Expresso das Ilhas

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Expresso das Ilhas - Actualidades
quarta, 26 julho 2017 16:56 Publicado em Mundo

O secretário-geral da ONU, António Guterres, considerou hoje que o regresso das violências à República Centro Africana (RCA), com a morte em 2017 de nove 'capacetes azuis', pode comprometer vários anos de esforços para restaurar uma frágil estabilidade.

quarta, 26 julho 2017 15:31 Publicado em Desporto

O atleta paralímpico cabo-verdiano Marilson Semedo conseguiu hoje a medalha de prata na categoria F 42 (amputação acima do joelho), na prova de lançamento de dardo, nos Jogos da Francofonia, que decorrem em Abidjan, Costa do Marfim.

quarta, 26 julho 2017 15:21 Publicado em Cultura

Termina a 31 de Julho o prazo para submissão de candidaturas à edição de 2017 do mais antigo festival de cinema do país ainda no activo. O anúncio dos filmes seleccionados acontece duas semanas depois, a 14 de Agosto.

quarta, 26 julho 2017 15:07 Publicado em Mundo

O Senado dos Estados Unidos recusou na terça-feira à noite a primeira proposta dos republicanos submetida a votação nessa câmara para rejeitar e substituir o Obamacare, o sistema de saúde do ex-presidente Barack Obama.

quarta, 26 julho 2017 14:57 Publicado em Eitec

A primeira unidade de formação do projecto WebLab, desenvolvido pelo Núcleo Operacional de Sociedade para a Informação (NOSI), vai ser instalado num dos estabelecimentos das Aldeias Infantis SOS Cabo Verde.

quarta, 26 julho 2017 12:57 Publicado em Política

O grupo parlamentar do PAICV acusou hoje o governo de colocar em causa os ganhos conseguidos em matéria de governação electrónica. A posição consta de uma declaração política sobre sistemas informáticos de suporte à governação electrónica, apresentada no parlamento, no período antes da ordem do dia.

quarta, 26 julho 2017 12:07 Publicado em Cultura

Depois da sua recente condecoração com a medalha do Segundo Grau da Ordem do Dragoeiro pelo Presidente da República, a companhia de dança Raiz di Polon levou a sua última peça, "A Serpente", ao MAPAS (Mercado de Artes Performativas do Atlântico Sul) cuja primeira edição decorreu semana passada em Santa Cruz de Tenerife, nas Canárias. A participação do grupo – que no Domingo contou com casa cheia – foi pretexto para uma conversa (às vésperas da partida) com Jeff Hessney, produtor e relações públicas da companhia, e que também assume regularmente as funções de tour manager, técnico assistente de luz e som, director musical, etc. Integrado nos Raiz di Polon desde inícios da década de 2000, Hessney conhece como poucos a essência do grupo. 

quarta, 26 julho 2017 10:42 Publicado em Cultura

Após uma tournée por quatro cidades da Alemanha, no projecto LusAfro, o rapper/MC cabo-verdiano Hélio Batalha vai levar o seu novo álbum “Karta D’Alforria” a Portugal.

 

quarta, 26 julho 2017 09:59 Publicado em Economia

As organizações da sociedade civil querem que o Orçamento de Estado para 2018 traga melhorias para a economia e condições de vida dos cidadãos. As posições foram apresentadas à última edição do programa Panorama 3.0 da Rádio Morabeza.

quarta, 26 julho 2017 09:11 Publicado em Política

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a TACV, ontem empossada, promete trabalhar para esclarecer o que realmente aconteceu com a Transportadora Aérea Nacional.

quarta, 26 julho 2017 08:02 Publicado em Mundo

O Iémen sofre "o pior surto de cólera do mundo, naquela que é a maior crise humanitária do mundo", afirmaram hoje três agências da ONU, num comunicado conjunto.

quarta, 26 julho 2017 07:56 Publicado em Sociedade

A cidade da Praia registou 53 casos de paludismo desde o início do ano, 49 dos quais locais, números considerados anormais, já que a maioria dos doentes foi diagnosticado nos últimos dias, informou ontem a delegada de Saúde.

quarta, 26 julho 2017 06:27 Publicado em Opinião

Fui visitar a bonita ilha da Boa Vista e passei lá uma semana. Há anos que não tinha essa oportunidade, tendo apenas passado pela ilha várias vezes na ida e regresso de Inglaterra, aproveitando os voos charter que o turismo trouxe.

