Expresso das Ilhas

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Crioulos não independentes, liberdade, vistos e patriotismos utópicos (II

Na crónica anterior, acompanhámos a viagem de uma delegação desportiva nacional de 14 atletas sub-16 e 6 dirigentes que foram representar Cabo Verde nos Jogos das Ilhas de 2017 na Martinica, uma iniciativa louvável que implicou um grande esforço financeiro para o nosso pobre país. Em comparação, a delegação dos nossos irmãos macaronésios dos Açores era composta por 76 atletas e 19 elementos entre técnicos e dirigentes. Enquanto os Açores participaram em 8 modalidades desportivas, nós ficámos por 3...

Estiveram na Martinica 552 jovens de 11 regiões arquipelágicas, o que dá uma média de 50 atletas por delegação. Cabo Verde, a única delegação oriunda de um arquipélago independente, ficou claramente abaixo da média. Apesar disso, os nossos valorosos atletas lá trouxeram umas medalhas, o que encheu a nação verdiana de orgulho.

De facto, é pena os nossos atletas não terem, nem de longe nem de perto, as condições que os seus colegas ilhéus possuem, seja condições materiais, seja a possibilidade de viajarem desde cedo para competir. Talento não nos falta, mas...

Antes da nossa independência, os açorianos emigravam para Cabo Verde à procura de vida melhor. Dizem os livros de História que muitos cabo-verdianos são descendentes de açorianos (eu sou um deles). Hoje, fruto de opções diferentes, é notória a enorme diferença de standard e qualidade de vida entre as populações dos dois arquipélagos irmãos, que, durante a maior parte da sua existência, pertenceram a um mesmo mundo, partilhando a mesma língua e basicamente os mesmos costumes e hábitos culturais.

Qual é o cabo-verdiano que não se sente em casa nos Açores? Qual o açoriano que não vem a Cabo Verde e não regressa a casa com saudades e vontade de voltar?

Os nossos jovens atletas sentiram-se em casa na Martinica, o que não é de estranhar – tirando o facto de o crioulo de lá ser de base lexical francesa, e a língua metropolitana ser o francês, a génese das sociedades é a mesma, e até foram recebidos com batucadas de Carnaval.

Vieram felizes por terem convivido de perto com jovens que vivem noutras ilhas e puderam aprender que, afinal, existe muita gente neste mundo que vive em ilhas tal como nós. Aprenderam também que essas ilhas, apesar de não serem independentes, também possuem uma bandeira e um hino, algo que até qualquer clube desportivo possui.

Nós preferimos ser independentes, e orgulhosamente pobres – ainda com 1/3 da população na pobreza. Mas temos uma bandeira e um hino, aliás, nesse particular, até somos ricos, já vamos em duas bandeiras e dois hinos no pós-independência; durante a minha existência, aprendi a cantar 3 hinos e tomei como minhas 3 bandeiras, o que não deixa de ser uma forma de riqueza.

O pior é o passaporte que a maioria dos nossos atletas tinha, quando comparado com o passaporte que os outros jovens das outras ilhas possuem.

No espaço de um mês, os tenistas que foram à Martinica tiveram a estranha experiência de terem de viajar em dias separados. Foram até Portugal para um estágio de preparação e depois regressaram e tornaram a partir para a Martinica. Em ambos os casos, uns tinham passaporte português e viajaram no dia indicado, chegando a tempo ao destino, mas a maioria teve de passar pela desagradável experiência de dias de espera por um visto, viajando tardiamente, apesar da envolvência das autoridades nacionais ao mais alto nível.

Aprenderam na prática que, quando chega a hora de viajar, há cabo-verdianos de primeira, que viajam quando querem, e há outros de segunda, que têm de penar para sair destas ilhas.

Enquanto isso, nas redes sociais, havia discussões inflamadas de patriotismo sobre o que é ser cabo-verdiano e o que é ter um passaporte cabo-verdiano – havia opiniões para todos os gostos, desde o patriotismo mais exacerbado até quem considerasse que o nosso passaporte é uma prisão.

