Expresso das Ilhas

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David Gomes: «Enfrentámos um dos monopólios mais bem montados do mundo»

Depois de uma década à frente da ANAC, e com uma vasta experiência prévia na área da regulação e das tecnologias (foi Director Geral das Comunicações, Membro da Comissão Instaladora da Agência Multissectorial de Regulação, Administrador da Agência Multissectorial de Regulação (sectores: água, energia, transportes públicos de passageiros, comunicações, Presidente Interino e Administrador do Instituto das Comunicações e Tecnologias de Informação e Presidente do Conselho de Administração, interino da Agência Nacional das Comunicações ANAC), David Gomes, engenheiro de telecomunicações, faz um balanço da sua passagem pela entidade reguladora e fala dos desafios que o sector tem ainda de enfrentar.

 

Dez anos à frente da ANAC, além da experiência prévia na área da regulação, que balanço podemos fazer desta década?

(riso) Como sabe, sou suspeito de fazer o meu próprio balanço, mas os números, os indicadores e a dinâmica do mercado poderão testemunhar a influência que a regulação teve nestes dez anos. Quando a ANAC nasceu e encontrou já a lei de bases das comunicações electrónicas, o “famoso” Decreto - Legislativo n.º7/2005, que liberalizou o mercado, que criou o regulador, que fixou os objectivos de regulação. Toda a actuação da ANAC no mercado estava orientada na lei base, que dava claramente as competências da ANAC, principalmente em termos de regulação, fixava os objectivos da regulação – e o primeiro objectivo era promover a concorrência na oferta de redes e serviços de comunicações electrónicas, de recursos e serviços conexos e, em consequência, atrair investimentos e novos operadores e serviço para o mercado. Ao mesmo tempo, defender os interesses dos cidadãos, tendo como foco principal os interesses dos consumidores. Já tínhamos conhecimento da realidade, porque não iniciámos as nossas funções como presidente do conselho de administração como alguém que vinha de fora, já conhecíamos a causa, já tínhamos a experiência como director geral das comunicações, como administrador da primeira agência de regulação multissectorial, enquanto administrador do instituto das comunicações e das tecnologias de informação, daí que tínhamos uma apreciação clara dos desafios e das complexidades à nossa espera.

 

Qual considera que foi o maior desafio?

Para começar, quebrar o monopólio. Tínhamos, um monopólio muito duro, se calhar, um dos monopólios a nível mundial mais bem feito, porque o mercado era dominado a 100 por cento pelo grupo da Cabo Verde Telecom, portanto, tínhamos um mercado com um monopólio e que não funcionava só há dois ou três anos, quando a liberalização se iniciou em 2007; tínhamos um operador móvel há praticamente 10 anos no mercado – e falo da CVMóvel, que iniciou as suas actividades em Janeiro de 1998 – portanto, quando iniciámos a nossa actividade enquanto entidade reguladora havia já toda essa complexidade, muita pedra para partir. Em paralelo, o outro desafio era operacionalizar o decreto legislativo, ou seja, a responsabilidade de instalar a própria entidade reguladora, recrutar, reforçar o nosso quadro, dar formação aos nossos técnicos e criar todas as condições para a regulação efectiva do mercado. No caso específico de Cabo Verde, sendo um país pequeno e arquipelágico, a complexidade era ainda maior, tivemos de fazer um check list, enviar aos interessados e mostrar-lhes as condições para que pudessem entrar no mercado.

 

O que não era fácil, presumo.