Foi uma ocasião para rever velhas amizades e, mais uma vez, passar as festas do município, que se realizam a 4 de Julho, data ícone dividida com os Estados Unidos, embora os boavistenses emigrem pouco para a América.

Desenvolvi com as ilhas do Sal e da Boa Vista uma relação especial, que data dos primórdios da minha actividade empresarial. Em 1992, recém-chegado dos bancos da Universidade do Algarve, fui logo agraciado com duas funções, qual delas a mais importante: responsável nacional da pesca da lagosta e chefe da Divisão de Estatísticas do Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas (INDP). Bons tempos em que um recém-formado começava a sua actividade profissional a acumular cargos de chefia, obrigado a um crescimento pessoal e profissional prematuro. Volvidos 25 anos, este mesmo país colecciona recém-formados no desemprego, que já se contam aos milhares, e cujo número aumenta todos os anos nesta altura do ano.

As minhas elevadas funções levavam-me a viajar para essas duas ilhas numa base quase trimestral. Lembro-me da praia de Santa Maria com apenas dois pequenos hotéis e lembro-me da Boa Vista sem hotéis nem restaurantes. Ainda conto a experiência da primeira vez que viajei para a Boa Vista e de como passei fome nessa noite, porque à hora do almoço não encomendei logo o jantar... era assim a pacata ilha da Boa Vista há 25 anos, com os seus cerca de 3.500 habitantes.

Durante os 5 anos em que estive no INDP, criei estreitos laços com as gentes dessas ilhas, onde mantenho muito bons amigos. Vi com tristeza morrer mergulhadores da pesca da lagosta, por não observarem as regras de segurança dessa perigosa actividade. Orgulho-me de ter organizado o que terá sido um dos primeiros cursos de mergulho com o professor Munaya. Mas para muitos dos meus amigos mergulhadores já era tarde...

Já nessa altura, depois de ter passado 6 anos no Algarve e de ter assistido ao boom turístico da região, eu sonhava com turismo para as extensas praias que via das embarcações quando saía para o mar com os mergulhadores das ilhas do Sal e da Boa Vista.

Partilhei na altura esse sonho de ver hotéis nessas praias com algumas pessoas que se riram de mim: turismo nestas nossas ilhas? Quem quer ver estas “rotchas” nuas?! O cabo-verdiano, traumatizado com a falta de chuvas, julgava que turísticas só podiam ser paisagens verdejantes: ainda não se conhecia o Algarve nem as Canárias...

Ainda argumentei que, quando tinha 9 anos, havia acompanhado a minha mãe à Boa Vista quando ela lá foi fazer exames, uns dias depois da independência, a 5 de Julho de 1975, e que nessa altura levaram-nos à já famosa praia de Santa Mónica, mostrando-nos alguns resquícios de construções de investidores alemães que quiseram construir dezenas de hotéis e um aeroporto internacional na ilha. Reza a história que o ditador português Salazar lhes disse que não, que investissem no Algarve. Agastados, terão ido contactar outro ditador, Franco, de Espanha, que lhes abriu as portas das ilhas Canárias. E assim, mais uma vez, Cabo Verde foi ultrapassado, mais uma oportunidade perdida nos anais da história martirizada destas ilhas que alguém chamou de afortunadas.

Mas tive de me calar e meter no saco os meus sonhos de jovem imberbe. Hoje, muitos dos que troçaram de mim são grandes arautos do mau turismo que temos.

Porque não foi, de maneira nenhuma, o turismo que hoje temos que fazia parte dos meus sonhos. Nos 6 anos que vivi no Algarve, vi ser construído aquele que hoje é considerado um dos melhores destinos turísticos do mundo, aonde tenho sempre o prazer de regressar para constatar repetidamente que pode haver turismo com segurança, paz e tranquilidade nas cidades. Ainda hoje caminho à noite ou de madrugada em qualquer cidade algarvia com uma segurança que não tenho em muitas cidades do meu país. O Algarve tem 4.996 km2 (Cabo Verde, 4.033 km2); tem uma população de 444.390 pessoas e, em 2016, registou um recorde de 14,2 milhões de dormidas.

