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Vasco Martins com os músicos: ‘Coraçon leve’ cantado por Hermínia

Aproximação artística técnica e musicológica da gravação do álbum.

Em 1996, tinha na gaveta uma série de canções cabo-verdianas inéditas: mornas, valsas, san jom, coladeira. Tinham sido escritas com intenção de a Cesária Évora as cantar e gravar, alguns anos antes, entre 1985 e 1989. Por vários motivos este projeto não foi possível.

 

Comecei então a procurar uma voz feminina que se interessasse por elas e as pudesse cantar. Fiz algumas audições. Procurava uma ‘catedral de voz cabo-verdiana’. Existiam como existem ainda, mas pretendia que fosse singela.

O produtor Gilbert Castro da famosa editora francesa ‘Melodie’ (hoje desaparecida, engolida pelas chamadas multinacionais), que se tinha interessado pelo projeto, telefonou-me um dia propondo a Hermínia a qual tínhamos ouvido juntos, no Hotel Porto Grande, talvez em 93, na ocasião do lançamento de um álbum da Cesária. A Hermínia fez a primeira parte do concerto e fizemos comentários favoráveis a essa voz única, com um natural ‘self control’, algo aguda, algo estranha.

Quanto a mim, que já a tinha ouvido na rádio, foi uma revelação, e tive a intuição que ela seria talvez a única herdeira das célebres vozes femininas que cantavam a morna até ao princípio do séc. XX, que alguns autores e estudiosos intitulavam de ‘cantadeiras’, sendo a mais famosa a Salibana. Isso porque, segundo o escritor António Aurélio Gonçalves, que era um melómano, os homens não cantavam ou evitavam cantar porque não era ‘apropriado para o homem’. Sendo credível, essa tradição oral talvez estivesse ainda na voz da Hermínia. De facto ou se gostava (ou se gosta) da voz da Hermínia ou não; não há meio-termo apreciativo.

Fui ter com a Hermínia, que morava perto do primeiro parque eólico, por cima do Golf Club de S. Vicente. Ela não estava mas deixei uma mensagem escrita para me contactar logo que fosse possível. No dia seguinte, de manhã, ela veio a minha casa. Fiquei sensibilizado pelo estado de má nutrição em que ela se encontrava. Falei com ela sobre o projecto. Ela aceitou. Pegou num violão e começou a tocar á maneira antiga, com os bordões bem presentes, rítmicos, e cantou uma daquelas mornas que sabemos ser antigas e representar uma época mas a qual não sabemos muito bem situar.

Se eu tinha ficado apreensivo quanto ao estado da voz dela, ao ouvi-la tomei um novo alento. Hermínia ainda possuía a voz com os subtis efeitos na garganta. Mas o estado de depauperamento era notório. Precisava de alento, consultas médicas e vitaminas. Ela fumava o suficiente para causar alguns danos à sua voz.

E assim começou a primeira fase: consultas médicas, vitaminas, trabalho da sua voz. Durante um mês, quase todos os dias, comecei com ela os exercícios de respiração, de ‘limpeza’. A sua afinação era perfeita mas tinha a tendência para prolongar as últimas frases, sobretudo quando eram mais agudas, estilo que aprendera na ilha do Sal onde cantou durante muitos anos nos hotéis e restaurantes, festas particulares, onde recebiam sobretudo portugueses ligados à força aérea, amantes do Fado. Muitas das frases em crioulo eram transformadas em português. A própria Hermínia gostava de cantar o Fado. Estava tão habituada a este fraseado que foi de facto difícil eliminar ou atenuar este maneirismo.

Utilizei o seguinte método: como ela não sabia ler correntemente, ia à sua casa e lia as letras das canções. A sua filha anotava, eu corrigia e a sua filha por sua vez lia. Assim tinha a certeza da compreensão dos textos, que é tão importante como a compreensão musical, já que as palavras têm que ter a mesma emoção. Por outro lado, tinha que ter a certeza que ela gostava dos textos para que eles ‘saíssem da alma’. Isso levou algum tempo.

Depois a parte musical: comprei-lhe um pequeno aparelho para reproduzir cassetes e fiz várias cópias das canções, gravadas com a voz da Margarida Brito acompanhada por Vozinha e eu próprio, que tinha gravado alguns anos antes para dar à Cesária, com o mesmo fim. Depois ela vinha a casa e eu acompanhava-a ao violão, fazendo os comentários, mudando de tonalidades quando preciso para adaptação à sua voz, cuja tessitura não era grande. Mas dentro da tessitura: a ‘grande catedral’ afinadíssima, única!

Chegou enfim o momento de escolher os músicos para acompanhá-la.

O Voginha, é claro, foi o músico ‘pilar’, conhecedor talentoso dos vários ritmos de Cabo Verde tocados no violão, instrumento de que ele é mestre; tanto mais que começou a ter o interesse de estudar os ritmos antigos do violão, sobretudo usados na sua ilha, a ilha da Boa-Vista. Deve-se ao Voginha as orquestrações que fizemos conjuntamente, deve-se a ele a singularidade dos ritmos e som do violão que abrangeu toda a acústica do disco.

O Tey Santos, percussionista e baterista. Músico com grande experiência, um verdadeiro descanso para um produtor musical nos estúdios de gravação. Ritmo constante e certo, muitas vezes inventivo como é o exemplo do ‘bloco chinês’ na parte B da morna «Filosofia» primeiro tema do disco.