Como sempre nestas coisas, os mais patriotas são usualmente os que não sofrem estes problemas na pele, viajando tranquilamente com os seus respectivos passaportes europeus, apesar de tão nacionalistas. Também há os passaportes de serviço, muito usados pelos nacionalistas.

Dizia-me alguém que os estrategas da independência de Cabo Verde e os seus descendentes viajaram sempre sob o conforto de passaportes diplomáticos, salas VIP, motoristas e outras benesses, quando não possuem um passaporte europeu, concluindo que “assim é fácil”...

É duro dizer tudo isso, mas é a mais pura das verdades.

Sei bem o que são as agruras de viajar com o nosso passaporte. Durante 5 anos, viajei numa base mensal para Inglaterra e, apesar de ter um visto que me permitia entrar as vezes que quisesse, tinha sempre direito a tratamento especial: tinha de ir para uma fila de “others” onde quase sempre era o único passageiro do meu avião; depois, enquanto o resto da malta que eu tinha conhecido no voo passava e me acenava, lá tinha eu de preencher um boletim e colocar o dedo num aparelho para me lerem as impressões digitais – não raras vezes tinha de colocar vários dedos, pois nem sempre a coisa funcionava bem e, nas épocas mais quentes, a transpiração nos dedos fazia com que tivesse de repetir a experiência n vezes.

Aterrar no aeroporto de Faro, vindo de Inglaterra, foi durante anos um martírio que eu e os meus filhos pequenos conhecemos bem. Toda a gente passava e lá ficávamos nós, pois o sistema não estava preparado para alienígenas que não fossem de um país europeu. Não há dúvidas de que não era expectável cabo-verdianos a chegarem ao Algarve vindos de Inglaterra. Enquanto todos os passageiros se despachavam, lá ficávamos mais de uma hora, parecendo criminosos à espera de serem libertados.

Isso no Algarve, terra onde estudei, terra de onde, segundo reza a História, vieram muitos dos nossos ascendentes. E eu tinha de explicar aos meus filhos todas as vezes o porquê de todos os passageiros passarem e nós ficarmos ali especados aguardando a bendita autorização para entrar em terras lusas. E perguntava-me a mim mesmo: que raio, se somos descendentes directos de algarvios, se já fizemos parte desta nação, porque escolhemos ser tratados desta forma?!

Graças ao nosso passaporte, a minha filha, que coleccionava troféus no ballet e noutros estilos de dança em Inglaterra, e a quem todos os professores ingleses vaticinavam um futuro brilhante na dança, teve de regressar a Cabo Verde. No ano passado, terminado o 12º ano, ficou em terra, perdendo um ano escolar, porque este país que gosta de falar de cultura não tem uma política de formação na área da dança, e o passaporte dela não lhe permitiu ter o visto necessário para ir estudar numa escola de dança na Holanda que se interessou pelo seu curriculum. Para trás, ficou o sonho de ser uma prima bailarina de ballet, porque a idade não perdoa...

Como explicar aos meus filhos que a independência política de Cabo Verde valeu a pena? À medida que vão crescendo, vou perdendo argumentos, sobretudo agora que o mais novo foi à Martinica e teve de sofrer para ter um visto, tendo feito parte do grupo que ficou para trás nas duas viagens, num suspense até ao último momento, sem saber se viajavam ou não.

E ele pôde constatar ao vivo e a cores o standard de vida e as possibilidades que os jovens das outras ilhas não independentes têm. Desde logo, os adversários que enfrentou, que desde tenra idade viajam para competir nas respectivas metrópoles, seja Itália, Portugal ou França. Ele e os seus colegas, coitados, lá tiveram a sua experiência internacional...

Foi pena à última hora eu não ter podido ir na viagem à Martinica, por razões (lá está...) orçamentais. Ficou adiado mais uma vez o sonho de adolescente de conhecer a Martinica (que vem desde que aprendi a dançar ao ritmo dos Kassav), aliado à já adulta curiosidade etnográfica, e conviver com esse povo tão parecido connosco.