Obviamente. Por exemplo, na altura recebi um investidor inglês – na altura havia uma dinâmica grande de empresas inglesas a tentarem entrar no mercado cabo-verdiano, principalmente por causa do turismo, mas quando elas vêm não querem trazer só o turismo, querem também trazer as telecomunicações, sector postal, jogos on-line, etc. Resumindo, quando chegaram ao meu gabinete traziam a sua própria check list: têm os preços dos circuitos alugados afixados? Há uma divisão entre o preço grossista e retalho? E eu dizia-lhes que já estávamos a trabalhar naquelas e outras questões para viabilizar entrada de novos operadores. Perguntaram se havia portabilidade numérica, e eu respondia-lhes que estávamos a preparar. No final do encontro, agradeceram e disseram que não havia ainda condições para investir em Cabo Verde e foram embora. Mais tarde entrou o novo operador, a T+ Telecomunicações, mas antes tínhamos feito um concurso internacional para ceder dois direitos de utilização de frequência nas comunicações móveis de segunda geração – 2G. Com o monopólio que tínhamos, duro, inclusive com exclusividade nas comunicações internacionais, apesar das aquisições do caderno de encargos – cerca de 12 – quando o foram ler e perceberam os constrangimentos ninguém quis: mercado pequeno, com o monopólio que existia, com o bloqueio para as entradas e saídas das comunicações internacionais, ninguém concorreu ou seja o concurso público internacional ficou diserto. Na altura quer aqui em Cabo Verde e na nossa sub-região todos pela Diretiva da CEDEAO tinhamos que liberalizar o mercado o mais tardar 1 de Janeiro de 2017. E o Governo ciente da importância que as comunicações electronicas tem para o desenvolvimento do país, aprovou o Decreto – Legislativo n.7/2005, portanto a nova lei base das Comunicações Eletronicas Paralelamente ainda antes da criação da ANAC, portanto, ainda no seguimento, do concurso referido anteriormente, surgiu um “corajoso”, que teve muitas dificuldades iniciais, como é lógico. Dou-lhe um exemplo, com menos do que o investimento feito só na ilha de Santiago, numa rede móvel, dá para no Senegal todo, estamos a falar de um país plano, logo a planificação de rede e cobertura é muito mais barato e eficaz do que aqui e estamos a falar de um mercado de longe maior que o nosso. Com a nossa disperção geografica entre as ilhas e a nossa orografia, qualquer investimento tem de ser muito grande seja em torres, em antenas, trabalhos de construção civil, incluindo abertura de valas, ligação à rede pública de energia, etc. ou seja, os custos são elevados. Mesmo consciente destes custos, entendemo que os operadores deveriam ser mais eficases nos invsetimentos a fazer. Daí que uma das primeiras medidads de reduzir esses custos e começámos a exigir às operadoras investimentos em redes a menos cutos mas eficientes. Por outro lado, ao abrigo do contrato de concessão, obrigamos a CVTelecom a implementar um sistema de contabilidade analítica. Para que as operadoras fossem eficientes e para não estarem a repassar aos consumidores custos desnecessários, como pode ver, tivemos também que quebrar muita pedra. Ainda nesse sentido, o primeiro grande passo foi separar o preço grossista do de retalho da operadora incumbente/histórica – a CVTelecom., foi ali que conseguimos introduzir os novos preços de interligação, com a entrada de  outra operadora. Basta ver que quando a T+ entrou o preço inicial de interligação [serviços de terminação e de origem de chamadas] era de 12$00 e hoje está nos 6$50, com tendência para baixar mais. Se for ver o preço também do circuito inter-ilhas de 2 Megas, que custavam mil, seiscentos e oitenta contos em 2009, em 2014 custava 138 contos, e actualmente está em pouco mais de 94contos, veja a diferença.

 

Como conseguiram isso?

Graças às medidas regulatórias e correctivas, no sentido de tornar operadora incumbente mais eficaz, ou seja houve também custos que não foram aceites pela ANAC. Se o preço de 1 Mega bite de internet, na altura, custava 46 contos, hoje está a custar 1.120$00. E não falando, como li nas entrevistas aos responsáveis das operadoras, que um cartão SIM em 2003 custava 8.045$00 e hoje custa 50$00, que no fundo é gratuito porque os 50$00 são o bónus que dão em chamadas. Veja a revolução que tivemos no mercado. O que se pode quantificar pelo boom que tivemos nas comunicações móveis, ultrapassámos a barreira de 100 por cento da taxa de penetração e neste momento estamos a oscilar entre 121% e 125%. Na internet, que é mais importante, já temos uma taxa de penetração de 73 por cento, elevadíssima quando comparada com os nossos vizinhos [dados da CEDEAO (os últimos são de 2014) mostram que a percentagem de utilizadores da Internet na sub-região é de 12,77 por cento]. Mesmo recentemente, numa conferência aqui na Praia, perguntaram-me qual a razão do sucesso da taxa de penetração do 3G em Cabo Verde.

 

E qual é essa razão?

