Expresso das Ilhas

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Dina Salústio, Escritora: “A Academia Cabo-verdiana de Letras pode dar mais visibilidade às pioneiras da escrita em Cabo Verde”

Depois de cerca de dez anos a viver em Portugal, a escritora Dina Salústio está agora mais aqui do que lá, devido a uma infeliz circunstância pessoal. Sem querer revelar muito sobre os três livros que tem quase pronto, nesta conversa assume-se como uma autora com causas e deixa perceber que ainda tem muito a dar à literatura cabo-verdiana.

 

 

As mudanças porque passou nestes últimos tempos influenciaram a sua escrita?

Sim…Acho que fiquei bloqueada. Ainda fui dando seguimento a coisas que já tinha começado, mas em termos criativos fiz muito pouca coisa. Não é que não tinha gosto em escrever, tinha outras preocupações, outras prioridades. Mas, de qualquer modo, a gente cresce ao acompanhar o sofrimento dos outros, de alguém tão próximo… Já antes de ter partido para Portugal influenciou, cortou o meu processo criativo.

 

Mas ainda publicou qualquer coisa nesses dez anos…

Sim, fui publicando umas coisas...Textos para antologias, comunicações. O resto foi ficando…

 

Consegue fazer vida de escritora?

Sim…Quer dizer, vida de escritora era se eu vivesse disto [risos].Se eu recebesse um salário. Por aí eu seria escritora…Mas participo de encontros, faço conferências, convidam-me para antologias…

 

Há um tabu nessa questão de ostentar o título de escritor(a)? Acha que há uma supervalorização do que é ser escritor e que inibe as pessoas que se dedicam a escrever a assumir este título?

Acho que a partir do momento em que há um reconhecimento dos críticos, em que a tua obra é estudada nas escolas…Não deve haver tabu de a pessoa assumir-se quando é reconhecida como tal. Se a pessoa escreve e publica é escritor(a). Agora, será sempre feito um juízo de valor sobre a sua obra pelos outros.

 

 Por falar em juízo de valor, como é que lida com isto? Consegue abstrair-se das críticas e da opinião dos leitores ou é algo que acaba por condicionar o seu trabalho?

Penso que é algo marcante, e não condicionante. Uma pessoa fica contente quando tem boas críticas. Eu por acaso tenho tido boas críticas e é esse o “salário” que recebo. As críticas fazem-me crescer, ter um olhar diferente sobre o que escrevo. Saber que o que se escreve é objecto de estudo, faz com que você se aprofunde mais. Você vai ter mais cuidado naquilo que escreve e nas suas consequências.

 

A Dina preocupa-se mais com a escrita a nível da gramática, da estética e linguagem ou mais com o conteúdo, a profundidade da estória, a densidade dos personagens? Ou é algo completamente “automático”?

Eu tenho cuidado com o que escrevo porque tenho causas para defender com a minha escrita.

 

Que causas são essas?

Por exemplo, preocupo-me com a protecção das crianças, a não-violência sobre as crianças, preocupo-me com o silêncio em relação à violência sobre a mulher, com a escravatura… São olhares meus e que dão conteúdo à minha escrita. Toda ela não será uma escrita de conteúdo… Não quer dizer que obrigatoriamente eu escreva sobre estes temas. Mas acho que um escritor tem que ter causas. Não conheço nenhum que não tenha.

 

Sente que na literatura cabo-verdiana as mulheres assumem mais uma escrita com causas do que os homens?

Nem por isso. Acho que todos escrevem sobre o que os preocupa, o que lhes dá prazer...Homens e mulheres não são iguais em todos os aspectos. A minha causa pode ser contra o silêncio em relação à violência sobre as mulheres... Um homem veria isso de outro ângulo, teria outra forma de abordar, outras preocupações…

 

Recentemente participou aqui num evento [promovido pelos alunos e pela coordenação do curso de Língua e Literatura Cabo-verdiana da Uni-CV] em que se debatiam estas questões. Sente que há mesmo esta distinção tão óbvia entre a escrita feita por mulheres e a feita por homens?