Na ilha da Boa Vista, com 15.533 habitantes, já temos assaltos à mão armada a turistas, quando há bem poucos anos ninguém fechava as portas das suas casas...

Nesta minha estadia, fui visitar o Hotel Marine Clube, um dos primeiros da ilha. Quando foi construído, esse hotel tinha uma grande interacção com a comunidade local. Era o lugar dos grandes eventos, um dos maiores financiadores do Festival da Praia de Cruz, na praia mesmo à frente do hotel. Tantas vezes fui lá almoçar e jantar nas férias. Ou apenas ir lá tomar um café com amigos. Desta vez, fui barrado à porta, porque o hotel foi convertido à modalidade all-inclusive, essa moda que invadiu Cabo Verde.

Enquanto fazia meia-volta, não pude deixar de me lembrar dos crioulos das Seychelles, que proíbem essa modalidade porque dizem que o turismo é para beneficiar primeiro as suas próprias populações. Nós constatamos isso, visitando vários hotéis naquelas ilhas crioulas africanas. Nem no meu tempo de estudante no Algarve eu tinha tido esta experiência de ser barrado à porta...

É assim, hoje, aos cabo-verdianos é vedado o acesso a um mundo à parte dentro do seu próprio país, onde só entram para trabalhar ou se forem clientes do hotel.

Naturalmente que nem tudo está mal na ilha da Boa Vista. Houve um enorme crescimento económico e demográfico, e hoje a ilha é um dos pólos mais dinâmicos do país. A questão é o gosto amargo que fica na boca quanto ao aspecto do desenvolvimento.

As estatísticas demográficas do INE mostram uma realidade que se pode ver no quadro seguinte.

 

Ano

1990

2000

2010

2016

Nº habitantes

3.427

4.209

9.162

15.533

 

Segundo o INE, em 2016, dos 15.533 habitantes, 56,1% são naturais de outra ilha e 12,8% são imigrantes. Ou seja, os boavistenses passaram a ser uma minoria na sua própria ilha.

A ilha possui apenas 2,9% da população do país, mas mesmo assim concentra 29,3% das camas turísticas de Cabo Verde e 40,7% das dormidas, o que diz muito do nosso planeamento turístico, num país em que todas as ilhas são turísticas e que possui 4 aeroportos internacionais. Mas a estatística que chama mais a atenção é que a ilha possui apenas 8,3% de pobres!

Deixei para o último dia para ir conhecer o famoso bairro de barracas, onde vive grande parte das pessoas que chegaram à ilha seguindo o atabalhoado boom turístico da mesma.

O referido bairro é bem pior do que eu imaginava... Ao aproximar-me de carro e entrar, fiquei chocado! Por momentos, fui transportado para os bairros limítrofes de cidades africanas que conheci bem dos meus tempos da Shell, como Dakar, Abidjan ou Accra. Barracas andrajosas, desalinhadas em becos, ruas sujas e nauseabundas, um mundo que nunca esperei ver no meu país!

Na ilha onde se gera o maior PIB per capita do país é onde as condições de vida dos cabo-verdianos são mais deploráveis; foi para isto que ascendemos à independência política? Foi para ter estes resultados que abrimos o país ao investimento externo?

Ao longo da história, os cabo-verdianos foram sempre pobres e viveram em casas humildes; hoje, trabalham em ambientes bem mais sofisticados do que debaixo do sol abrasador dos campos agrícolas, mas vivem de forma indigna em pleno século XXI.

Os 3 pólos de maior dinâmica económica estão pejados de bairros de barracas – Praia, Sal e Boa Vista; ou seja, onde a nação cabo-verdiana conseguiu imprimir algum crescimento económico significativo, o resultado para as populações é desastroso num dos aspectos mais fundamentais para os seres humanos: o direito a habitação condigna e condições de vida saudáveis, sobretudo para as crianças.

Não aguentei percorrer o bairro, hoje denominado de “Boa Esperança” (o nome só pode ter sido escolhido como brincadeira de mau gosto!), inverti a marcha e procurei sair de lá o mais depressa possível.

