Expresso das Ilhas

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Diálogos, monólogos e epílogo de um encontro de afectos

Poesia e música, vozes, identidade, língua, polifonia, contemporaneidade, tradução. Com a literatura-mundo como ponto de partida, de tudo isso e muito mais se falou nesta 1ª edição do festival que, de 6 a 9 de Julho, veio colocar a ilha do Sal como centro da literatura cabo-verdiana e bem posicionada como plataforma internacional de debates sobre a literatura-mundo. Nos bastidores do encontro teceu-se ainda uma narrativa de afectos entre múltiplas línguas, culturas e identidades.

 

“Para nós o mundo é feito de literatura e a literatura também é o nosso mundo”. Assim deu o Presidente da República de Cabo Verde as boas vindas às quase cinco dezenas de participantes do Festival. Jorge Carlos Fonseca lembrou aos convidados “todo aquele que escreve sabe como seus vasos sanguíneos se prolongam também para fora do seu corpo, comunicando com uma rede mais vasta onde se encontram todos os livros e autores que fizeram da massa criativa que é. Alguns desses autores funcionam como intermediários para novas escritas, novas abordagens, numa contínua redescoberta deste vasto universo a que nos chamamos literatura.”

Estavam cerca de duas dezenas de actividades programadas para os quatro dias do Festival Literatura-Mundo, entre palestras, workshops, apresentações de livros e painéis de debate. Nesse primeiro dia, em que alguns convidados estavam ainda em trânsito rumo ao festival e outros avisavam da impossibilidade afinal de estarem presentes, o momento de arranque do evento que levara mais de sete meses a planear foi de memória, palavras e partilha nas homenagens ao poeta Corsino Fortes e ao escritor José Saramago.

Podemos pensar a literatura-mundo como literatura do mundo? Perguntava a intelectual são-tomense Inocência Mata pouco depois, quando introduziu em algumas notas o tema principal do encontro.

Ao lembrar que a literatura-mundo não é um campo novo mas também não é uma categoria unânime, a professora e membro do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa criticou o âmbito monolítico e ocidentalocêntrico na ampliação do cânone.

“Escritores só são entendidos como universais quando dialogam com Walt Whitman, Yates, entre outros. Mas quando citam, por exemplo, autores africanos já não são universais”.

O tema da universalidade voltaria à conversa dias depois, pelas vozes dos participantes do painel “A literatura fora dos cânones e a literatura-mundo”. A portuguesa Patrícia Infante da Câmara, também ela investigadora da área temática central do evento, propôs um outro ponto de vista onde o texto literário é classificado de universal “porque é traduzido”. “O texto traduzido já não é pertença exclusiva da cultura de onde brotou mas também daquela onde foi acolhido”, referenciou.

Intrinsecamente conectada ao circuito da literatura-mundo, a tradução foi um dos tópicos sempre em pauta e transversal a vários dos subtemas discutidos. O escritor e crítico literário Sérgio Rodrigues assumiu a defesa da tradução para dizer que “questionar o valor da tradução é uma postura elitista. Como se a literatura fosse feita para ser lida só pelos académicos!”.

“Existe hipervalorização de uma dimensão do fazer literário nos estudos literários”, concluiu o também jornalista.

É para fazê-los chegar a académicos, mas sobretudo a leitores de outras paragens ampliando o eco das suas vozes que a editora Rosa de Porcelana tem em pauta para os próximos cinco anos traduzir todos os autores que até aqui publicou.

“O primeiro do nosso catálogo de autores que iremos traduzir é o Arménio Vieira. Não só os livros que dele publicamos, mas toda a obra do Arménio. Estamos neste momento a dialogar com o autor e com outros editores que anteriormente publicaram obras dele no sentido de todos os seus livros – e são dez títulos – entrarem num projecto de tradução entre 2017 e 2018”, explica-nos Filinto Elísio num dos muitos intervalos entre os painéis de discussão do encontro em que se desdobrava para atender a pedidos de entrevistas, resolver pequenos imprevistos da logística do evento, ou responder a solicitações dos seus convidados.