Cabo Verde foi o único país onde o regulador abdicou dos valores do preço da licença 3G. Ou seja, dissemos às operadoras não queremos sobrecarregar-vos, vão apresentar um programa de desenvolvimento da sociedade de informação, onde os produtos são subsidiados, estamos a falar dos smartphones, dos telemóveis, dos cartões SIM, etc., que são subsidiados pelos valores que a ANAC deveria receber pela licença. Fixámos um valor mínimo que deveria contribuir para o programa Mundo Novo, a CV Móvel contribuiu com 19 milhões de euros em vários programas e a UNITEL T+ com 6 milhões de euros. Claro que quando são presenteados kits nunca é dito que aquela é a oferta da ANAC à sociedade de informação, mas aqui está o foco do sucesso da adesão em massa às comunicações móveis de terceira geração. Idem para as comunicações fixas, o preço das comunicações e da assinatura internas estava muito abaixo do que deveria e a das chamadas internacionais estava muito acima. O que fizemos, e continuamos a fazer, foi praticar a subsidiação cruzada de uma pela outra. Entretanto, nem tudo foram rosas, queríamos ter mais operadoras no mercado, queríamos uma concorrência efectiva do mercado.

 

E acha que há espaço para mais operadoras?

Penso que sim. Primeiro, o maior constrangimento é estar a obrigar uma operadora a investir numa infra-estrutura própria de Santo Antão à Brava, isso é impraticável. Porquê? Porque entendemos que são infra-estruturas irreplicáveis, falo nomeadamente da ligação inter-ilhas por cabo submarino e não recomendamos a sua duplicação, o que é preciso é que tenham um preço acessível a todos, os grandes e os pequenos operadores.

 

Quais considera serem os próximos grandes temas?

Temos um desafio hoje na economia digital que é a questão da transição do protocolo IP versão 4, para o protocolo IP versão 6 [a principal diferença entre as versões 4 e 6 do protocolo IP  é que o IPv4 possui 32 bits e o IPv6 128 bits, o que permite uma quantidade de endereços muito maior], e já temos a estratégia, outra questão que tem a ver com o mundo dos negócios é a gestão eficiente do domínio .cv, e quando herdamos esta gestão quem pedisse os registos .cv demorava 3 meses a obter resposta, hoje fazemos isso em segundos. Mais, sabendo que o .cv coincide com curriculum vitae, a ANAC trabalhou no sentido de apresentar ao governo um no no custeio regulatório. As comunicações de emergência são também fundamentais para um país como o nosso, por isso é preciso neste campo dotar o pais de uma estratégia: o primeiro passo foi a instalação do centro de coordenação do número único de emrgência - 112 e ainda esta segunda-feira foi assinado o acordo para o projecto cidade segura, que tem por trás essa rede de comunicações de emergência. Face à realidade do país e as tendências mundiais a ANAC tem responsabilidade de garantir a segurança das redes de comunicações electronicas bem como as repetivas infra-estruturas críticas no sentido de se proteger de eventuais ciberataques. Foi nesse sentido que assessoramos o governo na elaboração e aprovação a estratégia nacional para a cibersegurança. Abro aqui um parêntesis, a semana passada foi publicado o índex global de cibersegurança, um dos indicadores da UIT [União Internacional das Telecomunicações] e, infelizmente, Cabo Verde não está bem posicionado, estamos na cauda. Chamo a atenção para este ponto. Sabemos que não é a realidade actual , porque a UIT não solicitou a Cabo Verde informações nessa matéria, porque já tínhamos a estratégia nacional da cibersegurança aprovada, já existia a lei da protecção das infra-estruturas críticas, já temos alguma cooperação com a União Europeia e com os Estados Unidos nessa matéria, e teremos de enviar essas informações imediatamente à UIT para melhorar essa classificação [a lista é liderada por Singapura, considerado assim actualmente o país mais impermeável aos ciberataques].

 

Tanto mais que se o país se quer tornar numa cyber-ilha esse será um dos factores principais para quem quiser vir investir em Cabo Verde.

Exactamente. E para facilitar esse investimento temos de transitar rapidamente de Ipv4 para o IPv6-já existe uma estratégia, porque grandes negócios estão nos sites, portais, que já estão já a usar esse protocolo e os nossos utilizadores e empresas não podem beneficiar desta evolução. Cabo Verde não pode ficar fora do comboio da economia digital. Temos de preparar o país, as operadoras, o regulador, no fundo, todo o ecossistema. Porque é de facto uma grande oportunidade, termos um país prestador de serviços. O nosso mercado é pequeno, mas temos espaço para entrar na economia global.

 

Aliás, a ANAC assume, e está nos seus objectivos, o papel impulsionador do desenvolvimento das TIC no contexto global do desenvolvimento da sociedade de informação.