No caminho de saída, passei por uma jovem crioula cabo-verdiana toda bem fardada (e certamente perfumada), a caminhar pelas ruas húmidas de água suja, dirigindo-se para o centro da cidade para ir trabalhar nos hotéis; fiquei a pensar quantas centenas de pessoas fazem todos os dias esse percurso sobre aquele piso de terra nauseabundo a caminho dos hotéis onde trabalham – onde está a higiene? É este o turismo de qualidade que pretendemos?

O INE diz que apenas 8,3% da população residente na Boa Vista é pobre; para isso utiliza indicadores que aplica (indevidamente) a todo o país.

Num tempo em que se fala a nível mundial de economia da felicidade e de outros conceitos para além dos tradicionais indicadores economicistas, eu diria que os que vivem nas barracas, que constituem a maioria da população da outrora limpa e arranjada ilha da Boa Vista, não vivem realmente na pobreza, vivem na mais pungente miséria humana.

Um gueto habitado maioritariamente por gente vinda da ilha de Santiago, um autêntico submundo que não se mistura com o resto da população residente de uma ilha dividida em mundos estanques: turistas nos hotéis, população autóctone rodeada de barracas de imigrantes, por sua vez rodeados de casas sociais desabitadas do famoso programa Casa para Todos.

Uns dias antes da minha viagem, perguntei a uma grupo de 5 alunas da Boa Vista, de uma das minhas turmas universitárias, se a influência do crioulo de Santiago não se estava a fazer sentir no crioulo da ilha delas e na sua engraçada forma de falar. Responderam-me que não, porque os santiaguenses viviam no bairro de barracas... ao que parece, a inclusão social entre cabo-verdianos na ilha das dunas é por enquanto uma miragem.

Agora percebo melhor o pavor que vi e ouvi na ilha do Maio há 2 meses em relação à hipótese de se repetir na ilha o que se passa hoje na vizinha ilha da Boa Vista.

Quem foram os responsáveis pelo crime humanitário, urbanístico, social e ambiental que se abateu sobre a ilha da Boa Vista? Uns dirão que foi a Câmara Municipal, por não ter travado a proliferação das barracas; sem dúvida, mas não foi a autarquia quem autorizou a construção de hotéis de centenas de quartos numa ilha com pouco mais de 3 mil pessoas. O Governo de Cabo Verde, liderado durante 15 longos anos por José Maria Neves, o homem do amor à terra, foi quem deixou que isso acontecesse. Um governo de um partido que se diz de esquerda, que defende o humanismo, etc., etc. Já imaginaram se eles não fossem de esquerda?!

Custava assim tanto ter negociado com os investidores contrapartidas em termos de habitação social, em troca dos incentivos previstos no estatuto de utilidade turística? Certamente que os investidores seriam os primeiros interessados em evitar que na ilha se criasse um gueto desses.

Regressei da Boa Vista profundamente envergonhado e revoltado. Este não é o Cabo Verde com que sonhei, não foi esse o turismo que desejei e muito menos foi esse o impacto que imaginei ver. Quando o avião descolou, pude constatar do ar o autêntico desastre que se abateu sobre a ilha, e fiquei a pensar que é essa a última imagem que os turistas levam de uma das mais bonitas ilhas de Cabo Verde, um país que gosta de acreditar que é uma referência em África e no mundo...

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 816 de 19 de Julho de 2017

terça, 25 julho 2017 17:25 Publicado em Economia

O Governo autorizou a companhia aérea pública TACV a contrair um empréstimo bancário de dois milhões de dólares (mais de 189 mil contos) junto do Banco Privado Internacional (BPI), a menos de uma semana de a transportadora encerrar as operações domésticas.

terça, 25 julho 2017 16:38 Publicado em Política

A União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) chama a atenção para a necessidade de se consolidar o sistema nacional de ensino. A posição do partido foi apresentada hoje, no parlamento, pela deputada Dora Pires, durante uma interpelação ao governo.

terça, 25 julho 2017 15:47 Publicado em Sociedade

A Polícia Judiciária (PJ), na cidade da Praia, procedeu hoje à destruição, através da queima, de cerca de 30 quilos de cocaína e cerca de três mil quilos de canábis que se encontravam depositados no cofre-forte da instituição.