Convidei o Tchê Sousa, que tocava baixo comigo, jovem músico com aptidões ‘jazzísticas’. Embora soubesse que ele tinha pouco experiência na música tradicional de Cabo Verde, aparentemente fácil de tocar, difícil para ser bem tocada devido às sincopas contratempos e frases próprias, acreditava que, com ensaios e audições, poderia dar uma boa contribuição para a sonoridade do disco. O que veio a acontecer. Dava-lhe várias gravações de baixistas conhecidos da música de Cabo-Verde já gravada e dos que não eram conhecidos, como o exemplo de contrabaixistas e baixistas que tocaram nos primeiros discos do Bana gravados em Lisboa, anónimos que contribuíram para uma sonoridade única para a época e para hoje e para quem deseja progredir a partir de uma tradição.

Por conselho do Voginha convidei o Djene para tocar cavaquinho e o Gervásio para tocar violão com cordas de aço. Assim o grupo acústico ficou formado com um violão com cordas de nylon (Voginha), um violão com cordas de aço (Gervásio dos Santos), um cavaquinho (Djene Lima), baixo (Tchê Sousa) e percussão (Tey G. Santos). O Tey ficou com uma bateria de percussão simplificada: djembê, cabasa, bloco chinês, udu e pouco mais.

Começamos os ensaios gerais e a orquestração. Às vezes tinha eu próprio algumas ideias que comunicava ao Voginha, por vezes o Voginha tinha as suas ideias e assim juntos assinamos os arranjos que eu desejava simples, melódicos e completamente inseridos na própria música. Quanto aos solos instrumentais, quase todos foram postos nas mãos do Voginha (temáticos e improvisados), um no Djene outro no Gervásio. Para que houvesse total compreensão dos temas, a todos foram distribuídas as canções, as letras e as ideias do projecto. Os ensaios duraram 8 meses, todos pagos pelo produtor Gilbert Castro, com a minha insistência, que eu saiba, acontecimento inédito nos anais da música de Cabo Verde.

O Gilbert esteve em S. Vicente antes de partirmos para Paris e assistiu a um concerto que organizamos em minha casa. Ele apreciou e marcou o estúdio para o mês de Outubro.

Eu estava um tanto apreensivo quanto à gravação no estúdio, pois a Hermínia nunca tivera uma experiência em estúdio, pelo menos profissional. Alguns dos músicos também.

Partimos. Logo no segundo dia começamos a gravação. O engenheiro de som foi o Jean Loup, que já conhecia de anteriores gravações. Optei pela gravação direta: os músicos tocavam juntos em semicírculo, tal como se toca tradicionalmente em Cabo-Verde ou nas ‘noites cabo-verdianas’: cavaquinho atrás, violão 1 e 2 nos lados direitos e esquerdos, baixo um pouco atrás, à direita. Só a Hermínia e o Tey Santos ficaram em duas cabines mas ‘interactivos’ com o grupo porque todos se viam uns aos outros no famoso Studio Davout.

Gravação direta, sem ‘clics’, sem ‘protools’. Daí que a ‘alma’ se mantivesse, pois a maior parte das produções modernas cabo-verdianas usam o ‘clic’ obsessivamente do princípio ao fim, sem ‘nuances’ e tudo depois é tratado na ‘grelha’ de um programa de editing, deturpando a essência da música que é a naturalidade, as subtilezas quase invisíveis dos instrumentistas e do solista.

O primeiro ‘take’ foi a morna “Filosofia”. Um só ‘take’. Eu estava na cabine com o engenheiro de som e o produtor Gilbert Castro e sua assistente. Houve um silêncio entre nós quando acabaram de gravar. Um silêncio profundo, algo místico. O Gilbert Castro perguntou se não fazíamos mais um ‘take’. Eu disse que era inútil porque o primeiro fora perfeito e repetir poderia cortar o bom ‘ambiente’ instalado com essa perfeição. Concordaram e avançamos. Não houve ‘overdubbs’ a não ser o coro formado por Voginha Djene e Gervásio, em certos temas. Em cinco dias tínhamos o álbum gravado. Regressamos à ilha em seguida. Algum tempo depois fui fazer as misturas na maravilhosa mesa SSL 9000, com o Jean Loup.

Começamos pela panorâmica dos instrumentos que ficaram tal como foram gravados. Só a guitarra do Voginha ficou com uma inclinação 3-1. Optei para que o cavaquinho ficasse um tanto à esquerda e a percussão no centro, no fundo. Daí que a sensação de ‘naturalidade’ que temos quando ouvimos no disco. Depois as equalizações e os efeitos (reverb Lexicon, aqui e ali algum delay, sem compressões). Só depois começamos a trabalhar a voz que durou um dia. O timbre e cor natural da voz da Hermínia pouco necessitaram de equalizações. Uma ligeira medida nos médios. O reverb e o delay foram muito controlados, conforme a música que cantava. Com a ‘alquimia’ assim pronta, fizemos algumas experiências.

Conforme cada tema mudávamos um pouco os parâmetros, sobretudo a voz da Hermínia. A mistura durou também quatro ou cinco dias.

Coraçon Leve saiu em 1988 com grande sucesso em Cabo Verde e na Europa. A Hermínia deu vários concertos: Portugal, Holanda, Itália, Bélgica, Espanha, França, sempre aplaudida. A crítica foi elogiosa.

Hermínia veio a falecer em 2010 na ilha do Sal.

Coraçon leve constitui, para alguns produtores e melómanos, uma referência. Para todos que participaram nesta produção, ficaram boas e férteis recordações.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 827 de 04 de Outubro de 2017. 

domingo, 08 outubro 2017 06:11

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