Mas a minha maior frustração é não ter podido perguntar de viva voz aos martinicanos e outros ilhéus se se sentem diminuídos na sua identidade por as suas ilhas não terem acedido à independência política. Se lhes causa algum transtorno viverem numas ilhas próximas da América, serem crioulos mestiços com uma cultura miscigenada europeia e africana, e continuarem a ter um presidente francês ou uma rainha inglesa ou holandesa que vivem a milhares de quilómetros.

Não lhes perguntaria pelo passaporte europeu, porque não valeria a pena... nós somos independentes e todos os anos, pelo 5 de Julho de 1975, gritamos de braços levantados “Viva a Liberdade”; eles não tiveram essa oportunidade, mas são livres de viajar pelo mundo, não vivem na pobreza e os seus filhos têm acesso facilitado e garantido às melhores universidades europeias. Triste liberdade a nossa...

Continua a ser difícil ser-se cabo-verdiano. Já não morremos à fome, e ainda bem, mas a nossa existência continua periclitante, incerta e cheia de dificuldades. As novas gerações, nascidas neste mundo globalizado, onde as distâncias não existem, irão cada vez mais perguntar-nos porque carga de água os outros jovens como eles podem viajar livremente por esse mundo fora e eles não. Pior ainda, porque razão, quando chegam a outros países, há jovens cabo-verdianos de primeira e outros de segunda.

E irão questionar o porquê de gerações anteriores terem tomado decisões que os condenaram a viver num país pobre e a serem pobres quando comparados com outros jovens de outras ilhas com sociedades tão parecidas com as nossas.

O que responder-lhes?

Eu vivi com entusiasmo a independência de Cabo Verde, apesar de, na altura, ter apenas 9 anos. Foi algo que marcou a minha geração para toda a vida. Mas não tenhamos dúvidas de que esse entusiasmo não enche as medidas dos nossos descendentes, filhos deste mundo global em que as referências são outras.

Regozijo-me que o nosso Matchú tenha passado a fazer parte desse pequeno lote que, na hora de viajar, se eleva ao estatuto de cabo-verdianos de primeira. Salvou-se in extremis o orgulho nacional de uma grande humilhação, que seria também um rude golpe para o nosso cada vez mais exacerbado nacionalismo.

Infelizmente, a esmagadora maioria dos cidadãos nacionais continuarão a ser cabo-verdianos de segunda e a passar pelo calvário que é ter um passaporte que não lhes permite gozar nem da facilidade de terem um aeroporto internacional na ilha onde residem.

É bom que Cabo Verde consiga rapidamente atingir outros patamares de desenvolvimento, pois, caso contrário, as novas gerações não nos irão perdoar as opções que tomámos e que lhes condicionam a existência.

Por que lá diz o velho ditado, em casa onde não há pão...  

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 810 de 07 de Junho de 2017.

terça, 13 junho 2017 06:00

13 Comentários

  • armando 19-06-2017 Reportar

    Se Cabo Verde é atlântico, São Tomé é fantástico. Cabo Verde é uma mistura de culturas. Não faz sentido estar a dizer que nós, que somos pretos, é que somos Cabo Verde e nós que somos mestiços é que somos Cabo Verde. As diferenças culturais, em Cabo Verde, justificam essa conversa? È estupidez de quem tem problemas pessoais. Pela pequena dimensão, pela história semelhante a todos, onde está essa divisão, que justifica essa conversa? Se essas diferenças fossem para formar teorias, estávamos todos nesse Mundo, em todo lado, bairro por bairro, zona por zona, terra por terra, geografia por geografia, num.jardim dimplântico-----muitos querem que assim seja: nós mais do que tu, ou então nada. A influência da cultura ocidental foi, é e vai continuar a ser em todo Mundo, a que se conhece: Na África, na Ásia, no Médio Oriente, na Tailândia e no Japão. Mas é a carta dos direitos humanos que deve comandar as leis de todos os países, independentemente das culturas locais. São direitos universais, conhecimento universal ,que não é. nem do norte, nem do sul, nem do este ou do oeste. È Africano.