terça, 25 julho 2017 15:17 Publicado em Mundo

A Coreia do Norte ameaçou hoje os Estados Unidos com um ataque nuclear se tentarem derrubar o seu líder, reagindo à recente insinuação do director da CIA de concretizar uma mudança de regime no país comunista.

terça, 25 julho 2017 13:08 Publicado em Política

O Ministro da Cultura e das Indústrias Criativas - governante de um país onde "nove em cada dez acham que são cantores ou músicos" - garante, em entrevista à RDP, que não está apegado ao poder mas que em nenhum momento equacionou a hipótese de se demitir. Abraão Vicente está tranquilo em relação à forma como demitiu o director do IPC, até porque "um sms ou viber" são tão oficiais "como uma declaração"

terça, 25 julho 2017 09:53 Publicado em Mundo

Mais de mil operacionais combatem hoje de manhã o incêndio na Sertã, no distrito de Castelo Branco, em Portugal, esperando-se a chegada de dois aviões de Espanha para ajudar no combate, disse à agência Lusa Patrícia Gaspar, da Protecção Civil portuguesa.

terça, 25 julho 2017 09:14 Publicado em Economia

Combate ao desemprego, aumento das pensões e do salário mínimo nacional, formação profissional e resolução dos problemas dos funcionários da Administração Pública. São estas as áreas para as quais os parceiros sociais pedem a atenção do governo no Orçamento de Estado para 2018. 

terça, 25 julho 2017 09:04 Publicado em Economia

O presidente da Câmara de Comércio do Sotavento denunciou, na tarde desta segunda-feira, aquilo que considera ser o tratamento discriminatório dos empresários nacionais em relação aos estrangeiros, por parte da administração pública nacional.

terça, 25 julho 2017 08:43 Publicado em Sociedade

O navio Praia d'Aguarda volta a ligar a ilha do Maio com a capital do País na primeira semana de Agosto, avançou hoje o Ministro da Economia e Emprego, José Gonçalves.     

terça, 25 julho 2017 06:22 Publicado em Opinião

É sabido como as manifestações de racismo no mestiço podem ser silenciosas e subtis.

Conscientes e inconscientes.

 Noutras vezes, são de clara afectação camaleónica. Ao contrário do negro não podemos dizer que haja muita literatura sobre a condição tão sui generis quanto intrigante do mestiço. Ensaios sobre o seu pensamento, suas angústias, sobre o seu lugar na sociedade, são textos raros. Não nos deparamos facilmente com um James Baldwin preocupado e reflectindo sobre a mestiçagem e a sua ambígua situação. Talvez por ser esta bem mais complexa e seguramente mais difícil de definir. Definir é classificar, com todos os equívocos e riscos que daí advêm. Finalmente, a mestiçagem, como todos sabemos, também pode ser cultural e não apenas epidérmica ou capilar.

A segregação racial definiu, ela sim, prontamente as suas regras, os hábitos e os costumes, sem esquecer as leis e as punições para os prevaricadores. Nada de lacunas ou vazios legais, disse o frio legislador. Por seu lado, o olhar do mestiço foi umas vezes contemplativo e outras distanciado; noutras, roçou-se mesmo um sentimento de alívio. Alguns terão colocado a sua condição ‘purgatória’ em risco por um dedo erguido em favor dos negros. Quase sempre viveu o mestiço em negação da sua negritude, o primeiro reflexo da sua crise de identidade. Teve de lutar contra essa dúvida e a incerteza constante que lhe causavam a auto percepção, e a consciência de que o lugar que ocupava na sociedade estava directamente ligado ao tom mais claro ou menos claro da sua pele.

Graças à nossa maior instrução infiltrámos o aparelho administrativo colonial português e tirámos vantagens em relação aos povos africanos dominados por eles. Basta recuarmos no tempo para encontrar a nossa indelével marca na infâmia que é o tráfico negreiro, na figura dos últimos capitães, como o foguense Caetano Nazolini, que lucraram com o negócio, como renegados do avanço civilizacional.

Na adolescência, em Lisboa, os meus colegas faziam de mim cúmplice das suas brincadeiras racistas mostrando-me, indirectamente, claro, até que ponto eu poderia passar por branco. A consciência mestiça procurou sempre abrigo e fez da proximidade cultural e racial ‘branca’ a sua zona de conforto. Umas vezes por uma questão de sobrevivência, devemos reconhecê-lo, mas quase sempre pela negação pura e simples dessa área obscura e desconhecida.

