Expresso das Ilhas

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Ministro da Cultura:“Há 10 ou 20 mercados da música no mundo e um deles acontece em Cabo Verde”

A menos  de um mês da segunda edição do Atlantic Music Expo, o ministro da Cultura condeceu ao Expresso das Ilhas uma grande entrevista em que aborda todos os aspectos ligados a esta grande montra da música internacional.  Mário Lúcio Sousa mostra-se bastante optimista com esta segunda edição que dos oitenta inscritos internacionais passou este ano para mais de duzentos. Também a nível a nacional os números deixam-se ver: passamos de trinta inscrições do ano passado para noventa este ano”. Agora o grande objectivo é alargar o AME a outros eventos.

 

Expresso das Ilhas – Podia fazer um breve balanço do que foi a primeira edição do AME e quais as perspectivas para esta segunda edição?

Mário Lúcio Sousa – Ficamos muito satisfeitos com a realização do primeiro AME (Atlantic Music Expo), porque conseguimos trazer para Cabo Verde um dos mercados da música mundial. Ou seja, se há 10 ou 20 mercados da música no mundo, um desses mercados acontece em Cabo Verde. Conseguimos também que na primeira edição estivessem cá pessoas de mais de trinta países; conseguimos que viessem os maiores profissionais da música da actualidade, desde produtores, managers, editores, donos de estúdios, salas de espectáculos e de óperas e dezanove jornalistas internacionais. Conseguimos ter aqui mais de seiscentas pessoas a participarem directamente. Foi também um avanço importante porque tivemos 13 municípios a participar e vários artistas cabo-verdianos. Os objectivos foram completamente alcançados e, para nossa satisfação e para o orgulho de Cabo Verde, o AME entrou, logo na sua primeira edição, no circuito dos mercados na música do mundo. Outra parte importante para nós é que, logo na primeira edição, houve várias consequências positivas, tanto na exportação da música de Cabo Verde, como na dimensão que demos a outros artistas internacionais que participaram nesse mercado.

 

Como está a carteira de inscritos para este ano?

No ano passado nós tivemos oitenta inscrições internacionais e este ano tivemos mais de duzentas inscrições internacionais, porque há cada vez maior difusão do mercado. É dessas duzentas inscrições que são seleccionadas dez ou doze para os showcases. Portanto, triplicamos os números e isso é muito bom. Também a nível nacional, passamos de trinta inscrições do ano passado para noventa este ano.

 É um aumento muito significativo. Em relação aos delegados internacionais desses profissionais da música do mundo, já temos neste momento confirmado mais de sessenta desses profissionais que nos interessa que venham; vinte e cinco jornalistas internacionais confirmados; também aumentou significativamente o número de delegados, que são pessoas que se inscrevem e pagam todos os seus custos para estarem presentes aqui na Praia. Este ano temos a participação da Ásia: já temos a confirmação da Malásia que vem para fazer a promoção do país, que é uma nova dimensão do mercado. Há stands só para promover o país como destino turístico dentro do AME. Há vários profissionais que nós nem conhecíamos e que reservarem stands para fazer a promoção das suas actividades. Quer dizer que o mercado está a ter uma grande dimensão internacional.

 

Significa que a nível nacional ainda não se entendeu bem este conceito de mercado?

A nível internacional os profissionais estão há mais de trinta anos nessa lide. A nível nacional estamos ainda a criar essa consciência, a reforçar a capacitação. Por isso, no AME há formações para justamente capacitar os nossos produtores e agentes nessa área da música. Este ano tivemos boas surpresa, porque, além de termos triplicado o número de artistas, vimos agora que várias produtoras nacionais vão ter stands no AME. Isso mostra que já há uma compreensão do que é o mercado. Pelas informações que eu tenho, quase todas as grandes produtoras nacionais (tanto de discos como de espectáculos) vão ter este ano stands no AME. Pouco a pouco haverá mais compreensão e mais formação e poderemos tirar maior partido ainda desse mercado em Cabo Verde.