  • César Palmieri Martins Barbosa 16-06-2017 Reportar

    Prezado Nunes Dias Marques

    Prezados Leitores

    Cabo Verde não é o único exemplo de país mestiço entre as ex-colonias lusófonas, pois o Brasil é, e se reconhece assim, um país mestiço, inclusive com uma forte matriz africana. No Brasil grande parte das pessoas de pele escura, pele negra se assim preferir, não é originária da África, mas dos indígenas, que já habitavam o território que hoje é o Brasil antes de Colombo chegar nas Américas.

    É inegável que o racismo existe, mas na Europa um racista não possui o limite que encontraria no Brasil ou em Cabo Verde, pois seja um qualquer, ou um racista branco, ou um racista negro, ambos de igual repugnância e dependentes entre si para existirem e se completarem.

    Creio que há uma grande contribuição nesse debate, quando djusé di kabu verdi coloca, com precisão e total pertinência que existe um terrível dilema entre ser dependente e vítima do racismo contra os negros e mestiços (todavia os ditos branco nascidos fora da Europa são tratados como crioulos, que também passou a ser sinônimo de negro), e mas possuir a liberdade de poder se beneficiar das vantagens da dependência do dominador racista, ou sutar e conquistar a independência com os sacrifícios necessários para tal, mas que são preferíveis à afronta de ser discriminado como inferior.

    Djusé distingue entre dependência-livre e independente-liberdade condicionada.

    Na dependência -livre o dominado possui determinados direitos de liberdade dentro do estado soberano a que pertence, que o cidadão independente não possui por ser estranho , pois ao conquistar a sua pela condição de independente opta por pagar o preço da perda da liberdade advinda da independência.

    No caso de Cabo Verde, o preço pago pela independência, segundo Djusé, é necessário para se ver livre da hegemonia racial a que a Nação Caboverdiana foi submetida pelo colonialismo português e europeu, e esse é um valor que ensina aos seus filhos como irrenunciável.

    Logo, Djusé não é contra a união de Cabo Verde com outro país, pois o que é irrenunciável é a independência em relação à discriminação racial e o racismo, no caso o racismo contra o negro, segundo a sua convicção,

    Creio que essa é a questão central:

    Cabo Verde deve se unir a outro país, como optaram os Açores, Madeira, Canárias e os territórios ultramarinos britânicos, franceses, holandeses e espanhóis, que estão mais ricos do que Cabo Verde, por receberem recursos de um tesouro nacional poderoso, e ainda ser beneficiados com todas as vantagens de ser uma região ultra-periférica da União Europeia, reconhecidos como cidadãos europeus, ou deve se manter independentes, na teoria, mas ser um mero protetorado na realidade, sem sequer receber a proteção mínima necessária para combater a pobreza e evitar a ameaça de uma imigração incontrolável de refugiados econômicos de outros países da África, em especial o nigerianos, pois as projeções mostram que já em 2050 a maior parte da população de Cabo Verde será composta de imigrantes de África e seus descendentes, ou mesmo garantir a segurança alimentar, agora seriamente ameaçada pelo peso da dívida, que leva o tesouro caboverdiano a um provável colapso no curto prazo.

    É preciso resolver esse dilema urgentemente, ou a bancarrota obrigará os caboverdianos, no desespero, irão emigrar para o exterior, e os imigrantes africanos irão invadir e se tornar maioria em Cabo Verde.

    Considerando que Cabo Verde não cogita se unir com algum país da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que não seja Portugal, e realizar o seu sonho europeu, ou, ainda, mais restritivamente, não deseja se unir a nenhum dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

    Logo, caro Nunes Dias Marques, estimados Leitores, esse dilema entre ser independente-dependente-de-ajuda-dos-racistas-europeus, ou se dependente-assumido-dos-racistas-europeus é a questão central que rege o actual debate estratégico e essencial para o destino de Cabo Verde, sem que se cogite uma terceira opção possível.