Exactamente. Foi nesse sentido que aprovámos a estratégia nacional da banda larga e da acessibilidade. Que aborda todas essas preocupações de preparar Cabo Verde para entrar na economia digital. Mais, é urgente pensar também na introdução das comunicações móveis de 4ª geração [4G]. Foi, aliás, para libertar espectro que o país investiu na Televisão Digital Terrestre [TDT].

 

Ponto da situação da TDT neste momento?

Hoje, Santiago, Maio, São Vicente e Sal já estão com as emissões digitais. Com esta primeira fase conseguimos cobrir 75 por cento da população, doze dos 22 municípios. A meta era cobrir pouco mais de 60 por cento, por isso, já ultrapassámos as espectativas. Tínhamos zonas que nunca tinham recebido sinal analógico de televisão e já estão a entraram directamente no digital. Hoje já há “boxes” e TV no mercado, os fornecedores estavam à espera e agora já estão a importar bastante. Aproveito então para avançar que a primeira fase já foi concluída, salvo algumas zonas pequenas, reduzimos significativamente as zonas sombra, portanto as pessoas já podem procurar as lojas que estão a vender as boxes e as televisões compatíveis com DVB-T2 [um standard de transmissão de vídeo digital terrestre (Digital Video Broadcasting - Terrestrial)]. Mais, Porto Novo já está a receber as emissões de São Vicente, chegam em excelentes condições, Santa Catarina e Mosteiros no Fogo recebem de Santiago em excelente qualidade, Maio e Sal conseguem enviar sinal para uma parte de Boa Vista, por isso disse que está a ultrapassar as nossas expectativas.  Oitenta e cinco por cento dos equipamentos para a segunda fase já estão em Cabo Verde, a segunda fase vai cobrir as ilhas de Santo Antão, que será a maior consumidora de emissores – dezassete, devido à sua orografia, São Nicolau, Boavista, Fogo e Brava. Só para lhe dar um exemplo, há dias assisti à assinatura de acordo para implentação da rede TDT num país vizinho e da nossa sub-região, onde vão fazer a cobertura de todo o país com dez emissores. Aqui estamos a falar de dezassete só para Santo Antão, mas são dezassete mais os respectivos espelhos backups, ou seja 34 emissores. Em todos os locais é neste sistema de 1+1 [para dar redundância ao sistema], portanto se o projecto global é de 65 emissores, estamos a falar de 130 emissores. Portanto, este país irá pagar e sob vários condicionalismos quase 38 milhões de USD. Face aos números de emissores que temos, mais o centro agregador de conteúdos, entre outros, serviços, podemos tirar as nossas conclusões o custo do investimento em curso.

 

O que é preciso agora?

Sair rapidamente das emissões analógicas sobretudo em Santiago, nomeadamente a cidade da Praia onde estão a decorrer as emissões experimentais há um ano, traçar o calendário de switch off [desligar do sinal analógico], criar e operacionalizar a empresa que vai gerir a rede, importar ainda mais boxes e TV para abastecimento do mercado a nivel nacional, retomontar um plano de comunicação, e paralelamente avançar com a implementação da segunda fase de instalação da rede. O Governo já está na posse de todas informações sobre so próximos passos.

 

Já se sabe quando será?

Tendo a primeira fase concluída acho que já estamos em condições de apresentar ao governo um plano de switch off. Provavelmente, a primeira ilha a desligar será Santiago e depois veremos as outras ilhas. As emissões estão a funcionar bem, por isso, até ao final do ano somos de opinião que devemos desligar o analógico, pelo menos aqui na Cidade da Praia, e passamos 100 por cento para digital. Até porque neste momento é muito oneroso para os cofres do Estado estar a pagar os custos de energia para as emissões analógicas e para as digitais. As próprias operadoras [TCV, TIVER, Record] já não conseguem encontrar no mercado peças para os seus emissores e equipamentos analógicos, porque já ninguém as fabrica. É a primeira vez no país que se implementou uma rede de forma integral, não só para emissão aberta, mas também suporta operadores que queiram fornecer serviços de televisão codificados, é também uma rede que permite emissões regionais e pensámos também na diáspora. A plataforma permite que os cabo-verdianos no exterior, desde que tenham uma box ou uma televisão que permita ligação à Internet, consigam ver as emissões aqui em Cabo Verde e possam aceder às gravações.