O AME pretende promover a música nacional e o seu mercado a nível internacional. Quais desses objectivos foram alcançados na primeira edição?

Conseguimos trazer vários outros mercados da World Music para Cabo Verde, o que não é comum que aconteça. Mas a nossa filosofia desde o início foi dizer ‘não vamos ser um mercado concorrencial’. Nós queremos que os mercados se encontrem num outro mercado e façam negócios, mas também que se juntem e criem aqui uma plataforma global do mercado. Por isso é que conseguimos trazer, por exemplo, a WOMEX (Word Music Expo, um dos maiores mercados internacionais de música e o maior na área da Música do Mundo), mas também tínhamos aqui a Babelmed, que é o mercado da música do Mediterrâneo, com sede em Marselha, o Porto Musical do Recife, a Feira da Música do Ceará, o IOMA , Indian Ocean Music Association, Mercado da Música da Ilha da Reunião, entre vários outros mercados. Tivemos a capacidade de nos transformarmos nesse centro global nessa altura. De todos os mercados internacionais, o AME é o que tem maior participação de africanos. Isto por causa da nossa posição geográfica. Julgo que pelo facto de estarmos aqui perto do Brasil, do continente africano e perto também da Europa, ajuda que o nosso mercado seja um ponto importante de encontro dos profissionais de todo o mundo.

Conseguimos essencialmente que entrássemos nessa rota e que também fossemos considerados como um ponto importante para o negócio internacional na área da música: tanto de instrumentos como espectáculos, de agenciamento e de gravações. Por aí, as coisas vão-se a pouco e pouco despoletando em mais estúdios de gravação, mais produção de espectáculos… agora, as consequências no intangível levam algum tempo a acontecer, não são mesuráveis do mesmo modo que no domínio do tangível, os resultados devem ser esperados a longo prazo e nos detalhes, nas transformações, nas dinâmicas das cadeias de valores. Mas o importante é que essa semente já está lançada.

É importante entender que as economias criativas são um conceito definido pelas Nações Unidas como sendo toda a produção que tem como valor agregado o intangível, seja este a história, o património, a ciência, a inovação e o conhecimento. E a Cultura, no seu geral, vai desde o tradicional ao contemporâneo. Aqui em Cabo Verde, o que nós queremos compartilhar com a sociedade é que o que fazemos na área da cultura, desde a transformação alimentar, passando pelo artesanato, a moda, o design, a arquitectura, o software de lazer e pelos vários domínios das artes – tudo isso representa uma grande cadeia económica. É um sector muito forte e, assim como há a economia clássica como modelo de desenvolvimento, pode também haver um modelo de desenvolvimento baseado nas economias criativas. Esse é um conceito mundial e que nós aqui estamos a trabalhar. A apropriação e aplicação desse conceito vai estimular a sociedade no sentido em que toda a produção nessa área seja considerada, para além da criação, também um bem com um valor extraordinário. Há dados que mostram que Cabo Verde tem também essa potencialidade, porque nós somos um povo nascido do encontro de culturais: temos uma grande capacidade de inovação e é isso que nós queremos utilizar para transformar a nossa economia. Falamos não só do Carnaval, das Festas de Romaria, da Música, mas também das Artes Plásticas, do Cinema e de todas essas áreas; temos que saber que elas empregam uma enorme quantidade de gente. Se houver essa perspectiva de que estamos a falar de um sector também de importância económica vital, poderá haver mais investimento público, mais encorajamento privado e mais financiamento para esse sector. Isto vai beneficiar as pessoas que trabalham nessa comunidade. Portanto, não é uma criação minha. Estamos a trabalhar em afinação com as Nações Unidas e apenas queremos que haja esse entrosamento. Porque a política pode ser delineada aqui no ministério da Cultura, mas é na sociedade civil que a economia criativa e a produção cultural acontecem.

 

Como é financiado o AME este ano?