    É a nossa opinião, salvo melhor julgamento.

    Rio de Janeiro, 16 de junho de 2017
    César Palmieri Martins Barbosa

  • Nuno Dias Marques 16-06-2017 Reportar

    A independência de Cabo Verde e de todas a colónia portuguesas não foi defendida por considerações raciais, ou de algumas correntes racista identitárias minoritárias. De resto em todos elas haviam diferentes etnias incluindo mestiços e brancos. Cabo Verde é um caso atípico de nação crioula miscegenada como bem descreveu Almada Dias nos seus escritos. O Africano não pode ser defendido pela cor, caso contrário os que não fossem puros negros não teriam lugar neste continente.
    Em todos os movimentos de libertação das colónias portuguesas havia negros brancos e mestiços que lutaram pela independência no quadro no ideário panafricanista de Amilcar Cabral que defendia inclusivamente a Unidade Guiné Cabo Verde e a Unidade Africana já que ele percebeu que nenhum destes dois estados era viável isoladamente. Cabo Verde era uma Nação assumidamente crioula onde a presença de colonos era reduzida, logo administrada por caboverdianos. Assim as questões de racismo que hoje são trazidas ao de cima, não terão sido as que dominaram no debate da independência de 1975. Embora a questão da africanidade das ilhas ter sido defendida por Cabral, tão pouco os africanismos eram temas dos anos 60 já que a crioulidade sempre foi a trave mestra dominante da identidade da nação crioula defendida pelos Claridosos.

  • César Palmieri Martins Barbosa 15-06-2017 Reportar

    Prezado djusé di kabu verdi

    Prezados leitores

    A distinção entre dependência e independência que Djusé de Kabu Verdi nos apresenta é muito importante.

    Djusé distingue entre dependência-livre e independente-liberdade condicionada.

    Na dependência -livre o dominado possui determinados direitos de liberdade dentro do estado soberano a que pertence, que o cidadão independente não possui por ser estranho , pois ao conquistar a sua pela condição de independente opta por pagar o preço da perda da liberdade advinda da independência.

    No caso de Cabo Verde, o preço pago pela independência, segundo Djusé é necessário para se ver livre da hegemonia racial a que a Nação Caboverdiana foi submetida pelo colonialismo português e europeu, e esse é um valor que ensina aos seus filhos.

    Logo, Djusé não é contra a união de Cabo Verde com outro país, pois o que é irrenunciável é a independência em relação à discriminação racial e o racismo, no caso o racismo contra o negro, que em nosso sentir é uma das maiores vergonhas da História da Humanidade a partir do tráfico escravo atlântico, que continua a causar vítimas de forma brutal até os nossos dias, apesar da revogação jurídica da escravidão, mas que, apenas em alguns países, como no Brasil, é tratada como crime, com repressão do racismo, da perseguição religiosa e da discriminação à origem sendo aplicada de forma rigorosa, ao contrário de outras leis que não são postas em eficácia, sendo apenas letra morta.

    Assim sendo, Djusé repúdia, como inaceitável a proposta de uma fusão de Cabo Verde com Portugal, possivelmente como uma região autônoma, como Açores ou Madeira, condição sine qua non para ser parte da União Européia, sem ser parte do continente europeu (Cabo Verde não pode ser um estado membro da União Europeia, por esse motivo, e apenas pertencente a um estado membro da UE poderia ser aceito na Comunidade Europeia).

    Como não está a ser proposta uma união com o Brasil, com Angola ou qualquer outro país lusófono que não seja Portugal, e nem se tornar parte de Macau para ser parte da China, ou se tornar o 52º estado dos Estados Unidos, após Porto Rico eventualmente conseguir ser o 51º estado dos EUA, como decidido pelo recentíssimo plebiscito portoriquenho, a proposta de reunião de Cabo Verde com Portugal é completamente repudiada por Djusé, seja qual for a vantagem material que seja almejada.

