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Um simples antibiótico impede nos ratos um cancro que mata 800.000 pessoas por ano

Concentre-se na sua boca. Passe a língua entre os dentes e a mucosa das bochechas. Nesses meandros vive a Fusobacterium nucleatum, uma bactéria comum na boca humana associada a infecções das gengivas. Somos, segundo uma velha brincadeira científica, mais microbianos do que humanos: no nosso corpo existem 39 triliões de bactérias e ‘apenas’ 30 triliões de células humanas. E a ciência está apenas a começar a compreender esse complexo mundo microscópico.

A última descoberta pode ser importantíssima. Há cinco anos que a comunidade científica suspeita do cada vez mais evidente vínculo entre a Fusobacterium nucleatum e o cancro colorrectal, responsável por 775.000 mortes por ano no mundo. A bactéria aparece habitualmente no ecossistema microbiano desses tumores no intestino grosso. E uma equipa internacional de cientistas acaba de descobrir que a bactéria também viaja com as células tumorais que provocam metástases no fígado.

“Esses dados sugerem que as bactérias, mais do que companheiras de viagem, podem ser as causadoras dessas metástases”, afirma Paolo Nuciforo, co-autor do estudo e pesquisador no Instituto de Oncologia Vall d’Hebron, em Barcelona. As bactérias, afirma ao El País, poderiam provocar alterações moleculares que causariam tumores nas células humanas.

A equipa de Nuciforo detectou a Fusobacterium em 70% de uma amostra de 200 tumores colorrectais humanos. Nas metástases hepáticas desses tumores primários também aparecem as mesmas cepas da bactéria, dentro das próprias células tumorais.

“Se não existisse uma relação, seria quase impossível que a flora microbiana de um tumor no cólon fosse igual à de um tumor no fígado. São órgãos totalmente diferentes”, diz o pesquisador. O trabalho, publicado na sexta-feira passada na revista Science, é liderado por cientistas do Instituto do Cancro Dana-Farber, em Boston (EUA).

Os autores deram um passo em frente. Injectaram esses tumores humanos em ratos e trataram-nos com um simples antibiótico, o metronidazol, utilizado habitualmente em infecções da uretra e da vagina. O antibiótico por si só conseguiu algo insólito: impedir em 30% o crescimento dos tumores nos ratos, como detalha Nuciforo.

“Uma nova estratégia contra os tumores colorrectais associados a Fusobacteriumseria uma combinação de quimioterapia e antibióticos. Mas para confirmar precisamos de mais testes clínicos”, diz o oncologista.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 835 de 29 de Novembro de 2017. 

terça, 05 dezembro 2017 06:47

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