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Antigo Governador do BCV prevê crescimento económico de 3,5%

Antigo Governador do BCV prevê crescimento económico de 3,5% iStock

Carlos Burgo não concorda com os números avançados pelo governo e antecipa um crescimento 2 por cento abaixo do projectado pelo executivo.

 

“À luz das mais recentes informações, a minha previsão de crescimento para o corrente ano é de cerca de 3.5%, podendo variar no intervalo de 3.2 a 3.7%. A prevalecer a mais recente tendência evidenciada pelas últimas estimativas publicadas e a verificar-se uma provável aceleração da inflação, o crescimento poderá vir a situar-se próximo do limite inferior do intervalo”, escreveu o antigo governador do Banco Central cabo-verdiano no Facebook. Carlos Burgo junta-se assim aos que olham com mais cautela para as contas do governo, como, por exemplo, o Presidente da República. Ainda na passada quinta-feira, numa conversa com os jornalistas, Jorge Carlos Fonseca afirmou que Cabo Verde terá que “acelerar e correr muito” para alcançar a meta de 7% de crescimento económico, classificando a meta como “muito optimista”, mas dificilmente atingível no mandato do Governo.

“Um crescimento no intervalo 3 a 4% estará em linha com o actual potencial de crescimento da economia”, diz Carlos Burgo. “Apesar da conjuntura internacional favorável, a aceleração do crescimento para níveis superiores a 5% - o anunciado para o OE 2018 é 5.5% - requererá políticas sectoriais adequadas e reformas estruturais eficazes que necessariamente têm um período de implementação e maturação e cujos efeitos só se fariam integralmente sentir a médio prazo”.

Este crescimento significa uma diminuição em relação ao último ano (3.8%) e fica muito aquém da previsão que serviu de base à elaboração do Orçamento de Estado (5.5%) e aquém mesmo da previsão do Banco de Cabo Verde, que no último Relatório de Política Monetária teve uma revisão em alta para 3-4%, indicando que poderia até vir a situar-se num nível próximo do limite superior do intervalo: 4%. 

Ainda segundo o BCV, a recente tendência de desaceleração, visível no seu indicador de investimento, poderá vir a ser contrariada por uma aceleração na execução orçamental e pelos efeitos de políticas adoptadas pelo Governo. Mas, como sublinha Carlos Burgo, “nesta altura, porém, os efeitos mais imediatos da acção governativa sobre a confiança dos agentes económicos estarão já integralmente internalizados. Digno de registo é o facto de as previsões do BCV não incorporarem as últimas informações publicadas pelo INE”, conclui o antigo governador do Banco Central.

E afinal, o que mostram as últimas informações do Instituto Nacional de Estatísticas? As estimativas das Contas Nacionais Trimestrais (CNT) do 2º Trimestre dão conta que nesse trimestre o ritmo de crescimento da economia abrandou de 4% para 3.1% relativamente ao trimestre homólogo do ano anterior. O desempenho da economia foi grandemente penalizado pelo agravamento da contracção da agricultura (-21.3%). Essa evolução da agricultura junta-se à persistência da contracção num outro importante sector da economia: o da Construção (-13.4%) para condicionar negativamente a dinâmica da economia.

Por outro lado, a evolução positiva nalguns sectores foi insuficiente para compensar os efeitos negativos da evolução da agricultura, tanto mais que persistiu a contracção no sector das pescas. Isto tudo, apesar do desempenho positivo dos sectores das Indústrias Transformadoras (11.%) e da Electricidade e Água (31.6%) e, sobretudo, o comportamento do Comércio (3.0%) e dos Transportes (11.6%), dois sectores determinantes para um crescimento sustentável da economia e que vinham experimentando dificuldades.

Analisando com base na evolução num período de 4 trimestres (um ano). Em termos acumulados, o crescimento é de 3.7%. É assim visível a influência negativa da agricultura (-0.8%) no desempenho da economia, por um lado, e por outro, a contribuição positiva das Indústrias Transformadoras (0.8%).