Uma das convidadas para a plateia desta 1ª edição do FLMSal foi a brasileira Franciele Silva, jovem doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa. Activista contra a discriminação racial e das minorias, a jovem foi uma das vozes mais interventivas e sonantes da plateia e que forçou uma discussão paralela sobre a invisibilização das mulheres negras na literatura brasileira e até mesmo no espaço literatura-mundo.

Guiomar de Grammont, escritora, editora e curadora de importantes eventos literários, no Brasil e não só, concordou com a chamada de atenção da sua conterrânea, ela que criou e coordena, desde 2005, as edições anuais do Fórum das Letras de Ouro Preto onde a participação e representatividade das autoras brasileiras afrodescendentes é um dos pilares centrais.

Quem não ficou à espera de convite para assistir a este importante encontro foi a jovem cabo-verdiana Janice da Graça. Ainda no início do ano, quando ouviu falar pela primeira vez do Festival Literatura-Mundo do Sal, esta mindelense que sonha ser poeta aproveitou uma promoção de uma companhia de transportes aéreas para adquirir o seu bilhete para a ilha do Sal.

“Eu sabia que iam estar cá todas estas pessoas - escritores, editores, críticos… - e achei que era uma oportunidade que deveria aproveitar”, diz ela que é uma das autoras que integram a colectânea de poesia inédita “Poetas para o Ano Novo”, a ser lançada esta semana em São Vicente.

Presente nas primeiras filas de quase todos os painéis, a jovem não se limitou a assistir aos debates, explorando oportunidades de networking nos momentos de pausa e lazer do evento. Daí a receber convite para declamar um poema seu aos convidados foi um passo.

Que portas terá conseguido abrir, ainda é cedo para dizer. Mas a sua participação acaba por resumir um certo espirito do Festival. O das conversas informais das mesas dos restaurantes dos hotéis que acolheram os convidados. O do humor partilhado durante as diárias viagens de autocarro entre um ponto e outro de acolhimento das actividades do Festival. O da partilha dos fazeres e das pequenas-grandes coisas sobre o ponto de origem de cada um. Um certo espírito mas também as esperanças, que uns trouxeram e outros levaram consigo ao cair do pano do encontro literário.

“A generosidade de todos é algo que nos marca sobremaneira. Generosidade sem a qual não poderíamos erguer um convívio cultural com meia centena de convidados de vários países do mundo, treze nacionalidades”, observou Márcia Souto no encerramento do evento, ao agradecer os vários mecenas e apoiantes do evento.

Ela que deu voz à equipa da organização do evento para assumir que nesta primeira edição de Festival Literatura-Mundo partiram de uma base aceitável enquanto quantidade de participações e quantidade de contribuições. “Mas estamos conscientes de termos realizado apenas a primeira etapa. O festival já iniciado e com essa primeira etapa cumprida precisa crescer e ganhar o mundo. Há que desenvolve-lo na segunda edição e aprimorá-lo na terceira, na quarta…”

Este desenvolvimento, projectam os idealizadores e organizadores do Festival, passará por incorporar mais mesas sub-temáticas, oficinas com escolas, mini-feiras de livros, novos parceiros literários, mais universidades, editoras e livrarias.

Para a ampliação da plataforma internacional criada a partir deste primeiro encontro e porque há “ainda muito por fazer em termos de carga cientifica” a organização cientifica da Rosa de Porcelana, a Curadoria de José Luís Peixoto e a Câmara Municipal do Sal prometem trabalhar para conseguir nas próximas edições mais interacção com o público, mais vozes de vários continentes e sobretudo dialogar e crescer em circulação de ideias sobre a temática da literatura-mundo.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 815 de 12 de Julho de 2017

sábado, 15 julho 2017 06:26

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