Achei esse evento fabuloso! Ver os estudantes que estão a nascer como investigadores e críticos a darem uma valiosa contribuição... Acho que há uma escrita feita por mulheres e não uma escrita feminina. Há sim um olhar diferente, somos diferentes, temos experiências diferentes, expectativas e esperanças diferentes… Mas acho a expressão “escrita feminina” redutora. Escrita feita por mulheres, acho que sim.

 

Como mulher da sua geração, há algum tema em que não tocaria?

Se sentisse que não domino algum tema eu iria preparar-me para ele, ou desistia por falta de capacidade. Eu escrevo mais prosa do que poesia e safo-me melhor. E aí tenho essa preocupação de não me rever nos textos, não criar personagens que se pareçam comigo. Alguma experiência pessoal pode passar, mas não mais do que isso. Tento distanciar-me e acho que outros autores também fazem isso, porque se não esvaziavam-se depressa. Tornava-se repetitivo. O escritor é um fazedor de autenticidade. E se não consegue fazer isso é porque não é escritor.

 

O leitor médio cabo-verdiano tem a tendência para identificar o personagem com o autor…

Ah sim! Eu acho isso “delicioso”. Convivo muito bem com isso porque eu sei que não é verdade. Uma vez escrevi uma crónica e depois encontrei um amigo que me disse: “Eu sei onde essa cena se passou. Foi ao pé da tua casa, e foi assim e assim, etc, etc”. Também tenho um conto em que há uma personagem que é uma prostituta que se chama Djina e um aluno perguntou: “professora, a Djina é a Dina?” [Risos] E eu tive que explicar que não… O leitor tem essa necessidade de identificar o personagem e as situações com a sua realidade. Se eu não conseguisse distanciar-me disso eu ficaria perdida.

 

Parece que há uma dificuldade em acreditar na capacidade de imaginação e de invenção do escritor…

É um bocado isso também. O leitor pensa que se a escritora o conseguiu emocionar, não foi com uma invenção, foi com algo real, que se passou com ela... Aí é que está o ponto, ele não acredita que a emoção que sentiu é uma mentira, que foi baseada numa mentira, numa invenção.

 

Referiu-se antes à crítica. Mas falar em crítica literária em Cabo Verde… Talvez por sermos um meio pequeno, parece que a estratégia para separar “o trigo do joio” é termos comentários e análises elogiosos ao que se acha que é bom e ignorar-se o que não é.

Sim, somos todos primos, amigos e família. Acho que, de certa forma, é terno não se fazerem comentários negativos…Nós agora temos universidades e aí já se vai formando uma massa crítica. E acho que até é bom não haver essa crítica negativa porque assim ninguém fica destruído, embora acabe por receber as críticas mais imediatas dos leitores…

 

É membro da Academia cabo-verdiana de Letras? Quem é o seu imortal?

Sim, fui convidada e sou membro, mas ainda não tenho um imortal porque entenderam que na altura eu estava num período delicado…O Corsino [Fortes, primeiro presidente da ACL] foi muito atencioso e disse-me para tomar o meu tempo…Por isso ainda não tenho ninguém em mente.

 

Mas quais são as suas referências na literatura cabo-verdiana?

Bem, são aqueles com quem convivi como leitora. São todos os “claridosos”. Amo os “claridosos”. Eu escolheria um deles para meu imortal…

 

Mas esses já devem estar todos tomados…

Pois…

 

Não sente que há um certo desconhecimento em relação às mulheres cabo-verdianas que escrevem e escreveram, principalmente as do século XIX e inícios do século XX?

Sim, mas escreveu-se muita pouca coisa. As mulheres não estiveram na Claridade.

 

Sim, por causa da época que era, uma época em que as mulheres podiam aspirar a muito pouco nessa área…

Toda a obra que fica é porque tem importância. Aí encontramos por exemplo a Maria Helena Spencer e pouco mais… Acho que sim, que a Academia podia ter esse papel de dar mais visibilidade às pioneiras femininas da escrita em Cabo Verde.

 

E estamos agora no século XXI. Sente que as mulheres que escrevem estão mais visibilizadas ou nem por isso? Há uma auto-exclusão?

