tudo se unindo para causar o fim do estado organizado.

    Outra grave ameaça para o futuro de Cabo Verde é a crise migratória para o País proveniente principalmente da Nigéria.

    Ao longo desse século XXI a população dos actuais caboverdianos se manterá estável entre 600.000 e 1 milhão de habitantes, enquanto a população da Nigéria em 2030 deverá chegar a 310 milhões de pessoas, em 2050 alcançará aproximadamente 450 milhões de pessoas, e no final desse século deve atingir a fantástica cifra de mais de 900 milhões de almas.

    Os demais países da áfrica Subsahariana também crescerão dessa forma impressionante, e Moçambique, por exemplo, deve chegar em 2050 com 50 milhões de habitantes.”

    Com essa realidade populacional, Cabo Verde, em 2050, já deverá possuir mais habitantes nigerianos do que os descendentes da sua actual população.

    Os emigrantes africanos que devem aportar em Cabo Verde deverão ser movidos pelas perseguições políticas, religiosas e das guerras, trazendo consigo o flagelo dos refugiados.

    Pesem bem, chegou o momento de pensar Cabo Verde com consequencialismo para não virar simples espectador do futuro."

    Da mais alta estima
    Rio de Janeiro, 30 de agosto de 2016
    César Palmieri Martins Barbosa"
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    Como se nota da leitura do actual "Editorial: Precisa-se de maior agilidade governativa" do Expresso das Ilhas de hoje, sob comentário, a situação encontra-se a se agravar de forma constante, estando assim retrato em um dos parágrafos do actual editorial desse Jornal:

    "Devia ser óbvio que uma das principais prioridades de um país – com dez ilhas, uma enorme linha da costa e um mar vasto por controlar – fosse capacitar-se para fiscalizar o mar e a sua zona costeira e munir-se de recursos aéreos e marítimos, entre os quais helicópteros, para responder às emergências designadamente no que respeita a busca e salvamento no mar, evacuações médicas e respostas a desastres naturais. A responsabilidade do Estado de assim fazer é acrescida ainda com a gestão da FIR oceânica e o apoio que é obrigado prestar na eventualidade de alguma emergência aérea. O crescimento rápido do turismo deveria ser um incentivo para se acelerar nessa capacitação, considerando que é vital para o aumento do fluxo turístico que certas garantias principalmente de natureza médica estejam sempre asseguradas. Estranha pois que decorridos 42 anos desde da independência e mais de uma década de aposta no turismo as respostas que o país por si só dá às emergências de toda espécie sejam ainda tão incipientes. Até parece que naufrágios, acidentes de aviação, desastres automóveis, cheias catastróficas e erupções vulcânicas com as sempre significativas perdas humanas e materiais não tenham sido suficiente incentivo para provocar uma mudança de atitude para além das proclamações de circunstância que no momento de choque e de dor se fazem."

    CABO VERDE SOB AGRAVAMENTO DA FALTA DE SEGURANÇA NACIONAL

    Lamentavelmente, em razão da crise econômica mundial e da situação de insustentabilidade da sua dívida pública, Cabo Verde está a conhecer um agravamento das suas dificuldades, que já estão a comprometer a sua segurança de transporte e comunicações, gerando inseguranças e prejuízos em todos os setores da sua economia e das condições vitais e essenciais mínimas necessárias para garantir a sua segurança nacional, sendo que o País apresenta dependência das importações para a mais sensível e urgente das necessidades, que é a segurança alimentar.

    É a nossa opinião, salvo melhor julgamento.

    Rio de Janeiro, 18 de junho de 2017

    César Palmieri Martins Barbosa

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