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A sustentabilidade como elemento central na competitividade dos destinos dos pequenos países insulares – como é o caso de Cabo Verde

O Primeiro-ministro de Cabo Verde, Ulisses Correia e Silva, na sua recente visita às ilhas turísticas e, em intervenções públicas tem relevado as questões concernentes ao ‘turismo inclusivo’ e políticas públicas para a resolução de problemas ambientais e sociais resultantes do desenvolvimento do turismo. Daí, por exemplo,  a decisão do governo em consignar a taxa turística para a resolução desses problemas.

1. Com efeito, considero muito oportuno chamar a atenção para um dos mais importantes domínios em que se aplica o conceito de sustentabilidade – destino turístico, sobretudo nos Pequenos Estados Insulares, como é o caso de Cabo Verde, que apresentam uma série de fragilidades. Porquanto sem sustentabilidade não se pode falar de competitividade de um destino turístico. Aliás, Ritchie e Croug (2003) afirmam de forma inequívoca que “competitiveness without sustainability is illusory” (competitividade sem sustentabilidade é ilusório).

Já nos anos 90, a Organização Mundial do Turismo, (1993) com base no Relatório Brundtland, definia o desenvolvimento turístico sustentável como aquele que “atende às necessidades dos turistas actuais e das regiões receptoras e, ao mesmo tempo, protege e fomenta as oportunidades para o turismo futuro.

Assim o turismo sustentável corresponde a um modelo holístico de desenvolvimento económico projectado para melhorar a qualidade de vida da população, manter a qualidade do meio ambiente, assegurar a obtenção de lucros pelos empresários e prover experiências de qualidade para o visitante.

2. Por isso, todas as decisões no quadro da gestão de um destino turístico devem ser avaliadas tendo em conta um framework que contemple a sustentabilidade. Como o  turismo contribui com cerca de 10% do total da actividade mundial (em Cabo Verde representa 21% do PIB) e ser um dos principais geradores de emprego, a sustentabilidade deve ser vista numa perspectiva do sistema da gestão do destino turístico competindo  aos poderes públicos o papel de promover o desenvolvimento sustentável para minimizar os impactos ambientes e sociais do turismo ao mesmo tempo  promover o desenvolvimento económico.

3. Apesar dos avanços em termos teóricos (convenções, cimeiras e declarações), persistem vários problemas em termos de operacionalização dos princípios de sustentabilidade em vários destinos, designadamente de países pobres. Ou seja, ainda persiste um grande fosso entre a teoria e a prática da sustentabilidade.

Entre as razões, destaquem-se as divergências de interpretação do próprio conceito de desenvolvimento sustentável e a discrepância entre a teoria e a prática da realidade dos destinos. Por outro lado, existem argumentos económicos que constituem obstáculos ao desenvolvimento do turismo sustentável.

Na mesma linha, Ritchie e Croug (2003), inspirados na hierarquia de Maslow, notam também que, nos países pobres cujas necessidades básicas ainda não estão resolvidas, há uma tendência para não priorizar adequadamente a protecção do ambiente. As vantagens de curto prazo podem ofuscar o cumprimento de metas de sustentabilidade a longo prazo.

Assim, ocorre que muitas das considerações sobre a sustentabilidade que vem sendo debatida a nível mundial, podem não ser tidas em consideração nessas regiões.

Likurd (2011), por sua vez,  reconhece esses e outros  problemas com a implementação prática do conceito, argumentando que o turismo sustentável não pode ser analisado de per si mas sim no seu contexto sócio político e espacial em que deve ser adoptado como uma filosofia de gestão que tenha em conta um quadro de princípios e valores  estabelecidos pela TEFI - Tourism, Education, Futures Initiatives (2007), como a ética, conhecimento e profissionalismo, respeito mútuo que têm em conta valores como humildade, colaboração,  diversidade e inclusão e  Stewadship - na perspectiva de que a terra é um presente divino  que devemos fazer uso e cuidar para o benéfico da nossa e da geração futura.

4. Eventos internacionais como a Conferência Global sobre o Desenvolvimento Sustentável nos Pequenos Estados Insulares em vias de Desenvolvimento realizada em Barbados (1994), a Conferência realizada nas Maurícias (2005), e a carta Mundial saída da Conferência Mundial sobre o turismo sustentável que teve lugar na Ilha de Lanzarote (Canárias) chamam claramente a atenção para a especificidade das vulnerabilidades das ilhas. Por exemplo, a Declaração de Barbados e o Programa de Acção para o Desenvolvimento Sustentável nos Pequenos Estados Insulares em vias de Desenvolvimento incluem um quadro com 15 áreas prioritárias sendo de se destacar os itens como recursos marinhos e costeiros, mudanças climáticas e desastres naturais, energia e água, entre outros, que podem afectar o turismo nessas regiões.

5. Importa referir que, no quadro do ‘new turismo’ deu-se o alargamento do conteúdo do conceito que passou a abarcar não só considerações ambientais mas também sociais e culturais. Surgem formas alternativas do turismo de massas, que como se sabe, dominam nas regiões insulares pobres. Turismo alternativo passou a ser designado de várias  formas: turismo verde, ecoturismo, turismo soft, turismo de low impact, turismo responsável, turismo sustentável, turismo alternativo. Essas  formas alternativas de turismo visam  corresponder às necessidades de segmentos de turistas cada vez mais numerosos.

Cita-se a Organização Mundial do Turismo (2004) que apresenta os seguintes desafios para uma nova política turística para as ilhas:

Estabelecimento de limites e condições de desenvolvimento do turismo.

Adopção da melhor integração possível do turismo (dentro do sistema da ilha).

Definição de uma estratégia visando um adequado planeamento e gestão das actividades turísticas que implica a viabilidade do sector a longo prazo, bem como o respeito pelos ambientes naturais e culturais.

A qualificação das infra-estruturas e dos projectos turísticos por forma a melhorar a produtividade do investimento turístico através do aumento da estadia, da estação turística bem como da fidelidade e gastos dos turistas.

Justiça na distribuição dos lucros e custos do turismo entre os principais actores. 

6. Na sequência do que foi abordado sobre os impactos, reconhece-se a importância da capacidade de carga (que pode ser de ordem física, psicológica, social e ambiental) que se apresenta como um elemento relevante para a sustentabilidade dos destinos turísticos dos pequenos países. 

A capacidade de carga refere-se ao número máximo de visitantes que podem utilizar um determinado destino turístico sem causar alterações inaceitáveis no ambiente físico e social. Cooper at al (1998) definem capacidade de carga como a habilidade de absorver a procura turística sem deteriorar o ambiente e o social. Estabelece-se uma relação entre o fluxo turístico e os recursos turísticos do destino.

É só cumprindo este ‘framewok’ do desenvolvimento sustentável que o destino turístico Cabo Verde poderá manter-se por longos anos na fase de crescimento trazendo vantagens para os empresários, visitantes e para a melhoria da qualidade de vida das populações.  

 

*Presidente da câmara municipal do sal


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 810 de 07 de Junho de 2017.

quarta, 14 junho 2017 06:00

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