Os meios de comunicação encarregam-se disso. Não há auto-exclusão. Há tempos vi um apanhado num jornal com os valores da escrita em Cabo Verde e praticamente não havia lá mulheres. Podem dizer “queria ver o seu nome lá”…Pois queria! Como queria ver o nome de outras mulheres. Quando a sociedade, e as próprias mulheres, rejeitam outras mulheres por não sei que motivo… Estamos a nos tornar numa sociedade mais mesquinha, mais intolerante e sobretudo mais ignorante. Porque, por exemplo, se alguém não reconhece que a Chissana tem qualidades, eu é que fico a perder. Por não reconhecer, por ignorância e por não aceitar que há mais um elemento de valor na nossa sociedade.

 

Há machismo na literatura cabo-verdiana?

Eu gosto de analisar as coisas atendendo à época. Há um livro de um autor que eu gosto, que é o Manuel Lopes, em que ele põe as personagens com uma sensibilidade tal, com a sensibilidade tão à flor da pele que você diz que todas as personagens são mulheres. Por exemplo, o marido da Zefa [personagem de “Os Flagelados do Vento Leste”], tem uma sensibilidade tão estranha, tão extensa…Ele vive um conflito porque sente que não está a cumprir o seu papel de homem, de levar comida para casa…Porque era um papel que lhe era atribuído pela sociedade. Nessa época não se colocavam estas questões [à volta dos papeis do género] e por isso é interessante a maneira como ele escreve isso…Agora, será que em pleno séc. XXI justificam-se certas coisas? A violência? Um homem bater numa mulher porque ele é que sustenta a casa? A nossa sociedade já não se coaduna com isso.

 

A escritora moçambicana Paulina Chiziane anunciou recentemente que vai parar de escrever porque sente-se incompreendida e desvalorizada no seu país. O que pensa disto?

Sim, comentamos sobre isso no nosso grupo de amigos e escritores em Portugal. Acho que ela não deveria ter dito isso. Que deveria ter dito então que não voltaria a publicar, e não a não escrever. Porque uma pessoa quando escreve, escreve sempre. Mas ela lá sabe o que está a dizer. Talvez ela não queira mesmo voltar a escrever. Talvez ela queira se mutilar….

 

Acha que as razões que ela apresentou não são válidas?

Depende das expectativas dela. Eu estou a falar assim e a pensar aqui dos meus 70 anos. Ela é mais nova do que eu…Não sei. Ela não se sente valorizada.

 

Disse também que queria provocar mudanças…

Bom, duas coisas. Primeiro, mudanças ninguém consegue sozinho. É juntar a minha voz à tua, à de outro, e irmos juntando e mobilizar todo o sentimento a favor da justiça. Porque no fim é isso que queremos todos: justiça. Isto ninguém consegue sozinho. Eu não espero provocar mudanças. Espero contribuir para isto. E eu sinto-me valorizada aqui em Cabo Verde quando vejo estudantes que lêem e discutem o meu trabalho. Há tempos convidaram-me para o centenário da biblioteca de Roterdão e chego lá e há duas paredes cobertas com painéis sobre o meu trabalho. Foram estudantes, filhos de emigrantes de todas as nacionalidades, que fizeram aquele trabalho. Imagina a alegria que tive? Isso para mim é recompensa. Podem não pôr no jornal que eu sou uma das referências da literatura em Cabo Verde. Fico chocada? Fico. Mas, para mim, são estas pequenas coisas é que têm valor.

 

A Dina Salústio publicou o seu primeiro livro já com 53 anos, no início dos anos 90. Foi algo pensado?

Não estava nos meus horizontes publicar. Nunca tinha pensado. Escrevia desde muito jovem, escrevi e publiquei muito em jornais e trabalhei na rádio por muitos anos. Mas na época não era prática comum as mulheres publicarem livros.

 

Isso era um factor que a inibia?