No fundo, o financiamento do AME é garantido através da captação de recursos, porque o AME não está no orçamento do ministério da Cultura. O que nós fazemos é procurar parceiros internacionais, tanto privados como instituições internacionais. Por exemplo, obtivemos o financiamento do Sistema das Nações Unidas em Cabo Verde; obtivemos um grande financiamento da Cooperação Luxemburguesa. É basicamente com esses dois financiamentos, mais os patrocínios normais que se consegue angariar, que nós financiamos o AME.

A nossa perspectiva é que a partir de 2016 o AME passe a ser um evento completamente privado, e os privados é que vão então captar esses recursos. Evidentemente que o Estado estará na disponibilidade de apoiar na captação de recursos, pois defendo que deverá haver ainda uma parceria até o mercado ganhar a sua sustentabilidade completa. Mas já não será da responsabilidade do Estado o financiamento do AME.

 

No ano passado treze municípios apresentaram-se aqui, para divulgação da cultura e músicas dos seus concelhos. Há este ano maior participação?

Este ano superamos esse númer, porque, para além dos do ano passado que se mantêm, alguns municípios que não participaram, estarão presentes este ano. Mas também temos uma novidade que são os produtores nacionais. As produtoras nacionais já reservaram online os seus stands e também (o que não aconteceu o ano passado porque tivemos poucas reservas internacionais online de stands) este ano já temos várias reservas de stands internacionais online. Não sei a que números vamos chegar, porque ainda continuam a entrar reservas, mas provavelmente duplicaremos esse número, porque a nível nacional, no ano passado, apenas 13 municípios e quatro ou cinco produtores e intervenientes adquiriram stands. Este ano, entre internacionais e nacionais, já ultrapassamos o número de quarenta reservas de stands.

 

Este ano eu pessoalmente fui a todos os municípios e reuni-me com as todas as Câmaras, mas também com os artistas, não só músicos, exactamente dialogando, socializando e explicando o que é isso do AME, como é que funciona, etc. Temos o compromisso de todos os municípios estarem presentes: para além da Praia, temos mais 21 municípios. Inclusive há uma parceria entre esses municípios e o ministério da Cultura para ajudar na deslocaçã, ou estadia das caravanas dos municípios que têm alguma dificuldade. Nós prevemos isso no orçamento do ministério, não do AME, para facilitar a circulação interna dos municípios. Pessoalmente eu defendo que, por sermos um arquipélago, deve haver, na política cultural, um incentivo à mobilidade. E temos feito isso com frequência, ajudando os artistas a se deslocarem de uma ilha à outra. Com base nesse protocolo muito bom que temos com a TACV, temos impulsionado enormemente a exportação da cultura, ajudando os artistas com as passagens e com a facilitação de vistos a fazerem a deslocação ao exterior.

 

Nos showcases do ano passado actuaram 75 por cento de artistas nacionais e apenas 25 por cento eram internacionais. Qual foi a ideia?

Os mercados internacionais têm uma regra muito rígida. Para que se ganhe credibilidade, dão o mesmo tratamento a todo o mundo que apresentar a candidatura. Nós o que fizemos? Sendo o mercado em Cabo Verde, e por sermos um país arquipelágico, e com uma dimensão musical extraordinária, houve um entendimento entre os mercados em que houvesse uma quota para o mercado nacional. No início até discutimos se haveria de ser cinquenta/cinquenta, mas aí conseguimos chegar a 70, 75. Portanto, dentro das candidaturas, nós temos sempre mais quatro ou seis grupos nacionais em relação aos internacionais. Isso permite-nos vender mais a nossa música e defendemos isso justamente pelo facto de sermos um país arquipelágico. Somos nove ilhas habitadas e essa gestão teria que passar necessariamente por uma quota nacional que fosse superior à internacional. Isto foi aceite, é pacífico e é muito bom. Como disse, conseguimos fazer isso por causa da força de música de Cabo Verde. Os profissionais que vêm dizem ‘muito bem, posso comprar a música deste ou daquele país, mas eu gosto da música de Cabo Verde’. Tivemos experiências muito interessantes, porque depois dos showcases, vários dos profissionais iam às discotecas, aos bares, ainda a continuar a procurar a música de Cabo Verde. E descobriram vários valores. Vários desses artistas já foram ao Brasil, já foram a Portugal fazer shows. Isto é uma vantagem de trazer cá o mercado…

 

Com o objectivo de promover a música nacional e o seu mercado a nível internacional.