Os diferentes tons de pele sempre existiram na nossa família. Aparentemente, o tema em si é aquilo a que se poderá chamar de um não-assunto, mesmo que nunca tenha ouvido a minha mãe dizer que fulano ou sicrano era um preto alto e bonito de olhos negros, da mesma forma como se derretia ao apontar alguém alto, branco branco d’ odj azul. O seu pai Francisco ‘Nênê’, era branco d’ odj claro, naturalmente.

A cultura preconceituosa fez de nós falsos brancos e pretensos aprendizes de colonizadores nas relações com os povos do continente. A triste veleidade revelava-se sempre que o capataz natural das ilhas substituía o chefe de posto local branco ou o administrador de concelho nas suas prolongadas férias graciosas na metrópole. E sempre que bebíamos uísque ao entardecer ou jogávamos ténis com os colonizadores, experimentávamos, por momentos, essa vertigem do até podíamos ser nós. A condição social de quase-brancos permitia-nos frequentar festas e bailes das sociedades locais, e no meio da vertigem e da animação perdemos o norte e criámos o hábito de chamar indígenas e desprezar aqueles cujo sangue corria também nas nossas veias. Um colaboracionismo velado, hoje bastante incómodo, silenciado. Uma história ainda por contar.

Séculos de isolamento criaram o fosso e aprofundaram esta aversão e distanciamento cultural para com o ‘gente gentio’, os mais negros do que nós, os mais distanciados dos ‘valores dignos do progresso civilizacional’. E embora os nossos marinheiros tivessem convivido com estes homens, nas suas viagens pelo mundo, nunca se consideraram iguais, mesmo sendo a sua tez em tudo idêntica. A expressão preta fina, tão cara às gerações mais velhas, delega no adjectivo a principal missão de resgatar a pessoa da sua cor de pele indesejável, atribuindo-lhe, ainda assim, uma qualidade especial no cambiante dos tons da negritude.

Pelo menos uma vez na vida somos confrontados com a mesma angústia de Joe Christmas, atolado no mistério da sua obscura origem negra. Experimentámos sentimentos contraditórios que constituíam a carne deste mestiço sulista, saído da pena de William Faulkner, em Luz de Agosto. Recordo-me como me marcou igualmente o abismo de Coleman Silk, de Philip Roth, o enigmático professor catedrático de A Mancha Humana que preferiu cortar caminho e fazer-se passar por judeu, namorar mulher branca e fugir à nódoa do destino de seus pais e avós.

A dúvida existencial era se seríamos, de facto, pretos, como afirmavam alguns colegas da minha escola primária.

Talvez tivessem sido levados pela quantidade de pessoas de pele escura que subiam e desciam as escadas do nosso prédio ou dos familiares que me iam buscar à escola.

Está também ainda por escrever a história da perversidade entre as crianças.

Nunca soube ao certo a que categoria pertencíamos. Na maior parte das vezes estávamos mais próximos deles, em especial quando víamos um luzidio Ricardo Chibanga ‘triunfando’ na arena do Campo Pequeno. Aos brancos, os mais velhos referiam-se-lhes sempre como mandrongo, uma palavra hoje claramente em vias de extinção (em bebé, as minhas irmãs mais velhas chamavam-me mandronguinho) No meio disto tudo, as pessoas de pele clara só contribuíam para aumentar ainda mais a minha confusão. A tia-avó Tanha era escura e tinha o nariz adunco de índia americana, com tranças brancas até ao peito; por seu lado, a tia Mana era inequivocamente branca. Usava peruca sixties e óculos de sol como Jackie Kennedy e ria tão alto como as mulheres brancas ricas, mostrando os seus dentes alvos e uniformes. No entanto, o tio José, que na verdade não era tio mas primo em segundo grau, era completamente escuro.

Nos anos sessenta, dois outros tios marinheiros, Simão e Salomão, naturais do Campinho, São Nicolau, foram barrados à porta de um clube nocturno, em Jacksonville, nos Estados Unidos. Contaram que de início não entenderam muito bem o que se estava a passar, pois estavam bem vestidos, de fato e gravata como qualquer um daqueles clientes americanos. Uma semana antes tinham-se divertido em Panamá City, e preparavam-se para mais um fim-de-semana de festa na Florida. Mas o clube era só para brancos - whites only, respondeu-lhes o porteiro.

