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Direcção da FCF sente-se «a maior vítima» da confusão no nacional

 

Um campeonato nacional de futebol que se prolonga no tempo e que não parece ter fim à vista. Nesta entrevista ao Expresso das Ilhas, Vitor Osório, mostra-se convicto de que a razão está do lado da Federação Cabo-verdiana de Futebol e que a organização que dirige está debaixo da mira de “entidades extra-futebol” que, com a confusão instalada, querem “tentar tirar dividendos”.

 

Estiveram, este fim-de-semana, reunidos com os clubes que ainda disputam o campeonato nacional de futebol. Que conclusões?

A reunião foi dividida em duas partes. A primeira em que estiveram os clubes e as associações regionais em que discutimos os inconvenientes sobre a parte final do campeonato nacional e a segunda parte foi só com as associações regionais para discutirmos assuntos internos como esta parte final do campeonato série masculinos mas também os campeonatos sub-17, o campeonato nacional feminino e a taça independência. Na primeira parte expusemos que já há uma decisão tomada por parte desta direcção que é a de repetir a eliminatória entre Ultramarina e Mindelense. Em função disso, os três clubes expuseram os seus pontos de vista relativamente a esse aspecto. O Sporting disse que está à espera do outro finalista para realizar a final e que quanto mais cedo se apurar o outro finalista melhor, porque estão há muito tempo à espera e com prejuízos financeiros e desportivos grandes. O Ultramarina disse que está disponível para jogar o jogo da primeira mão, como já tinham anunciado, e que relativamente ao jogo da segunda mão só depois do primeiro jogo se irão posicionar. O Mindelense disse que não estão disponíveis para jogar para além da época prorrogada. Foi proposto ao Mindelense que dissesse em que data podia jogar. Se em Agosto, Setembro, Outubro ou Novembro. O Mindelense disse que não iria responder a essa questão e que, uma vez que a Federação ia marcar os jogos das meias-finais, aí saberia como posicionar-se. Foi este o posicionamento dos clubes nesta reunião. Todos disseram que estão com encargos financeiros, mais o Sporting que o Mindelense, o Ultramarina disse que também tem os seus encargos mas que como é uma equipa que não paga a jogadores não terá, eventualmente, os problemas que o Mindelense e o Sporting têm.

 

O presidente do Ultramarina diz que o clube não está disponível para jogar a segunda mão. Que há até uma homologação tácita do resultado.

 

Não há homologação nenhuma. Ele deve ter-se esquecido que a lei diz que quando há impugnação não há homologação e nós, logo a seguir ao jogo, emitimos um comunicado a dizer que não havia homologação desse jogo.

 

O presidente do Mindelense diz que está fora de questão voltar a jogar e que há outras soluções para o problema…

Mas não as apresenta.

 

Ele diz que o Mindelense já esteve em situação idêntica e que já houve anos em que o campeonato foi encerrado sem haver campeão.

Nessas coisas é preciso ter cuidado. Aquilo que se está a fazer e a querer fazer imperar é aquilo que acontecia antes em que as decisões não eram tomadas com base nos regulamentos vigentes mas sim com base em interesses, ou lobbies ou outras coisas mais. Nesse aspecto é preciso ter em conta que a lei do futebol e os nossos regulamentos são claros quanto a isso. Se no passado não se cumpriram os regulamentos… a ilegalidade não vincula ninguém. Se no passado se encontrou uma solução administrativa de decidir que a equipa A, B ou C é campeã por esta ou aquela circunstância, nós não vamos seguir critérios que não se baseiam em normas. Aliás, aproveito para desafiar os clubes envolvidos a apresentar a base legal, regulamentar, sobre a qual incide a sua decisão de não jogar. Aqui não se pode dizer eu não faço, eu não quero… tem de se dizer “eu não jogo porque o artigo tal diz isto”. Neste momento, aquilo que os clubes têm de fazer é dizer com base em quê decidem não jogar. Se o Mindelense vem falar naquilo que aconteceu na década de 80 ou 90 em que houve um caso em que se escolheu uma equipa para ser campeã porque houve uma situação qualquer parecida, não sei, isso é uma situação que não pode fazer escola porque é uma situação que foge aos regulamentos.

 

Tendo em conta as dificuldades financeiras da generalidade dos clubes do campeonato nacional, parece-vos benéfica esta paragem?