Aqui há vários objectivos. O mercado promove muito o país. Isto é muito forte, porque possibilita-nos aproveitar a marca Cabo Verde, vender o país como destino turístico e expor também a nossa cultura. Mas ao mesmo tempo, como é um mercado de música, o chamariz de trazer os profissionais internacionais para se candidatarem aqui, porque os grandes decisores na área da música mundial estão cá, faz com que o AME se torne apelativo. Mas ao mesmo tempo nós entramos para expor ao máximo a nossa música. Tivemos no início muita discussão com os experts internacionais se íamos criar um mercado só sobre a música de Cabo Verde. Disseram-nos ‘isso não vai funcionar’, porque as pessoas vêm num ano, vêem o que há e como vivem disso e têm muito que fazer, não vão só para ver a música de Cabo Verde. Tentamos o mercado da música africana. Também fomos aconselhados a não nos restringirmos à música africana, porque outros mercados têm a pretensão de fazer isso. Por isso é que nos abrimos para a área do Atlântico, e entram aí todos os géneros de música, abrimo-nos a todo o globo. Esse foi, a nosso ver, a grande vantagem do nosso mercado.

Neste momento já estão divulgados. Mas porque é que os nacionais levam mais algum tempo? Porque nós lançamos a candidatura para nacionais e internacionais na mesma altura e a data última da inscrição era 6 de Novembro, porque tudo isto é trabalhado no âmbito dos mercados internacionais que têm as suas regras. Há um consórcio, incluindo o WOMEX, que nos ajuda a lançar essa candidatura internacional. A 6 de Novembro fechamos as inscrições e havia muito poucas inscrições nacionais. Sabe-se como os cabo-verdianos reagem ao tempo e aos prazos; então solicitamos uma extensão até 6 de Janeiro. Por isso é que levou mais tempo. Ainda a 6 de Janeiro havia alguns municípios que não tinham ainda conseguido introduzir os dados, mas aí foi fechado. Por isso é que houve esse compasso de espera na divulgação dos nacionais. Outro aspecto importante é que, quando os artistas são seleccionados, eles recebem uma comunicação da organização. Mas enquanto o artista não confirmar que pode participar, não é divulgada a lista e tão pouco são avisados  que não o foram e que estão como suplentes. Isto só aconteceu agora, quando o ministério teve a lista dos pedidos dos grupos solicitando o nosso apoio para poderem participar no mercado. Fizemos um levantamento de quantos grupos e artistas eram para vermos a nossa capacidade e respondemos dizendo que o ministério ajuda a cada grupo com isto mais aquilo. Aí então começaram a confirmar, indo buscar outros meios nos parceiros. Mas os artistas que foram seleccionados já receberam a comunicação há muito tempo.

 

Afirmou que dentro de três anos o AME passará para mãos privadas. Porquê três anos?

Porque três anos é o tempo médio que se estabelece nessas parcerias público/privadas para que um evento ganhe corpo. E também porque o Estado não deve continuar a liderar essa iniciativa. Nós lançamo-la, mas acho que os privados devem prosseguir. Se pusermos mais anos, são mais anos que o Estado tem para continuar a injectar dinheiro numa iniciativa que pode ser gerida pelos privados. Podia ser um, mas acho que ninguém se aventuraria a dizer ‘vou fazer o mercado e depois não tenho o apoio do Estado’. Mas também cinco anos seria um exagero porque poderia acomodar os privados. É por isso que nos acordos que temos com o Mindelact, com a Sociedade Cabo-verdiana de Autores e agora com a Academia de Letras e com várias associações estabelecemos três anos como um tempo razoável em que o Estado financia o funcionamento dessas instituições, ou desses eventos. Porque é um tempo que lhes possibilita irem captar os recursos, se prepararem, para depois fazerem a gestão autónoma. 

