Expresso das Ilhas

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Esquina do Tempo: João Varela Homenagem em 7 tons

Numa iniciativa conjunta da Rosa de Porcelana Editora e a  ALAIM – Academia Livre de Artes Integradas do Mindelo, foi assinalado em Mindelo o 80.º aniversário de João Manuel Varela, cientista, professor e escritor natural da ilha de São Vicente, com uma homenagem presidida pelo Presidente da República. João Manuel Varela, que já tinha sido condecorado com a Ordem do Dragoeiro, foi distinguido pelo Presidente da República com a Medalha de 1.ª Classe de Mérito, a título póstumo.

A Esquina do Tempo, modestamente, propõe uma homenagem em 7 tons, para fazer jus a quem este número foi sempre premonitório, podendo ela ser realizada ao longo dos próximos tempos, de forma cumulativa, sempre em concertação/negociação com a família do homenageado:

 

1. Biblioteca com seus Livros

“Era vontade do João Vário que a sua Biblioteca e o seu ‘espólio’ não saíssem de Mindelo – São Vicente. Mas infelizmente não conseguimos que nenhuma instituição, de forma idónea (seja a Câmara Municipal seja a Uni-CV), assumissem este bem como algo a preservar, a estudar e colocar à disposição, seja para estudiosos seja para o público em geral. E, como tal, com todas as dificuldades de conservação que acarreta, mantém-se à guarda da família”. – António de Néveda, Sobrinho.

A Uni-CV tem esse dever, mais do que a própria Câmara Municipal, já que João Vário foi seu Professor Titular, único nessa categoria até hoje, e tem o edifício do Liceu Velho em restauração com as características ideais e vocação para servir os estudantes e a cidade do Mindelo.

 

2. Prémio de Literatura João Vário

Um Grande Prémio da Literatura sob o patrocínio do Presidente da República, ainda que com apoio de mecenas.

 

3. Reedição da Obra Completa

Deve caber à Biblioteca Nacional e ao Ministério da Cultura, mas, passados dez anos sobre a promessa, tenho poucas esperanças numa iniciativa por parte das entidades oficiais. Atrever-me-ia, antes, a lançar esse desafio à Rosa de Porcelana Editora que, nos seus quatro anos de existência, já deu provas de muita competência e seriedade.

 

4. Criação de uma Cátedra Doutor João Manuel Varela

No âmbito das línguas e literaturas, a Uni-CV criou dois centros de investigação com a designação de cátedras: Cátedra Dr. Baltasar Lopes da Silva, em 2013, a funcionar em Mindelo, à espera de ser instalada, e Cátedra Eugénio Tavares de Língua Portuguesa, em 2015, a funcionar na Praia.

A Universidade do Mindelo, por seu lado, criou, em 2014, a Cátedra António Aurélio Gonçalves, com protocolo assinado com a Câmara Municipal de São Vicente, e que guarda parte da biblioteca do seu Patrono.

Só ficava bem à Universidade Pública liderar esse processo de criação da Cátedra Doutor João Manuel Varela, o homem que pensou a criação da universidade de Cabo Verde logo após a independência nacional.

 

5. Publicação dos Inéditos

Porque exige estudos e trabalho especializado, seria a Cátedra Doutor João Manuel Varela a ocupar-se dessa publicação.

 

6. Inclusão do nome na Toponímia da Cidade

Recordo que meses depois da morte de João Varela, por iniciativa de Tchalê Figueira e Vasco Martins e, num gesto de amizade, Toi Neves, seu irmão, Djack de Beta, Eduardo Cleófas, Onésimo Silveira, Luís Lobo, Josina Freitas, Manú Cabral (autor da placa) e Nando Lopes colocaram uma placa na Rua de Murguine, na casa onde nasceu o cientista e poeta, com os seguintes dizeres:

 

Aqui nesta casa nasceu

o Poeta

João Vário

‘A Beleza é a única verdade revelada’

Cabe, contudo, à Assembleia Municipal e à Câmara de São Vicente a iniciativa de atribuição do nome de João Manuel Varela a uma das ruas da cidade – não tem de ser na zona da Craca – porque o seu povo, o povo de Notcha, deve-lhe isso.

Ao Centro Cultural do Mindelo, espaço que serviu de câmara ardente aos seus restos mortais, proponho seja atribuído o nome desse ilustre filho da terra passando a ser Centro Cultural João Vário.

Atrevo-me ainda a propor aos Correios de Cabo Verde estampar a figura de João Manuel Varela num selo-postal.

 

7. Encenação de suas Obras 

Tendo João Varela uma obra literária variada e rica e sido também homem do teatro, escrevendo textos dramáticos e críticos, lanço o desafio ao Grupo de Teatro do Centro Cultural Português e ao encenador João Branco de adaptar uma das suas obras ao teatro. A cidade da Micadinaia agradece.

Contudo, a maior homenagem que se pode prestar a João Manuel Varela (Mindelo, 07.Junho.1937 – 07.Agosto.2007), aquele que foi um dos mais ilustres cabo-verdianos e um dos seus maiores escritores e da literatura contemporânea em língua portuguesa, é a valorização da sua obra, a sua divulgação, a assunção de que esse é o maior legado que ele poderia deixar ao homem cabo-verdiano.

 

Foto António de Néveda, Mindelo, 2002

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 823 de 06 de Setembro de 2017. 

 

terça, 12 setembro 2017 06:55

2 Comentários

  • arsénio de pina 13-09-2017 Reportar

    Realmente, há que contactar a Academia Cabo-Verdiana de Letras. Fui testemunha das diligência do Prof. Varela, de que participei com o Eng. A. Pedro Silva, junto da Câmara Municipal e do Património do Estado para obter uma sede para a AECCOM, e localizámos vários prédios e pardieiros devolutos, sendo a reacção sistemática que havia projectos para eles. Chegámos até a solicitar os nomes dos responsáveis pelos projectos a fim de negociarmos eventual cooperação e nunca obtivemos resposta. Só que, até actualmente, esses prédios e pardieiros continuam no mesmo estado, o que nos dá uma medida do interesse, tanto do Governo como da autarquia, pela cultura. E foi pena porque o Prof. Varela queria oferecer ao país toda a sua volumosa biblioteca bem como CD, video cassettes, estampas e outros pertences que o irmão teve de arrecadar numa garagem após a sua morte.

  • Novíssimo Rolando 12-09-2017 Reportar

    Muito bem, Brito Semedo! E nenhum repto à Academia Cabo-verdiana de Letras? Pedir a todas essas entidades e deixar de fora a Academia de Letras parece-nos muito estranho. Contudo, valorizamos e apreciamos as suas preocupações e chamadas de atenção a toda essa gente, afim de olharem para a grandiosidade da figura em causa: JOÃO MANUEL VARELA, o maior de todos os grandes homens deste país, tirando, como é óbvio, AMÍLCAR LOPES CABRAL, o gigante de teoria e prática, esclarecidas e consolidadas, para todos os tempos.

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