    É a respeitável opinião de Djisé, com a qual se pode concordar ou discordar, mas que não se pode negar a realidade do racismo a que foi submetido, e ainda é, o povo caboverdiano.

    O argumento do racismo é forte.

    É a nossa opinião, salvo melhor julgamento.

    Rio de Janeiro, 15 de junho de 2017

    César Palmieri Martins Barbosa

  • Belarmindo SAntos 15-06-2017 Reportar

    Alguem tem de explicar qual foi preço que costou a dipendência di faz di contas.
    Como Guiné é um país soberano e não uve mortos em Cabo Verde há menos que tenham bisuntado as mãos de ninguém

  • César Palmieri Martins Barbosa 15-06-2017 Reportar

    Prezado Djuntamoh Afrikanu

    Prezados Leitores

    Djuntamon Afrikanu, em comentário ponderado e claríssimo, fundamenta o seu argumento que acusa a crônica de José Almada Dias de alienante, pois, afirma, em resumo:
    -a questão do passaporte não se justifica mesmo para o caboverdiano, como ele, quem poderia obter um passaporte europeu por ser casado com uma crioula que possui um passaporte europeu, e ele, nem sequer averbou o seu casamento para também obter o passaporte europeu;
    Que a sua condição de homem livre é fruto da independência do seu País, e essa é a sua realidade, e assim educou os seus filhos, e nem coloca para eles nenhuma dessas questões abordadas na crônica sob crítica;
    -Que sente orgulho de ser livre e independente, sem o sentimento de limitação ou de humilhação, pois é um africano, de um continente rico e que proporciona ensino, cultura,saúde, turismo e muito mais, e que há possui um dos seus filhos estudando em um país africano, por opção, em detrimento de estudar em Paris, e outro, sem complexo de inferioridade, que também pensa igual; .
    -que poderiam estudar em Portugal, Brasil, Canárias e tantos outros destinos, mas a África pode dar-lhes tudo que querem e necessitam, e muito mais, como cidadãos de primeira, com respeito e consideração, sem ser discriminada e até vista como uma criminosa em razão da sua origem, além de possuir a liberdade de circulação em mais de uma dezena e meia de países da sua região africana, sem a ideia fixa na Europa ou na América, que na realidade prejudica os que discriminam, no caso própria Europa ou a América;
    -que de nada adianta a independência política de Cabo Verde se a mente de alguns continua colonizada;
    -conclui, citando um provérbio da região do Senegal e da língua mandinga que, em resumo, diz que devagar e sorrateiramente o subserviente procura por um dono.

    COMO BRASILEIRO ME SINTO OFENDIDO PELA ACUSAÇÃO DO BRASIL TRATAR OS CABOVERDIANOS COMO LADRÕES

    "Es pudia stode ta ba pa Purtugal, Brasil, Kanarias... ma, sede es prendê ke sis kontinente podê das tude kel k'kes lugar la ta das y mute mas.
    (...)"

    "Sis profesor ka ta dskriminal, nen prusdikal na sis nota pur el ser ken k'el e; nen ningen ka ta oial kome ladron konde el ta entrá na un loja, nen es ka ta rakuza sirvil o finjí ka oial konde el ta entrá na un restorante."

    Sinto-me discriminado e atacado, injustamente, por uma afirmativa preconceituosa e que não corresponde à realidade que os caboverdianos desfrutam no Brasil, como imigrantes, estudantes com bolsas pagas pelo tesouro brasileiro, ou como turistas, e que a recíproca é verdadeira dos braqsileiros em Cabo Verde que são distinguidos com respeito, e a morabeza que só os caboverdianos sabem oferecer.

    No brasil, inclusive, é crime grave, investigado e punido com rigor, o racismo ou qualquer discriminação em relação à origem ou religião.