 

O AME está colado ao Kriol Jazz Festival. Qual dos eventos beneficia do outro?

Eu acho que mutuamente. E nós aprendemos essa estratégia com outras associações internacionais. Por exemplo, o Porto Musical, em Recife, é associado ao Carnaval do Recife. O IOMA, na Reunião, é associado ao Festival Sakifo. Porque, se nós fizermos o AME só três dias, que é quanto dura o mercado, acontece o seguinte: a maioria dos nossos voos é semanal. Então as pessoas diriam: ‘vou três dias para o mercado e depois fico quatro dias à espera do avião’.  E ir também por uma outra via ficaria mais caro, seria muito dispendioso. Assim, oferecemos um produto que dura uma semana em parceria com a Câmara Municipal da Praia.

Por isso optamos por nos associar a um evento que já existia e que já era muito conhecido internacionalmente. Assim as pessoas vêm e ficam pelo menos uma semana no país. E nós queremos também mantê-los para que haja mais impacto na economia. Neste caso, para o ano, nós queremos até associar mais eventos ao AME: Março, Abril, Maio. Temos essa ideia e estamos a conversar com os privados e donos desses eventos nacionais, de modo a que se alguém quiser passar um mês de férias em Cabo Verde, chega já em Março, aproveita esses eventos que existem, depois faz o AME e o KJF e ainda pode ficar até o 1º de Maio. E vamos alargando; foi por isso que fizemos essa associação. E os benefícios são mútuos, porque temos essa colaboração com a Câmara Municipal da Praia, que é a promotora do Kriol Jazz Festival, e no ano passado trabalhamos muito próximos e conseguimos projectar a capital do país ligado ao evento. Porque se o AME estivesse sozinho, não seria tão fácil fazer essa associação. Envolvemos a capital e isso trouxe também muitos benefícios para o AME.

 

Não se pensa em institucionalizar algum prémio ligado ao AME, ou é uma ideia descabida?

Os mercados normalmente não fazem isso, porque é uma feira. Mas no WOMEX existe isso: todos os anos eles atribuem uma distinção a um evento que tenha persistido e ganho o reconhecimento internacional. Em Cabo Verde pretendemos fazer duas coisas: que cada ano o AME seja dedicado a um país convidado, porque isso dá força, termos uma delegação convidada. Nós este ano vamos receber delegações brasileiras que vão ultrapassar quarenta pessoas. Imagine agora se há um ano em que o Brasil é o país convidado, ou Angola é o país convidado. Outra ideia é abrir reconhecimento internacional que seria a distinção de instituições durante o AME. Não seria um concurso, mas antes uma selecção: você escolhe e honra um evento ou uma pessoa.

 

O ano passado a presença do músico e ministro Youssou N’Dour deu grande força ao AME. Iremos ter este ano uma personalidade semelhante no evento?

(Risos). Já restamos muito poucos. Já tivemos o Gilberto Gil, o   Youssou N’Dour, a Susana Baca, no Perú, o ministro Kouakou Bandaman, que é escritor, no Côte d’Ivoire, a Ministra Malgache, que é estilista. Mas este ano vamos ter um convidado de honra excepcional: é um amigo e colega de prisão de Nelson Mandela. Chama-se James Mason. Ele é um promotor musical que utilizou a música na luta contra o Apartheid. Esteve preso junto com Nelson Mandela e de uma das coisas que ele vai falar é o poder da música na transformação africana: ele é promotor da música reggae. E vem como nosso convidado especial este ano.