 

Lembro-me que o investimento da ANAC, na altura, foi enorme…

Conforme anteriormente dito, em comparação com o que andam pagar sobretudo aqui na nossa su-região, entedemos que os 11 milhões de euros, face a quantidade de equipamentos, obras, plano comunicacional, custos de funcionamento da rede nos primeiros seis meses, não consideramos este valor de investimento enorme. Investimento que já está quase todo pago. Faltam pagar 65 mil contos para os equipamentos e  mais ou menos 100 mil contos, para as obras e energia. Mais, graças a boa credibilidade da ANAC enquanto financiador, e com uma boa gestão, conseguimos evitar empréstimos bancários. Aproveito para agradecer a todos os actores, a banca, fornecedores, as câmaras municipais que tiveram um papel fundamental.

 

Estávamos a falar há pouco do ambiente tecnológico, ou da cultura tecnológica, e desviámo-nos um pouco, mas a verdade, e isso é reconhecido por vários actores do sector tecnológico nacional, a dinâmica de inovação da sociedade cabo-verdiana é ainda fraca. O que se pode fazer?

No meu ponto de vista, o governo, percebendo a importância da economia digital para o país, teve de apetrechar-se rapidamente, mas o que faltou foi o outro lado: as empresas, as universidades, a própria sociedade. Perdemos algum tempo, mas não é fácil mudar também a resistência face às mudanças e avanços tecnológicos . Os jovens adaptam-se rapidamente, mas é preciso que os professores, os pais e os encarregados de educação, enfim, toda a sociedade deve apostar mais nas oportunidades. O país precisa de uma estratégia de webização, que não tem. A estratégia nacional de banda larga já dá pistas, o programa de desenvolvimento da sociedade de informação [PESI]também dá, mas este último precisa de ser readaptado. O que a sociedade quer é banda larga e acesso à Internet. E é preciso trabalhar fortemente com as empresas para levarem os seus serviços para a web, é preciso que o e-commerce seja desenvolvido, o pagamento via móvel, neste momento o único sítio onde tenho de levar dinheiro é ao mercado do Plateau, porque não há outra forma de pagamento, quando isso poderia ser feito rapidamente de telemóveis a telemóveis.

 

Como sabe houve já uma tentativa, mas o Banco Central não autorizou.

Tem tido alguma prudência, mas já é tempo. Já temos mais de 50 por cento das pessoas com smartphone e podem aceder e pagar vários serviços on-line. Mas ainda existe uma franja substancial da população que o telemóvel, dito tradicional, que não suporta serviços de pagamento. No fundo, é preciso criar todo o ecossistema. O Parque tecnológico já foi lançado, vai lá ter as empresas, as universidades, mas ainda não chega. Onde devemos atacar? É de baixo para cima, começar nas creches. Há países que fizeram isso, um deles nosso vizinho, que hoje tem uma geração de jovens perfeitamente capazes de dominar as tecnologias de informação. Jovens que terminam a universidade e criam o seu emprego. Lamentavelmente, ainda nas nossas universidades temos hoje um modelo curricular que levam a que o foco de emprego esteja na administração pública ou trabalhando para outrem, mas não cria pessoas com capacidade para avançarem para o auto-emprego. Porque qualquer jovem hoje pode viver em Cabo Verde e prestar serviços para países estrangeiros, para qualquer parte do mundo, mas para isso tem de ter essa formação/formatção. Essa consegue-se na base. Continuando essa dinâmica no ensino primário e secundário, muitas vezes antes de chegarem à universidade já estão a trabalhar e a ganhar dinheiro. É preciso ensinar a uma cabeleireira que pode usar o seu Facebook para publicitar o seu trabalho e não só para likes. Um carpinteiro pode mostrar as suas mobílias. Mas temos na amioria dos casos o uso do Facebook para postar “selfies”- nada temos contra isto mas penso que temos jovens com muita capacidade de levarem para as redes sociais os seus produtos e serviços. Precisam é de orientações e incentivos . Se for ao Google Store ou à Apple Store, quantos aplicativos cabo-verdianos existem? Se forem 20 ou 30 é muito. Por isso essa estratégia de webização, no sentido de levar o serviço para fora de Cabo Verde é importante. É fundamental, criar o ecossistema, formar as pessoas, garantir transportes de e entrega de encomendas, entre outras medidas, isto se queremos mesmo prestar serviços e entrar no mercado da economia digital. Sem isso, os nossos índices continuarão em baixo, vamos ter cada vez mais pessoas com smartphones e computadores, mas que não sabem montar o seu negócio.

 

Há um outro lado da ANAC, que ainda não falámos, que é o da protecção do consumidor. Esta é uma das preocupações centrais sempre que pensam qualquer estratégia?

