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Carlos Burgo critica política monetária do BCV

Ex-governador do Banco de Cabo Verde (BCV) diz que medidas anunciadas pelo banco central são incoerentes.

 

Em Junho passado o Banco de Cabo Verde anunciou, em conferência de imprensa, medidas de alterações profundas na Política Monetária do BCV que passavam pela redução da Taxa Directora, de 3,5% para 1,5%, pela redução da taxa da Facilidade de Absorção de Liquidez e, por último, pela eliminação do limite máximo no recurso à Facilidade de Cedência de Liquidez.

Apresentadas por João Serra, actual governador do Banco de Cabo Verde, como sendo medidas de afrouxamento, estas decisões do BCV são vistas por Carlos Burgo como sendo incoerentes.

“Há (…) uma flagrante incoerência nas medidas anunciadas. De um lado, há a redução das taxas das facilidades permanentes. Regista-se uma significativa redução da taxa e facilitação do acesso dos bancos à facilidade de cedência de liquidez. Tal não é, todavia, muito significativo num contexto de excesso de liquidez no sistema”, expõe Burgo que, de seguida, explica que à “luz da prevalência de excesso de liquidez no sistema, a redução da taxa da facilidade de absorção teria, de facto, um efeito de afrouxamento da política monetária. Não fosse a declarada intenção de absorver todo o excesso de liquidez, com recurso a intervenções do banco central”.

Para Burgo há ainda a considerar “uma outra alteração anunciada. As intervenções (pouco significativas) do banco central eram até então efectuadas a taxas variáveis. Imediatamente anterior à implementação das últimas medidas, as taxas de intervenção do banco central eram 0.3125% (TRMs a taxa variável, leilão de 5.6.17 e TIMs, leilão de 2.6.17) e a dos Bilhetes do Tesouro era 0.5% (a 180 dias, leilão de 21.4). Com a entrada em vigor das alterações anunciadas, o BCV passou a emitir Títulos de Regularização Monetária (TRMs) à taxa fixa de 1.5% (a nova Taxa Directora)” e, reforça,  que tendo “o BCV anunciado a intenção de “direccionar as taxas de juro de mercado para a sua taxa directora” (fixada em 1.5%), não devia constituir surpresa para ninguém a subida das taxas dos Títulos de Intervenção Monetária (TIMs) e dos Bilhetes do Tesouro, que entretanto se regista. Na realidade, após alguma hesitação inicial, essas taxas vêm convergindo para a taxa directora”.

Para Carlos Burgo é, por isso, evidente “que o BCV terá de optar entre gerir a política monetária com a taxa de absorção, mantendo o sistema saturado com reservas, ou fazer uma gestão activa da liquidez com intervenções à taxa directora. Se optar por esta última alternativa, a taxa directora passa a ser o floor (nível mais baixo) para as taxas de curto prazo”.

Em alternativa o antigo governador do Banco de Cabo Verde sugere que o BCV “mantendo o sistema saturado com liquidez” fixe “a taxa de absorção ao nível da taxa directora, que é o que fazem os principais bancos centrais que, pela primeira vez, foram confrontados com as especificidades da gestão monetária em situações de excesso de liquidez”.

No entanto, conclui Burgo: “Urge, porém, que o banco central clarifique a orientação da política monetária que pretende, de forma coerente, seguir, no interesse do bom funcionamento dos mercados e, em última instância, da economia”.

terça, 29 agosto 2017 17:09

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