Exactamente. Quando lhe enviei o convite e depois nos encontramos no País de Gales, perguntei-lhe se ele sabia que Cabo Verde tinha um aeroporto com o nome de Nelson Mandela, vieram-lhe água aos olhos. Disse-lhe ‘você vai desembarcar nesse aeroporto’ e foi um momento de grande emoção. Convidei também o Gilberto Gil para estar presente, mas ele disse-me que lança um disco agora no mês de Abril no Brasil e por isso não poderá vir. Mas combinamos desde agora que no próximo ano ele estará presente.

 

Um produtor musical disse-me que a melhor coisa que este governo criou no domínio da cultura nestes 13 anos é o AME. É um elogio ou uma crítica?

Eu tomo tudo como um equilíbrio. Em todo o elogio deve haver uma crítica subjacente. É a forma como encaro as críticas. Todas as críticas trazem-nos uma semente para uma melhoria extraordinária. Porque dizer que é o melhor, não desvaloriza as outras coisas – é uma evolução. É um grande reconhecimento. Mas não devemos nos conformar. É preciso que as outras acções cheguem a este patamar. Mas eu quero aqui dizer o seguinte: embora seja uma iniciativa do governo, o AME é um produto do Estado de Cabo Verde. Sejam quais forem os governos que vierem, devem encorajar o AME como os outros eventos que acontecem em Cabo Verde, seja na área da música, do teatro, etc. Esse é o nosso papel. Despoletar e entregar à sociedade para a fazer. Se a sociedade tiver dificuldades, nós estamos cá para sermos parceiros. Entretanto, seria muito bom que houvesse harmonização à volta de uma coisa que é nossa. E harmonização não quer dizer necessariamente consenso, mas entendimento, desfrute, partilha de mérito, júbilo, porque estamos cá para nos melhorarmos todos os dias. Por isso é bom que as pessoas nos digam o que está bem e o que está menos bem. Como sabe, este evento tem um envolvimento extraordinário dos produtores nacionais, das empresas nacionais privadas, do Sistema das Nações Unidas, da CMP e de todos os os Municípios, e da Cooperação Luxemburguesa. Há uma cooperação aqui extraordinária. E só assim que isso realmente funciona. E é um dever que os governantes e os governos têm de cuidar do que é do país; e o AME é um evento de Cabo Verde que é muito acarinhado pela comunidade internacional e é assim que nós devemos reparti-la: entre todos os intervenientes vivos do país.

 

Gostaria de ser recordado como o ministro que criou o AME?

Não, como já disse, o AME foi apenas uma ideia e vou-lhe contar uma história interessante. O gérmen do AME nasceu em 2004. Em 2004, eu, o Dr. Olavo Correia, o Dr. José Brito, o João Neves que tinha acabado de chegar como Adido Cultural da Embaixada de Portugal, o Hércules Cruz, o Péricles Barros, a Teté Alhinho, mais os meus amigos um pouco pelo mundo inteiro idealizamos o Feira Musicaboverde. (Espero que na lista não falte ninguém, mas todos os anos convidou-os a todos). Nessa altura, em 2004, estive com o Presidente da República Pedro Pires, com o Primeiro-Ministro José Maria Neves, com o ministro da Cultura, com o ministro das Relações Exteriores e com o ministro da Economia e andamos o país inteiro a dizer que era possível criar essa instituição. O Dr. Olavo Correia ia comigo às embaixadas a dizer que acreditávamos no projecto. A minha vinda ao Governo facilitou, porque o Governo assumiu o projecto. Portanto não é uma criação só minha. É de todo o Governo e é de todos os que estiveram no seu gérmen e é de todos os que o fazem acontecer. Quero dizer que o melhor que pode acontecer é que haja partilha, porque se há partilha comungamos da mesma alma e aí me sentirei feliz. E é o que eu tento fazer todos os dias. Não quero ser recordado senão como artista, porque o desígnio do artista é ser recordado. A minha passagem pelo governo é para servir.