Fomos a primeira entidade reguladora que instalou um portal dedicado exclusivamente dedicado ao consumidor. Apesar de aqui não haver uma forte cultura da reclamação, mesmo com a divulgação feita, poucas pessoas o utilizaram, mas tendencialmente vem melhorando. É o único portal em Cabo Verde, passe a publicidade, onde uma pessoa com deficiência visual consegue ouvir todo o conteúdo do site. Mas entendemos que ainda é preciso fazer muito e passar mais informação aos cidadãos. É a sociedade em que vivemos. As pessoas começam a ser mais conscientes dos seus direitos, mas esta nova geração não quer escrever, e é normal, quer “touch”. Mas estamos a trabalhar no desenvolvimento de aplicações que irão ao encontro da realidade. Uma outra vertente, melhor dizendo, a responsabilidade da ANAC, é que nós medimos a qualidade dos serviços prestados pelas operadora, investimos em equipamentos para aferição de qualidade de serviço na otica experîencias dos utlizadores finais. Já temos inclusive as medições das duas operadoras em termos de qualidade de serviço na óptica do utilizador e penso que dentro de dias, pela primeira vez, vamos publicar um quadro comparativo de quem presta melhor serviço. Aprovamos e publicamos o Gia do Consumidor para as comunicações electrónicas e Postais e também o regulamento de qualidade de serviço para o serviço móvel terrestre. Aqui temos duas vertentes/modelos que seguimos, primeiro na sua relação comercial com as operadoras e os parâmetros/indicadores de QoS. Basta ver que os utlizadores já não são bombardeadas com mensagens indesejadas, que pagam exatamente o que consomem, têm direito de solicitar o estrato do consumo e esse é dado gratuitamente, etc, etc.

 

O trabalho invisível da ANAC.

Pois! Grande parte do nosso trabalho não é visível. Temos um guia do consumidor muito bem elaborado, produzimos a cartilha de cybersegurança direccionado às crianças, chamando a atenção dos pais, porque estes precisam de acompanhar os filhos quando eles estão na internet, ninguém sabe quem está do outro lado. A portabilidade numérica foi uma grande revolução, ninguém precisa já de ficar amarrado a uma operadora. A responsabilidade da ANAC cobre toda a esfera de desenvolvimento da sociedade, por isso penso que se devia manter a ANAC focada única e exclusivamente como única entidade para os sectores que já tem, que são críticos: regulação, comunicações electrónicas, gestão e monitorização do espectro, cybersegurança, gestão de dominios.CV. São questões-chave para a economia digital, quer a nivel nacional, quer a nivel transfonteiriço.

 

Uma última questão: quais são os grandes desafios para a regulação? 

A integração de Cabo Verde na economia digital. Temos questões fundamentais e urgentes para resolver como o Big Data, Internet das Coisas, Cloud Computing, a neutralidade da rede, entre outros. Hoje o que quer um cidadão? Se eu sou um cliente de uma determinada operadora eu quero o serviço em casa e na rua, ou mesmo fora de Cabo Verde. A ANAC e as operadoras têm de enveredar por esse caminho, estamos a falar de uma regulação 4.0 para a indústria 4.0. Aliás, esta semana todos os reguladores do mundo estão reunidos nas Bahamas para discutirem o futuro da regulação que é a regulação 5.0. O mercado está a ter uma transformação rápida. Dantes discava-se um número e o dinheiro caía, hoje é o tráfego de dados que ocupa e consome maior largura de banda e não a voz tradicional. Cabo Verde não pode fugir à tendência mundial. Hoje queremos vender e proteger informação e Cabo Verde tem todas as condições para alojar equipamentos e informações seguras de outros países.

 

Estamos a falar dos Data Center.

Isso, e aqui é importante desenvolver Data Center de excelência. Para isso precisamos de boa largura de banda internacional, uma baixa latência, uma legislação clara e segura que dê garantias aos potenciais clientes. Porque se um investidor souber que Cabo Verde é vulnerável a ataques, não vem, se souber que ainda está no IPv4, não vem, se souber que ainda não está a investir em redes 4G e 5G, redes de acesso em fibra optica não vem. Portanto, são esses os pontos que temos de trabalhar urgentemente, temos de ter legislação mais moderna, segura e transparente do mundo. Aí sim teremos condições para ter o nosso espaço nesse mundo da economia digital.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 815 de 12 de Julho de 2017

sábado, 15 julho 2017 06:50

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