 

Contribuições positivas

Outro dado a registar é que, pela primeira vez desde que começaram a ser publicadas as estimativas das CNT, registam-se simultaneamente contribuições positivas nos principais sectores da economia de serviços – Alimentação e Alojamento (0.6), Comércio (0.4), Transportes (0.4), Serviços Financeiros (0. 4) e Imobiliária e Outros Serviços (0.3). Este facto dever-se-á provavelmente à contínua melhoria da confiança dos agentes económicos.

No entanto, os sectores da Construção (-0.2) e das Telecomunicações e Correios (-0.3) continuam a constituir um arrasto negativo para o crescimento. A redução da produção agrícola e pecuária deve-se essencialmente à aleatoriedade climática. No sector da construção está-se provavelmente num processo de ajustamento da capacidade de produção para um nível mais sustentável. Quanto às Telecomunicações e Correios o problema residirá em grande medida em insuficiências a nível da regulação e da inovação, como aliás ficou patente nos vários trabalhos sobre o sector publicados no Expresso das Ilhas.

Por outro lado ainda, o crescimento continua ainda muito dependente do sector público – Administração Pública (1.0) e Impostos líquidos de Subsídios (0.7%), o que tem de ser tido necessariamente em conta na avaliação do potencial de crescimento, já que não é sustentável que a Administração Pública, de longe o maior sector da economia com um peso de cerca de 17%, continue a expandir-se a um ritmo mais acelerado que o conjunto dos outros sectores, pois trata-se de serviços não mercantis, logo financiados por impostos. Refira-se a este propósito o já elevado nível da carga fiscal na economia cabo-verdiana (mais de 20% do PIB, sem considerar os impostos municipais e as contribuições para a o INPS), ou seja, não há margem para tributar mais para assim conseguir dinheiro para gastar.

Pela primeira vez, o Instituto Nacional de Estatística publicou estimativas do PIB na óptica da despesa. Sabe-se, assim, que o crescimento do PIB deveu-se à procura interna já que a contribuição da procura externa líquida (-11.0) foi negativa por causa do aumento significativo das importações e da simultânea redução das exportações. Esse efeito foi neutralizado pela contribuição do investimento (11.0), restando um crescimento de 3.7%, resultante do aumento do consumo privado (3.6). A contribuição do consumo público é praticamente nula. 

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 831 de 31 de Outubro de 2017. 

 

sexta, 03 novembro 2017 14:24

1 comentário

  • Rogério Spencer 05-11-2017 Reportar

    Quem tem a lista de todos os projectos de investimentos públicos e privados em carteira para 2018 e seus impactos na economia, ao que julgo saber, é o Governo de Cabo Verde e não propriamente o Sr. Carlos Burgo. Entendo a curiosidade científica e intelectual do Economista, tal como eu nos obriga ao exercício de projecção e previsão. Até aqui tudo bem. Porém, soa baboseira, senão mesmo presunção tola, o cidadão Carlos Burgo atrever-se a adiantar valores de crescimento da economia, com base em informação incompleta. A menos que Burgo tem total controlo sobre a decisão dos investidores ou potenciais investidores em Cabo Verde. Do contrário, está-se no pirimetro do "manda-bocas", coisa que não abona em nada a reputação de um ex-Governador do Banco Central. Carlos Burgo tem toda legitimidade para desconfiar dos dados do Governo. Porém, ninguém garante que os dados das projecções do Sr. Carlos Burgo são mais rubustos que os do Governo. Se o Burgo demonstrar como chegou aos dados que avança, serei o primeiro a dar os meus parabéns ao Burgo. Burgo já foi Ministro das Finanças e teve o (mau) hábito de prognosticar valores de crescimento económicos que nunca chegaram a concretizar-se. Quem não se lembra dos dados da Economia, quando Burgo era ministro. Deste ponto de vista Burgo até leva alguma vantagem...é provavel que os ministros todos mentem e, sabendo disto, por haver sido um ministro, está habilitado a discordar do actual Ministro das Finanças.

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