 

 

 

 

 

 

domingo, 23 março 2014 00:00

6 Comentários

  • Rogério Spencer 28-03-2014 Reportar

    "O inimigo do teatro é o mercado"
    O encenador, ator e Prémio Pessoa Luis Miguel Cintra reflete sobre o texto que hoje se ouvirá em todos os teatros do mundo. Segue-se um possível roteiro para celebrar este 27 de março. Hoje é dia mundial do teatro." Em Cabo Verde, um governo marxista, que se rendeu aos encantos do "mercado da cultura" ao mesmo tempo que impede a livre a iniciativa dos privados criar a riqueza na economia real. Ultimamente voltou a surgir nos debates "a questão dos burgueses", leia-se os empresários, aqueles que em 1975 foram chamados de "inimigos da revolução". No terreno, entretanto, apoiantes, apoiantes do Paicv em Mindelo criticam a iniciativa de recuperar o antigo Cinema de Mindelo (como um exemplo de capitalismo selvagem que é preciso combater - palavras deles), enquanto o governo vai mercanciar a Cultura, sem que alguém ouse contestar.
    Ler mais: http://expresso.sapo.pt/o-inimigo-do-teatro-e-o-mercado=f862742#ixzz2xDLWmCG3

  • Bruce Wayne 24-03-2014 Reportar

    Mandou bem o Sr. Spencer, este Mário Lúcio é um pseudo "artista" frustrado pelo alcance da sua própria "arte", e que acha que ter uma falsa postura "alternativa" lhe faz ser alguma coisa (algum artista)! Quanta mediocridade.
    Aprendam com o exemplo do Brasil! Lá tentaram meter um artista de verdade no ministério homónimo e deu no que deu (nada), também tentaram meter o Pelé no ministério dos desportos e o resultado foi igualmente duvidoso! Ainda bem que naquele país tanto a cultura quando o desporto não precisam de ministérios! Há que que aprender que cada macaco tem o seu galho.

  • Anonymous 23-03-2014 Reportar

    Entre haver 10 ou 20 ha uma grande diferenca!

  • Dr. Azagua 23-03-2014 Reportar

    Li e apreciei muito a entrevista do Sr. Ministro da Cultura, Dr. Mario Lucio Souza, amigo do meu irmao Nhonho desde o tempo Simentera em Holanda. Um senhor humilde, inteligente e com grandes ideas para embelezar a nossa Cultura! E agora pergunto-lhe:
    Komu e ki vai a nosa Lingua, Sr. Dr. Ministru?

  • Dr. Azagua 23-03-2014 Reportar

    Li e apreciei muito a entrevista do Sr. Ministro da Cultura, Dr. Mario Lucio Souza, amigo do meu irmao Nhonho desde o tempo Simentera em Holanda. Um senho humilde, inteligente e com grandes ideas para embelezar a nossa Cultura! E agora pergunto-lhe:
    Komu e ki vai a nosa Lingua, Sr. Dr. Ministru?