    O grande respeito e consideração que os caboverdianos conquistaram no Brasil pelas suas excelentes qualidades, na quais se destaca a morabeza, não se coaduna com esse triste ataque que Djuntamoh Afrikanu generaliza contra os brasileiros, e não se coaduna com a excelente relação que Cabo Verde e o Brasil possuem, até por se identificarem como mestiços, crioulos e com raízes africanas.

    Se entendi mal, por favor me corrija, mas creio que o ataque é evidente e claro.

    Para enaltecer a África não é necessário diminuir e desqualificar o Brasil e os brasileiros.

  • djusé di kabu verdi 14-06-2017 Reportar

    Caro Senhor Almada,

    O Senhor escreve artigos de uma qualidade social e humana que eu pessoalmente sempre apreciei, lamentavelmente desta vez tenho que dizer-le de que nao condivido esse teorema dipendente-livre melhor de que indipendente-liberdade condicionada, sabemos o preço que costou a nossa liberdade, seria mais dignitoso pensar em explicar aos meus filhos os valores da liberdade de que justificar o facto de nao poder aceder com a mesma facilidade dos outros ilheus nas fronteiras europeias, esses valores, para quem tem o respeito da consciencia do que foi a supremacia hegemonica racial cujo o nosso povo, a nossa sociedade foi submitida desdo acto da sua formaçao nao meteria em duvida mesmo por um segundo a opçao independecia a «dipendencia»

  • Francisco Duarte 14-06-2017 Reportar

    Saul Falando das ilhas crioulas não independentes, por exemplo ,falemos das Caraíbas que fizeram a escolha acertada, mesmo referendado, escolheram a não independência. Preferiram passaporte luso francês ou espanhol. Em que é que estes povos são mais ou menos alienados e tâm mais ou menos dignidade, só porque teriam um estado, dito soberano e independente, mas eternamente dependente, com uma elite a viver das migalhas independência com um povo miserável? A Madeira, os Açores e as Canária graças aos fundos europeus, de que Cabo Verde não beneficiou por ser independente, conseguiram criar uma economia rela e hoje são das regiões mais ricas de Portugal e Espanha. Inclusivamente devido ao acumular de capital, hoje têm empresas e empresários privados que conseguem investir em Cabo Verde e em África. Onde está a nossa dignidade de mão estendida, se nem o Estado é capaz de ter uma empresa que funcione minimamente? As boas intenções está o inferno cheio.

  • César Palmieri Martins Barbosa 13-06-2017 Reportar

    Para facilidade dos leitores e do debate das ideias, segue abaixo os nossos comentários na edição de 7 de janeiro de 2017, na reportagem do jornal on line Expresso das Ilhas, sob o título - Perspectivas para 2017 -

    http://www.expressodasilhas.sapo.cv/sociedade/item/51572-perspectivas-para-2017


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    "A GEOPOLÍTICA CABOVERDIANA -

    NÃO É ÁFRICA, NÃO É EUROPA E NE
    M É AMÉRICA DO SUL -TRATA-SE DE UM PAÍS ARQUIPÉLAGO ISOLADO NO MEIO DO OCEANO ATLÂNTICO.

    A geopolítica não é geografia.

    A posição geográfica é um dos elementos importantes, e em muitos casos determinante, da geopolítica, mas as ligações políticas podem determinar uma realidade geopolítica diferente das divisões continentais.

    No caso de Cabo Verde, um país arquipélago estrategicamente localizado nas rotas entre a África, a América do Sul e a Europa, e mais remotamente com a América do Norte e até a Ásia, é imperativo se definir qual o continente no qual Cabo Verde dará prioridade na sua geopolítica.

    Se a África é o continente mais próximo, todavia a Europa é o continente mais importante sob todos os aspectos, em especial os econômico, cultural e político.

    Mas ao contrário dos outros arquipélagos da Macaronésia, as Ilhas Madeira e Açores (Portugal-UE) e as Canárias (Espanha-UE), Cabo Verde após a sua independência declarou, mas não cumpriu, a sua opção pela África e a africanização.

