Expresso das Ilhas

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A infantaria da in(segurança)

Não obstante o mito dos direitos humanos, a tradição elitista e política que comanda a base da infantaria impede a lucidez sobre a violência mínima e, por sinal, a compreensão dos problemas da Polícia Nacional e da violência máxima. Entre uma e outra, há uma sinergia politica impressionante.

Ou seja, a estrutura do problema da violência é bem maior, porém, mais fácil de solucionar, se percetíveis nos seus pormenores. Deste modo, compreender a violência desta nossa urbe se passava por captar o pressuposto básico da questão. A “violência gera violência”, sabemo-la, mas ignoramo-la, teimosamente: Há, no entanto, uma dupla violência sútil que carateriza a nossa in (segurança): uma de cariz social e outra política. Nenhuma delas deve ser subestimada, mas a politica nos interessa e é a mais medíocre e cruel. Compreender-se-ia, pois, a violência, o quanto antes, se compreendêssemos a estrutura do problema, inclusive, o seu lado politicamente oposto.

Sendo ela um problema sociopolítico é, pois, problematizável, a vários níveis. Analisada em termos políticos, dizia Hannah Arendt, “a democracia é incompatível com a violência”. Ou seja, o poder só se farta a si mesma com a devida autoridade politica e se lha retirarmos, morre asfixiada. A nossa luta sindical, fizemo-la diplomaticamente. Quisemos uma solução razoável para todos. Tivemos uma posição, pública, comedida. Quisemos abraçar os governos. E, só temos de estar comprometido com as mudanças positivas deste país. Ou seja, no fundo, não se quis inventar nada. Quão mal, se dissesse que o sindicato é um parceiro temido do governo, mas que está numa situação de rastos, sob falsa diplomacia!

Será que o Governo se tem mostrado interessado, ou muito aquém, frio e distante? O poder politico, por costume, tem tudo e nada e, nestas lides, quem tem poder e força manda, quem não as têm (a polícia) obedece. Entretanto, o poder não vele nada sem autoridade política. Ciente disso, quisemos, por excelência, o diálogo, todavia, em vão! Ou não?

As verdadeiras circunstâncias e condições precárias em que labora a Polícia Nacional Cabo-verdiana e descritas, em 2016, no relatório do SINAPOL são, de todo, as linhas internas tradicionais e politicamente proteladas, na maioria das vezes, por vaidade, sendo quantas vezes, sem importância, nem urgência. Por este caminho questionar-se-á, sempre, se o Estado quer ter uma polícia, besta ou sábia?

Ora, a área da in (segurança) está numa encruzilhada interna! A polícia ainda não saiu do estado de gandaia laboral. Os anjos da urbe fogem truculentamente de ágora. O fogo se vai extinguindo com o fogo. A fumaça e cheiro do espetro se vão espalhando nos ares e por, aí, além, a poeira. Entretanto, a sensação estranha é a de que tudo está, aparentemente, calmo.

A violência tem destas: as promessas saíram do papel? Os compromissos foram honrados? Ao que parece, tudo se mantém “sine die”, enquanto os profissionais se fingem num sono letárgico, para não acordar a violência máxima ou o próprio terrorismo do Estado. 

Ora, o que é que se nos coloca, doravante, enquanto força policial? Desistimos das causas? Ou continuar-se-á a luta, por outras vias? Por mim, (por nós mesmos, nestas circunstâncias), lutar-se-ia até ao fim! Se dantes se convinha o barulho do silêncio. Convém a paz necessária, digamos, que o cerne da questão não é política. Ao governo só lhe foi dada, contudo, a oportunidade para resolver o problema da in (segurança), respeitando, também, a dignidade laboral, salarial e profissional da classe.

O cruzar os braços – é apenas uma expressão de luta, porém, sem violência, A par disto, se morre ou à pancada ou à fome! Ora, o estado de promiscuidade e condições precárias de trabalho continuam fustigando a Polícia Nacional Cabo-verdiana. Ou será que a presente condição laboral não influi negativamente nos “modos operandos” e o sucesso previsto.

O poder politico é eleito para promover a segurança, não para impor, a qualquer custo, a in (segurança). Só mesmo na convicção, se haveria de encontrar o caminho para a dignidade profissional, quiçá, o “input”, chave. Ademais, os profissionais desta pirâmide representam a infantaria, soldados que estão, sem dúvidas, indignados, insatisfeitos e, precisam avançar no terreno, ainda que sem apoio. Um bom Governo deve se preocupar com a situação laboral dos seus peões. Deve ocultar, os seus vícios. A PAZ, fazemo-la, juntos, para o bem comum, livrando-a do lume brando e do inferno. Livrando-a da violência psicológica.