  • Rogério Spencer 23-03-2014 Reportar

    Bom, nessas coisas de Cultura (com C, e não K), o pecado original, passe a redundância, está mesmo é na origem. Um País, uma Nação com todo esse manancial de histórico cultural, o responsável pela pasta não pode ser um rapazinho, com manias de hippie, extravagante, alternativo, vegetariano e sei mais lá o quê... ou simples compositor ou tocador de guitarra do tipo chororó. Da mesma forma que Paul McCartney nunca seria um bom ministro de Cultura da Inglaterra, embora reúna melhores e maiores condições que o menino representado na foto, este é o ponto prévio; nossa herança cultural, embora não seja milenar (não registos de milénios), já é crescidinha o suficiente para não estar nas mãos de um Mário Lúcio da vida. O sujeito toca bem, tem boa pinta, mas nunca estudou os fundamentos da Cultura e das civilizações mais avançadas, não estudou a arte, a história e a filosofia Ocidental, Chinesa, Egipcia, Hebraica, Grega, etc. Como tal, o que Mário Lúcio tem estado a fazer é a reciclar os dogmas do partido único para a cultura, agora com aquele necessário ar mercadológico para mostrar que se rendeu aos mercados, embora na economia real, seu governo e partido façam tudo ao contrário. O governo do Paicv impõe restrições á atividade empresarial, de um lado, com altas taxas de juros, de impostos, leis trabalhistas rígidas, perseguição aos empresários mais audazes, e, por outro lado, apresenta-se como ultraliberal na "economia da cultura". É um paradoxo e um vício insanável, sr. ministro. Ou o seu governo aceita as regras do pluralismo económico amplo, ou engana-se, a si mesmo. Ou seja, o Paicv consegue ser pior do que o próprio Paicv nesta área. Como em Cabo Verde tudo se vende, até votos, consciência e BIs, lá vem o ML e Zé Maria achar que cultura é também mercadoria. Ora, nem os economistas mais liberais do mundo chegaram a tanto, embora dentro do pensamento neoclássico não se vislumbre que haja contradição a este respeito. Uma coisa é estimar o valor econômico de um património cultural (por vias indiretas) ou contingencial (disponibilidade a pagar, WTP), coisa que se faz com o suporte da Econometria, outra coisa bem diferente é, colocar um produto cultural no mercado e submete-lo às leis da oferta e da procura, sr. ministro. Calma aí garoto. Você precisava passar mais cinco anos numa faculdade de economia. E neste ponto, é bom que alguém lhe diga o sr. ministro que está duplamente equivocado, seja quanto à interpretação dos princípios e leis da Economia, seja à própria Cultural. A sua noção de mercados mundiais da música é um sofisma, da mesma forma que aquele discurso do seu governo de transformar a nossa suposta posição geoestratégica em potencial de negócios para Cabo Verde. É preciso o sr. saber dentro deste mercado, qual a participação de Cabo Verde. Quantas vezes a palavra Cabo Verde é falada na BBC, RFI, CNN, NBC, Arte, ZDF, TFI, France 2, France 3, CFi, só para lhe citar alguns veículos que transportam a tal mercadoria cultural crioula. Fazer festivais, ora se por isso, a indústria cultural americana fechava as portas. Acredito que Cabo Verde tem proporcionalmente à sua grandeza e população e até mesmo recursos, mais festivais que os Estados Unidos da América. Contudo, que é que isso rende a Cabo Verde no seu PIB? Agora, vou lhe dar uma péssima notícia, sr. ministro: para divulgar um país, seu património cultural, tangível e intangível, Cabo Verde nem precisava de um ministro da Cultura. Não vou dizer-lhe os porquês para o sr. não perder o emprego. Em vez de estar a convidar celebridades portuguesas para desfilar no Carnaval de Mindelo, deveria antes, convidar a History Channel, Art, e Discovery Channel para conhecer as ribeiras de Paúl, Ribeira Grande (Santo Antão), Ribeira Grande (Santiago); Vulcão do Fogo; convide o Canal 10 de Israel para vir reportar sobre a presença judia em Cabo Verde e verá resultados em pouco tempo.
    Agora o problema é o que eles vão encontrar para relatar? Pois, se o Sr. Não mandar retirar porcos da ruas da Cidade Velha, vão dizer que porcos convivem com pessoas na primeira Capital do País. Se o sr. não mandar retirar os pedintes da prisão do Tarrafal, é isso mesmo que eles vão dizer; então, afinal o que é a cultura? Pra lhe dizer a verdade, eu não sei. O que sei é que é todo o legado dos nossos antepassados mais o que legamos à próxima geração. E o que legamos à próxima geração? Aí sou mauzinho sr. Ministro. NADA! Se o sr achar que vai “mercanciar” o que recebemos e que levou séculos a construir, então o sr. terá de estudar mais a economia para aprender como se a transferência de bem-estar (cultural??) de uma geração para outra.

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