Na verdade, apesar de claros de pele, nenhum deles tinha cabelo fino de branco caucasiano. Ambos tinham narizes e lábios suaves e eram altos e magros, com mãos ossudas e compridas. Costumavam usar grandes anéis de ouro e fios de prata ao pescoço, e sempre que desembarcavam em Lisboa passeavam pela Baixa altivos e orgulhosos, como se acabassem de adquirir alguns dos quarteirões da parte velha da cidade. A realidade é que, nós os mais novos da família, éramos cabo-verdianos dentro de casa e portugueses na rua, pelo menos para as outras crianças do bairro. E eu, o único filho de pai português, o único irmão de cabelo liso, tinha as portas abertas, como um príncipe.

Então, no início dos anos oitenta aconteceu algo que acabou por abalar ainda mais os alicerces do meu frágil edifício identitário. A notícia não estava assinada e a história do Canibal de Odivelas, que espalhou o medo e a desconfiança entre as famílias portuguesas, vinha em forma de uma simples coluna. E este é um daqueles momentos que se pode chamar de verdadeira catarse social.

Foi publicada no jornal O Jornal, a 13 de Março de 1981 e começava por referir o acto surpreendente e trágico de canibalismo que agitara, a semana anterior, o país. Carla Cristina, uma menina de oito anos, fora atacada e assassinada por um cabo-verdiano.

Não contente o indivíduo devorou-lhe ainda partes do ventre.

Tudo acontecera, segundo o jornal, em Odivelas, às portas de Lisboa, depois de a menina sair de casa bem cedo para comprar pão e leite. Augusto Dias Martins, de 30 anos, servente de pedreiro numas obras ali perto, atacou-a com uma faca, exigindo os alimentos que ela trazia consigo. O pai da menina, Francisco Figueiredo, contou que quando a sua mulher chegou à porta já o cabo-verdiano estava a comer a sua menina aos bocados. Tinha um corte na orelha e dois buracos na barriga. Apesar da presença dos pais, o homem continuou a sua tarefa. Só depois de o ter atacado com uma pedra ele fugiu, levando pedaços do fígado da jovem Carla nas mãos e na boca. Foi dizendo pelo caminho que a tinha matado e comido, que já tinha saudades de comer carne humana e que ainda lhe restavam mais três…

No lado direito da notícia, um anúncio de três quartos de página, de uma companhia de seguros, mostrava uma mãe segurando um bebé nos seus braços. Em baixo a frase, O meu filho tem mais um amigo, um amigo seguro… um amparo… um companheiro para os momentos difíceis.

Dias depois, um rumor posto a circular na cidade de Beja dizia que o cabo-verdiano em causa havia fugido da cadeia e fora visto nas redondezas acompanhado dos irmãos, numa espécie de horda canibal. O pânico instalou-se nas escolas primárias e infantários do Alentejo. Em Lisboa, as famílias passaram a recolher mais cedo os seus filhos, sobrinhos e netos.

Dois longos artigos no mesmo jornal abordaram o insólito episódio do ponto de vista daquilo que terá chocado mais as pessoas: a antropofagia, cometida ali mesmo na rua, na sua cidade. E para melhor compreender o fenómeno e afastar o espectro de linchamentos públicos, foram recolhidas opiniões de professores universitários e psicólogos.

 Explicar o inexplicável, o horror num país de brandos costumes.

D. Pedro também mastigara o coração dos assassinos da sua amada Inês, num gesto de pura loucura em forma de amor, capaz de emocionar ainda hoje o mais simples dos plebeus. Augusto Dias Martins, o negro das ilhas, alimentara-se, vorazmente, da menina ainda viva.

Um misto de repulsa e fascínio.

Brandos costumes empapados em sangue.

Na verdade, nunca consegui compreender as explicações apresentadas pelo jornal português para aquele acto:

1) a loucura como resposta à humilhação do imigrante e a ruptura dirigida contra os mais velhos e as crianças, os mais expostos e mais fracos;

2) a vontade de ser branco, amado e puro – coisas que, como escreveu o articulista na altura, o imigrante de Cabo Verde consubstanciou numa criança inocente, como justificação para sorver o fígado de Carla Cristina.

