Expresso das Ilhas

Switch to desktop Register Login

O Escravo de Evaristo d’Almeida em Reedição

‘Na Esquina do Tempo’, um projecto nascido em Agosto de 2009, que depois virou livro – Crónicas de Diazá – passou a blogue, voltando a ser de novo livro – Crónicas de Mindelo – é, a partir de agora e com uma regularidade quinzenal, página impressa de jornal.

O autor de O Escravo, o primeiro romance de temática cabo-verdiana, publicado em 1856, é uma figura curiosa e intrigante pelo facto de que a sua vida e obra são pouco ou nada conhecidos.

José Evaristo d’Almeida é português reinol cujas origens e data de nascimento e morte continuam sendo desconhecidas. Sabe-se que foi escrivão, funcionário da Fazenda, colocado em Cabo Verde, segundo João Nobre de Oliveira, pelo menos desde 1 de Julho de 1844, data da sua nomeação como Oficial da Contadoria Geral de Cabo Verde. Em 1849 foi eleito deputado por Cabo Verde às cortes de Lisboa. Constituiu família e deixou descendência na ilha Brava. Colocado na Guiné, viria ali a falecer (conferir A Imprensa Cabo-verdiana, Macau, 1998).

Das suas actividades de literato tem-se também informações escassas. Sabe-se que Evaristo d’Almeida foi redactor do Boletim Official do Governo Geral de Cabo-Verde (fundado em 1842), com colaboração na secção Interior, “Parte não Official”, que incluía notícias diversas, anúncios particulares, crónicas, poesia e ficção, esta, em forma de folhetim.

Em 1852 José Evaristo d’Almeida editou em Lisboa uma brochura de oito páginas, na verdade, um longo poema de 223 versos, Epístola a ***, no qual faz referência à sua vivência em Cabo Verde e fornece informações sobre a sua vida que o coloca em Cabo Verde, não em 1844, mas, em 1825, com quinze anos de idade, tendo vivido, portanto, os acontecimentos de 1835, o fundo histórico do romance O Escravo. Sabendo a idade com que terá chegado a Cabo Verde (quinze), mais o tempo cá vivido (doze anos), fica como data provável do seu nascimento o ano de 1810.

Intriga, contudo, o facto de o anuário Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro, três anos depois de começar a ser publicado em Lisboa, ou seja, em 1854, registar, até o seu término, em 1932, colaboração dos principais letrados de Cabo Verde – Antónia Gertrudes Pusich, Guilherme da Cunha Dantas, Luís Medina e Vasconcelos, Eugénio de Paula Tavares, José Lopes da Silva e tantos outros – onde passaram a expressar-se, pelo simples facto de que “nós não tínhamos onde publicar nossas produções senão naquele festejado anuário”, segundo José Lopes (“Os Esquecidos”, in Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, Praia, Agosto.1952), e nele não figurar nenhuma colaboração de Evaristo d’Almeida.

É nesta circunstância que, sem produção literária significativa para além dos pequenos textos publicados no Boletim Official, Evaristo d’Almeida dá à estampa, em 1856, o romance O Escravo, uma obra marcante, fundadora da ficção e da literatura cabo-verdiana. Nesse género, só onze anos mais tarde voltaria a haver uma nova obra de ficção, Contos Singelos (Mafra, 1867), de Guilherme Dantas, contendo os contos ‘Cenas da Ilha Brava’ e ‘Cenas de Mafra’.

É igualmente intrigante o facto de, depois da publicação de O Escravo, nunca mais se ter encontrado nada que Evaristo d’Almeida tivesse publicado, nem mesmo no Almanach Luso-Africano de 1895 ou de 1899. Teria José Evaristo d’Almeida morrido nos finais de oitocentos, no século XIX, portanto, e não nos inícios de novecentos, no século XX, como se tem aventado até então? A meu ver, é o mais provável.

Amiro Pinheiro Faria, numa conversa telefónica de 29.Março.2016, lançou novas luzes sobre a morte do trisavô. Transferido de Cabo Verde para a Guiné, Evaristo d’Almeida viria ali a morrer seis meses depois, eventualmente em 1856, e, no mesmo dia, a esposa Emília Clementina Marques, vítimas da biliosa – uma forma de paludismo muito frequente nessas regiões – confirmando, assim, que Evaristo d’Almeida teria morrido ainda novo, provavelmente com 46 anos.

O tetraneto Luís António Martins Pinheiro de Faria, a viver nos Estados Unidos da América, em nota de 01.Abril.2016, informou que Evaristo d’Almeida teve uma filha, Maria da Penha Almeida, que se casou na Brava com Júlio Tolentino Pinheiro do qual nasceram 4 filhos: dois rapazes e duas meninas. Não há muitos descendentes, uma vez que as netas não se casaram. Está ainda viva nos Estados Unidos, de perfeita memória e saúde, uma única bisneta, Jovina de Azevedo Pinheiro Araújo, que, em Novembro próximo, completa 100 anos.

Ocorre-me que as dezasseis cartas publicadas no Boletim Official do Governo-Geral de Cabo-Verde, secção Interior, “Parte não Official”, nos números 61 a 110, entre Junho de 1844 e Outubro de 1845, reportando-se ao segundo volume da Corographia Cabo-Verdiana, de J. C. Chelmichi e F. A. de Vanhargen (Lisboa, 1841), assinadas por Um Sempalhudo, até hoje não identificado, possam ser da autoria de José Evaristo d’Almeida, redactor dessa “Parte não Official”.

Todas essas questões aqui levantadas podem servir de hipóteses de estudo e, eventualmente, trazer novas luzes sobre esse autor para uma melhor compreensão da sua obra.

O Escravo, saído em Lisboa em 1856, veio a ser publicado no jornal A Voz de Cabo Verde (Praia, 1911-1919), em formato de folhetim, do número 244 ao número 294, entre Maio de 1916 e Maio de 1917. Contudo, só em 1989 o livro voltaria a ser editado. De há uns anos a esta parte, O Escravo, cuja edição se esgotou, desapareceu da circulação.

Graças ao Pedro Cardoso Livraria, O Escravo volta ao convívio dos leitores, enriquecido com um prefácio de Fátima Fernandes, Doutora em Letras/Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, docente da Uni-CV. 

 

A abrir esta parceria Expresso das Ilhas/Esquina do Tempo, um tema da literatura das ilhas:Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 749 de 06 de Abril de 2016.

segunda, 11 abril 2016 06:00

Deixe um comentário

Os campos com (*) são obrigatórios.

Expresso das Ilhas

Top Desktop version