Sim, uma espécie de não-história. Mesmo os autores-homens começaram a publicar mais só depois da independência. E os que publicavam faziam-no em Portugal. Foi só com a criação do Instituto Cabo-verdiano do Livro e pequenas editoras nacionais que começou a haver publicação em Cabo Verde. E as mulheres demoraram mais… Eu tinha as minhas colunas nos jornais… De certa forma aquilo chegava-me.

 

Mas como foi que finalmente publicou?

Se não me engano, foi um director do Centro Cultural Português da Praia que levou os meus contos para Portugal e publicou “Mornas Eram as Noites”. Que recentemente foi publicado em Espanha e recebi agora um convite para lá ir participar de uma conferência.

 

Uma obra que é um marco na literatura nacional e que continua muito actual.

Eu acho que tem a sua utilidade. Não digo que é um marco, e sim que tem uma utilidade. Principalmente ao ver os estudantes a trabalharem esta obra…

 

O seu livro ”A Louca de Serrano” é identificado como o primeiro romance de uma escritora cabo-verdiana…

Acho que houve antes qualquer coisa... Na diáspora, parece-me.

 

Escrever um romance foi algo a que se propôs?

Sim, eu estava a testar a minha capacidade. Pensei que já tinha capacidade para escrever um romance e avancei. Não é fácil.

 

Corrobora de uma certa ideia de que o escritor só é completo quando escreve um romance?

Não. E um poeta? Camões escreveu um romance? Alguém já me disse que eu devia dedicar-me mais aos contos porque o romance demora a sair. Um romance é um estado de alma. Sim, é isso. Um conto é uma oportunidade, um romance é um estado de alma. Tenho agora dois romances prontos e tenho escrito muitos contos. Não tinha planos de publicar mas há uma editora brasileira que me pediu os contos para publicar.

 

E sobre o que são estes novos contos? Giram à volta dos mesmos temas?

Continuo com o mesmo olhar sobre a sociedade. Em alguns exploro mais a personagem, noutros mais a situação…Noto que nos mais recentes fixo-me mais nos personagens.

 

E sente-os diferentes de há dez, vinte anos atrás?

Os meus personagens estão a tornar-se mais velhos e já meto os seus filhos para dar mais vida.(risos) Os da faixa dos 30, 40 anos…A geração mais antiga é mais calma, mais ponderada, mais sofrida. Então há coisas que tenho que pôr na boca dos mais jovens, dessa geração de 30-40 anos, com mais alegria, mais “pimenta”…

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 769 de 24 de Agosto de 2016

 

domingo, 28 agosto 2016 06:00

2 Comentários

  • Francisco Luis 08-11-2016 Reportar

    ser escritor tem sido um caso e admiracao por isso me admiro de tanta inspiracao espalhada que merece tanto elogio porque nao e facil nos ultimos tempos ser acreditado e publicado sua s obras eu ecscrevo a 10 anos mas nuca tive oprtunidade de ser orientado que vai ai o faca ou usa esta conduta para chegar na editora y tudo e graca a influencia e sorte na vida por isso continue com mais inspiracoes dentro das oportinidade que tiver

  • JOÃO dADVENA 28-08-2016 Reportar

    Esta senhora, que me parecia diferente dos outros doutos do norte, afinal, alinha pelo mesmo diapasão: em Cabo Verde as únicas referências válidas na literatura são sempre do barlavento. E o mundo já deu tantas voltas e ela, ainda, na provecta arena dos claridosos, de pé fincado no chão. Espera ler de si uma entrevista mais sintonizada com o tempo. E se alguém disser que determinado escritor não referência da literatura cabo-verdiana é motivo para esse escritor ficar chateado? Não, não tem de quê. Quanto à recente declaração da senhora Chiziana de Moçambique acho-a simplesmente vaidosa, inconsequente e nada de coerente. Há tempos não muito remoto ela afirmara ser indiferente com a crítica, agora vem dizer que se mutila, porque é incompreendida. Paciência! Se Fernando Pessoa optasse por essa solução hoje a literatura lusófona e universal era muito mais pobre. Não, ela queria monopolizar toda a atenção, mas com Mia Couto e o outro ao pé (Bacakosa)? Só bazofiaria dessa senhora narcisista.

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