O órgão em questão também não resultou de um acaso. Estava-se a falar do mais nobre de todos, mais até que o próprio coração, insubstituível, onde se acreditava estar a alma, a força e a personalidade dos indivíduos.

A imagem do cabo-verdiano mastigando as entranhas da menina lançou um sentimento de terror pelo país e o caos na minha consciência de filho de imigrantes. As pessoas passaram a sonhar com exércitos de negros malvados e o mais leve comportamento suspeito era de imediato denunciado nas esquadras da polícia. A vigilância foi apertada nos transportes públicos e ameaçaram com uma caça-às-bruxas em massa contra cabo-verdianos estudantes, trabalhadores das obras e empregadas domésticas. À porta dos cafés do bairro e a coberto da minha secreta mestiçagem, escutei conversas de operários metalúrgicos, ex-combatentes do Ultramar, revoltados contra a pretalhada turra de Cabo Verde, que agora comia crianças inocentes.

Durante anos, uma imagem obscura de Augusto Dias Martins, provavelmente sintetizada dos poucos naturais da ilha de Santiago que eu conhecia, acompanhou-me por toda a parte. Assim como a prostração dos pais ante a menina inocente ensanguentada, que para a maioria dos leitores do jornal não era mais do que outro episódio na fileira dos destinos humildes e dolorosos. O trágico incidente acordava em mim a ideia de recriminações da má sorte e da fadiga que um episódio tão tremendo poderia provocar para o resto da vida, ou de que como coisas tão inexplicáveis poderiam acontecer, com o romper de mais um dia. Nada conseguia apagar os vislumbres de raiva e de ternura de um pai para sempre mutilado ou de um doente mental falando horas a fio para um canto da sala do manicómio. Talvez sonhasse com espigas de milho dos campos do planalto de Santa Catarina, altivas ao vento, mas que, como sabemos, podem ser também metáforas douradas da imperfeição do mundo.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 816 de 19 de Julho de 2017

terça, 25 julho 2017 06:19 Publicado em Eitec

Maryam Mirzakhani, a iraniana que recebeu a Medalha Fields em 2014, tinha 40 anos e ensinava em Stanford, na Califórnia.

segunda, 24 julho 2017 17:53 Publicado em Economia

Os trabalhadores da TACV que vão ser despedidos depois do fim da operação doméstica da companhia mantém-se na empresa, durante mais algum tempo, depois de 1 de Agosto, anunciou hoje no Parlamento, o ministro da Economia, que continua a não revelar o número de funcionários a dispensar. 

segunda, 24 julho 2017 16:55 Publicado em Desporto

O velocista internacional cabo-verdiano Jordin Andrade venceu,esta tarde, a medalha de ouro nos Jogos de Francofonia nos 400 metros barreiras com o tempo de 49:63 segundos, realizado no Estádio Nacional Félix Houphouet-Boigny, em Abijan (Costa Marfim).

segunda, 24 julho 2017 16:43 Publicado em Política

Crescimento económico, diminuição do desemprego e redução da pobreza. Estas são as principais medidas que os partidos políticos, com assento parlamentar, querem ver espelhadas no orçamento de Estado para 2018.

segunda, 24 julho 2017 15:11 Publicado em Política

O grupo parlamentar do Movimento para Democracia (MpD) destacou hoje a importância do acordo de concertação estratégica assinado em Junho pelo governo e parceiros sociais. A posição do grupo foi expressa no Parlamento, numa declaração política apresentada pelo deputado Luís Carlos Silva, no período antes da ordem do dia.

segunda, 24 julho 2017 15:10 Publicado em Mundo

A Europol anunciou hoje a detenção de 107 suspeitos numa operação pan-europeia contra o tráfico de pessoas para fins de exploração sexual, que poderá ter afectado 910 vítimas.

segunda, 24 julho 2017 12:46 Publicado em Política

O primeiro-ministro afirmou hoje que a gestão do tempo é um grande problema da Administração Pública nacional. Ulisses Correia e Silva quer que a administração do Estado seja facilitadora da actividade económica.

Expresso das Ilhas

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