A primeira entidade extremamente prejudicada por toda esta situação é a FCF. A Federação fez deslocar a arbitragem a São Nicolau para arbitrar um jogo, deslocou uma equipa de 22 elementos mais um, que era o representante da Associação Regional de São Vicente, a São Nicolau para o jogo marcado e oficial. Esse jogo não se realizou porque houve situações estranhas extra-futebol em que muita gente esteve envolvida, em conluio, e misteriosamente ninguém foi capaz naquele momento, naquele dia, de desbloquear. Porque também se calhar as pessoas não estavam interessadas e tudo foi montado nesse sentido. Por isso, a primeira prejudicada nisto tudo é a própria federação.

 

Está a dar entender que não concorda com a decisão do Conselho de Disciplina.

Não, não. Concordo e respeito. Mas houve uma actuação de conluio no sentido de impedir o jogo e isso está provado. Agora, o que se veio dizer no acórdão não tem nada a ver com o que eu disse. O que o acórdão veio dizer é que não ficou provado que a equipa do Ultramarina tenha culpa nos incidentes.

 

Então o conluio seria entre quem?

Entre as entidades que não permitiram o jogo e que estava lá. Isso já foi sobejamente divulgado. Não estamos aqui a dar novidade nenhuma a ninguém. Repare que houve entidades políticas que se manifestaram publicamente sobre esta matéria, que emitiram comunicados. O que eu estou a dizer é que houve conluio, porque quando há mais de uma entidade, mais de uma pessoa, há conluio. O que eu estou a dizer é um facto comprovado.

 

Os clubes estão a ponderar pedir uma indeminização à Federação pelos prejuízos causados por este prolongamento do campeonato. Como vê essa decisão?

Com toda a naturalidade. Se os clubes assim o entenderem de pedir uma indeminização à Federação Cabo-verdiana de Futebol, a Federação também saberá lidar com esse pedido e saberá defender-se juridicamente e judicialmente se for necessário, porque a própria federação também está a aguardar os inquéritos prometidos pelo ministro do Desporto em plena Assembleia Nacional, relativamente ao que terá acontecido com entidades do Estado e que intervieram naquele momento em que o jogo deveria acontecer. Portanto, a própria federação espera também vir a ser ressarcida por quem causou as situações que provocaram os danos directos à federação e acabaram por causar danos indirectos a esses clubes que me diz que vão pedir indeminização.

 

Uma última questão. Acha que esta direcção da Federação Cabo-verdiana de Futebol tem condições para se manter depois de todos os problemas que aconteceram neste campeonato?

Não são todos os problemas. É o problema. Este é um problema concreto e circunscrito a determinadas entidades. Isto não é um problema do campeonato nacional. Isto não foi um problema que se alastrou, ou que jornada a jornada tenha havido problemas. Não. Antes pelo contrário. O campeonato estava a decorrer na normalidade, com grande competitividade, no novo modelo, a correr bem e houve estes factos que vieram determinar estes acontecimentos. Nós na direcção da federação somos a vítima. Isto não é uma questão de perguntar se temos ou não condições. Temos todas as condições por uma razão muito simples. Nós fomos a única entidade, até agora, que não violou nenhuma norma, cumprimos as normas todas. Portanto, quando se actua na gestão com base nos regulamentos, com base na lei, cumprindo os prazos, esperando os prazos decorrerem respeitando as decisões de todos os órgãos autónomos da federação, não vejo como não tenhamos todas as condições para trabalhar. Antes pelo contrário. A comunidade futebolística teve, através da actuação da federação, todas as garantias em como estamos preparados para lidar com situações de crise criadas desta forma em que tudo o que foi decidido foi com base nos normativos. Não vejo motivo para essa interrogação, por parte de uma ou duas entidades. Aquilo que é importante para nós é que estamos a proteger o futebol, porque houve esta tentativa muito perigosa, mas muito perigosa mesmo, de interferência grosseira de algumas entidades extra-futebol no fenómeno futebolístico, coisa que a FIFA não tolera e nós temos estado a actuar nesse sentido.

 

Mas quem são essas entidades?

Desde câmaras municipais a políticos e também interesses outros que ainda estão escondidos mas que sabemos que existem e que estão a querer perturbar este momento do campeonato nacional e a querer abalar a credibilidade da federação. Isso é notório. As coisas não acontecem por acaso. Nós não somos ingénuos, pelo contrário, sabemos o que é que se passa. Temos noção daquilo que se está a passar no país, o país não está bem. Há muita turbulência por aí e o futebol, a federação e o presidente da federação têm sido usados dentro desse turbilhão para tentar tirar dividendos para este ou aquele lado. 

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 819 de 09 de Agosto de 2017

domingo, 13 agosto 2017 06:23

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