    Por pior, tentou se incluir na União Europeia, como um país independente e D'África, sob o eufemismo de parceria estratégica, e não conseguiu sequer uma espécie de assemelhamento com as regiões ultraperiféricas da UE, todas elas partes integrantes de algum país membro da União Europeia.

    Existem alternativas de associação, como estado associado, nos moldes de Porto Rico e os Estados Unidos, ou como membro integrante da federação, ou ser uma província de um estado unitário.

    Cabo Verde não cogita se unir com algum país da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), ou ainda mais restritivamente os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

    Cabo Verde, após a independência, já foi um estado associado com a Guiné Bissau, com um modelo dois países, um só partido, mas a união foi mal sucedida e acabou.

    No âmbito da CPLP, para sair do campo dos meros discursos de integração e receber recursos orçamentários e todo o apoio de um governo central forte, Cabo Verde possui as opções dos estados unitários de Portugal e Angola, e a federação brasileira, pois os demais países da CPLP, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Timor-Leste e Guiné Bissau ainda estão em um estágio que não agregariam os recursos financeiros, orçamentários e demais serviços que Cabo Verde necessita, na ordem de grandeza de mais de 10 mil milhões de dólares por ano, durante muitos anos, para atingir o actual nível de padrão de vida das Ilhas Canárias, Açores e Madeira, como um exemplo próximo de potencial econômico evidente na própria Macaronésia.

    A época do crescimento e euforia econômica em Portugal, Brasil e Angola, agora se transformou em uma grave crise econômica, que pode se aprofundar em um pior cenário possível, pior até do que a crise de 29.

    Logo, Cabo Verde como país independente, que nem se encontra inserido efetivamente na integração geopolítica da África ou da Europa, e com grandes afinidades culturais com Portugal, Brasil e Angola, mas que não se traduzem em solidariedade e recursos orçamentários e demais riquezas de um país mais forte para garantir a segurança alimentar, energética, de seguridade social, previdenciária, segurança pública e social, saúde, energia, comunicações, transporte, financeira, e principalmente, o custeio de uma administração pública que seja a principal atividade econômica de Cabo Verde, como ocorre com o Hawaii, ou com os estados brasileiros de Roraima e Amapá, nos quais os recursos investidos nesses dois estados brasileiros, ilhados pela amazônia pela federação brasileira, que custeia as suas administrações públicas, que são a sua principal atividade econômica.

    Os recursos gastos pela federação brasileira nesse dois estados amazônicos, ainda com pequenas populações, é superior aos seus próprios produtos internos brutos.

    Por esses motivos, creio que Cabo Verde é, geopoliticamente, um pequeno país arquipélago isolado no Oceano Atlântico, abandonado ao destino, sem mecanismos geopolíticos que ultrapassem os níveis insuficientes da caridade internacional e dependente de um acordo cambial com a União Europeia, de conversibilidade entre o escudo caboverdiano e o euro, tendo que pagar o preço de entregar os seus recursos de pesca, turismo e demais ativos escassos para receber a ajuda cambial dentro dos seus estreitos limites, o que está a acarretar, no momento, o acelerado endividamento insustentável de Cabo Verde.

    Se as quatro eleições que ocorrerão nesse ano de 2017, na Itália (fevereiro), Holanda (março), França (abril) e Alemanha (setembro), nas quais a permanência desses países na União Europeia e no euro estarão no centro da decisão política, a União Europeia e o euro estarão em causa, principalmente no caso de resultado adverso em França ou na Alemanha.

    Logo, Cabo Verde necessita ter uma decisão estratégica que defina essa sua crise de identidade, em razão da gravidade da actual crise mundial.

    É a nossa opinião, salvo melhor juízo.
    Rio de Janeiro, 7 de janeiro de 2017
    César Palmieri Martins Barbosa"
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  • Nuno Ribeiro 13-06-2017 Reportar

    Este assunto é tabú. Muita gente já começa a pensar como José Almada Dias, em que barco é que nos metemos. O neocolonialismo doi.

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