Não nos esqueçamos que a deflação não convenceu a infantaria. A atualização salarial da PN é o incómodo, o bicho de 7 cabeças, mas esse processo algo ficou hipotecado. E, agora? Cada qual bate palmas a, seu “bel-prazer”. Eu fiz, na qualidade de sindicalista e modéstia parte, (porque fizemos) o jogo “inteligente”, porque estive (ou estivemos) do lado da paz, digamos, do lado mais fraco, sem forças, nem violência.

Portanto, o futuro dita maior responsabilidade ao Governo. Os peões continuam remando a embarcação, horas excessivas, promoções em banho-maria, remunerados em crise, carga as costas, salário de miséria, em fim, triste, porque nenhum poder se lhe conforma. Tais problemas, digamos, que são fúteis, contanto que a in (segurança) interna esteja, nos limites, aparentemente compreensível. Do que mais se espera?

O pano cairá: os mestres e doutores nunca quererão pernoitar à porta dos outros, enquanto a política se vai apodrecendo, entre mãos. A polícia devia ser tratada, nesta presente conjuntura, com choque motivacional, sem cantigas. Mas a democracia, dela, se dista. Alias, como dizia alguém, “… se fossemos um povo de Deuses governar-se-ia democraticamente”. Ou será que a in (segurança), de fato, ainda não veio a lume? É preciso que ela se instale verdadeiramente. Ou não?

Não é favor, algum, uma lufada de ar fresco. Por mim, por nós, à polícia se pagava bem, se exigia mais e não se falava mais no assunto, mas muitos, ao invés disso, queiram que se lhe pague mal, se lhe exige ainda mais e que nem se falasse mais no assunto. Ora, o futuro da in (segurança) se prepara e a vida é feita de opções. Afinal, é uma questão política!

A verdade solta é, por vezes, uma confusão tremenda: ou a sociedade civil não sabe lá bem o que se lhe espera, ou só os Governos sabem muito e vão adiando no que podem. Ou, também, os profissionais da polícia estão, digamos, desorientados e malucos, confusos entre paz e guerra. Os peões, os injuriáveis, também, são manipulados e não conseguem, se quer, abrir a boca. A elite, por vezes, cor-de-rosa, mas de frete tonta. Por aí adiante, se calhar, todos têm razão, menos o sindicato!

Ora, insurge-se-nos pela tarefa que as reclamações fossem definitivamente atendidas. Porém, a prometida motivação e dignidade salarial de que se falou- para 2017, delas, ainda, nada se viu! De largos anos de atraso e de fardos às costas, março de 2017 a Zero. Que futuro? Qual seria o peso da nossa responsabilidade e da in (segurança) para os anos de 2017,2018,2019, 2020, etc? – Possivelmente - a maior de todos!

De outro modo, o que é que se nos espera? Será uma sociedade, tipo, tranquila, pacífica? Uma cultura de valores morais invejáveis? Uma bênção papal?! Afinal, o que é que se nos motivará? Haverá (qual será) o choque de in (segurança)? A polícia está preparada, engajada e motivada?

Porém, nos próximos dias continuar-se-á, ou não, a polícia, politicamente, a mais corrupta da praça? Não será ela, a maior esperança da maioria dos cidadãos cabo-verdianos? Vai, ou não, estar a sociedade civil de costas voltadas para com a Polícia? O cidadão comum se arriscaria, hoje, colaborar com a polícia e realização devida da justiça? A sociedade que se nos avizinha será, cada vez, mais violenta ou pacífica? Tal futuro, será de contrassenso ou simplesmente de deceção sociopolítica?

Brevemente encontrar-se-ão as chefias e os Comandos da PN, quiçá, para discutir, em tese, o espetáculo da PAZ nacional, analisar e avaliar os segredos da violência: o oposto dos direitos e interesses da classe. Caso contrário, não haveria comes e bebes que chegassem. A violência é tudo isto: política de guerra e paz, em que alguém haveria de aguentar a infantaria e os peões. Na verdade, o jogo é sujo e duro, o resto que se lixe!   

*Presidente do SINAPOL

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 798 de 15 de Março de 2017.

segunda, 20 março 2017 06:25

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